Como o confinamento afeta o nosso cérebro?

maio 22, 2020
Cada um de nós lida com o confinamento de uma maneira. No entanto, nosso cérebro pode sofrer efeitos muito particulares no contexto atual. Conhecê-los nos permitirá aplicar uma série de estratégias para cuidar melhor da nossa saúde mental.

Dependendo de muitas circunstâncias, o confinamento pode nos afetar de uma maneira ou de outra. Cada um de nós vive uma situação única em um contexto único, e passamos por circunstâncias particulares. Por outro lado, dentro da nossa própria singularidade, estamos todos sob uma circunstância que impõe limites muito fortes e extraordinários e que nos condicionam de maneira importante.

Se nos referirmos a estudos prévios sobre esse fato, vale ressaltar que não existe um trabalho conclusivo a que possamos fazer referência, porque nunca havíamos passado por uma realidade semelhante. No entanto, podemos citar a pesquisa que foi realizada no King’s College London e publicada na revista The Lancet.

Em 2003, foi realizado um confinamento em 10 países devido ao SARS. Também estão disponíveis dados sobre os isolamentos realizados a cada ano por conta do Ebola. Todos esses dados, sem dúvida, nos fornecem uma base para compreender quais efeitos e consequências mentais esses contextos podem implicar.

Por outro lado, e não menos interessante, também existem trabalhos impressionantes sobre as consequências do confinamento nas prisões. No entanto, como podemos imaginar, a situação não é a mesma que estamos enfrentando agora, embora existam elementos comuns.

Todas essas pesquisas nos ajudam a entender o impacto que isso pode ter no cérebro e quais estratégias podemos aplicar para melhorar a nossa sensação de bem-estar.

Os efeitos do confinamento no cérebro

Consequências do confinamento por coronavírus para o nosso cérebro

Os especialistas alertam que quem mais sofre com essa realidade é quem fica sozinho durante o confinamento. Sem dúvida, os idosos são o grupo mais vulnerável.

Para entender quais consequências as situações mais graves de confinamento podem ter, apenas como um exemplo mais dramático, podemos falar de Robert King, um homem que passou 29 anos de sua vida na Penitenciária do Estado da Louisiana.

Robert foi preso por um crime que não cometeu e, até ser libertado, teve que desenvolver estratégias mentais para resistir a um confinamento em completa solidão.

Apesar da sua força mental, as consequências de passar três décadas naquela situação ficaram evidentes: problemas de memória, problemas de orientação, dificuldades de socialização, transtornos do humor, problemas de atenção e até crises psicóticas.

Nosso cérebro não está preparado para viver em situações de isolamento completo.

Felizmente, o contexto em que estamos agora é diferente: estamos confinados, mas mantemos contato social com outras pessoas através da tecnologia.

Dispomos de meios e ferramentas, temos família, amigos, vizinhos e canais para entreter a mente. Um isolamento na companhia de alguém ou com estímulos constantes para nos distrair amortece os efeitos negativos, o que é uma vantagem.

Vamos descobrir, no entanto, como o confinamento afeta o cérebro.

Em que dia estou?

À medida que os dias de confinamento se prolongam, podemos apresentar falhas ao determinar o dia em que estamos. A razão para isso é simples: como seguimos sempre as mesmas rotinas, chega um momento em que fazemos a mesma coisa, seja segunda-feira ou sábado. Assim, perdemos os pontos de referência.

Se até recentemente esperávamos as sextas-feiras, agora nos concentramos mais no momento imediato, em tentar estar bem aqui e agora, independentemente do dia.

Sensação de alerta: algo vai acontecer

Nosso cérebro não lida bem com a incerteza, quando parece que nossa capacidade de fazer planos é ameaçada. Vamos admitir, essa é a realidade que vivemos agora.

Cada pessoa lidará com essa dimensão de uma maneira melhor ou pior. No entanto, nos casos mais problemáticos, é comum começar a sentir que “algo vai acontecer”.

Se dermos relevância a essa ideia e sentimento, começaremos a sofrer de insônia e até poderemos apresentar comportamentos dominados pelo pânico. De acordo com um estudo realizado em 2016 por neurocientistas da University College London, precisamos saber alguns aspectos:

  • Diante da incerteza e do fato de não saber o que acontecerá amanhã, o cérebro age alimentando o medo.
  • Ele nos fará focar a atenção em ideias negativas e irracionais.
  • Precisamos controlar esse enfoque nos concentrando no momento presente: não criar expectativas, preocupar-nos apenas em estar bem no aqui e agora, proporcionar a nós mesmos o que precisamos: um descanso, uma ligação, ler um livro…

Pensamento excessivo: sobrecarga mental

Uma das maneiras por meio das quais o confinamento afeta nosso cérebro é a exaustão mental. Quase sem perceber, começamos a gerar um pensamento após o outro até criar uma sobrecarga mental à qual ficamos presos. Esse efeito também é uma consequência direta do medo e da incerteza.

Nos preocupamos com muitas coisas e, evidentemente, preocupar-se é compreensível no contexto atual. No entanto, temos que saber que tudo tem um limite. Se deixarmos que essa sobrecarga mental aumente todos os dias, o demônio da ansiedade se fará presente.

Para resolver essa situação, existe uma estratégia: limitar a preocupação a um ou dois momentos do dia. Quando a preocupação surgir, nós a aceitaremos e analisaremos cada pensamento com calma.

Pergunta-se se essa ideia é real ou se é apenas um pensamento catastrofista. Se esse pensamento não é útil e apenas piora o desconforto, deixe-o ir.

Altos e baixos emocionais

Quem já não os sofreu? Os altos e baixos emocionais são perfeitamente normais nessas circunstâncias. Passar da efusividade ao descuido, da motivação ao desânimo e da expectativa ao medo é algo pelo qual todos nós estamos passando. Devemos aceitar essas experiências emocionais como uma parte do nosso mecanismo de sobrevivência.

No entanto, é essencial não deixar que os estados mais negativos nos façam cair em um estado de desamparo. O medo e a tristeza devem ser nuvens passageiras. Eles se instalam em alguns minutos, mas devem ser eliminados.

Mulher se sentindo bem durante o confinamento

Sensação de irrealidade: nossa vida de antes parece cada vez mais distante

Este é outro fenômeno curioso relacionado à forma como o confinamento afeta o nosso cérebro. Na verdade, é algo muito semelhante ao que as pessoas que estiveram em câmaras de isolamento sensorial experimentaram. De repente, nossa vida de antes parece distante e quase irreal. O que somos ou éramos antes parece nos fugir à memória.

É um efeito do cérebro. Esse órgão nos dá a sensação de que se passaram meses desde a última vez em que saímos para a rua normalmente. Diante disso, podemos reagir das seguintes maneiras:

  • Permanecer ativos nas tarefas relacionadas ao nosso trabalho.
  • Nutrir a interação com as pessoas próximas a nós. Sempre que fizermos uma ligação ou uma chamada de vídeo, tentemos lembrar com esses amigos ou familiares os bons momentos que vivemos.
  • Definir metas para o futuro próximo. Convençamos nosso cérebro de que isso vai acontecer e de que temos objetivos e sonhos a cumprir.

Para concluir, o que estamos vivendo agora é algo único e excepcional. É difícil prever como cada pessoa reagirá, mas, em geral, todos nós estamos enfrentando a mesma situação da melhor maneira possível.

  • Brooks, S. K., Webster, R. K., Smith, L. E., Woodland, L., Wessely, S., Neil Greenberg, Fm. James Rubin, G. (2020). The psychological impact of quarantine and how to reduce it: Rapid review of the evidence. The Lancet6736(20). https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30460-8