O confinamento pode mudar o nosso caráter?

maio 22, 2020
O confinamento e a situação atual podem, de alguma forma, mudar o nosso caráter? Algumas pessoas afirmam que ficaremos mais fortes e que daremos forma a uma sociedade mais solidária. Outras, por outro lado, dizem que o sentimento de angústia e o medo constante do contágio aumentarão.

De uma maneira ou de outra, o confinamento pode mudar o nosso caráter. O efeito da pandemia é mais intenso e traumático para uma determinada parte da população, especialmente para aquelas pessoas que sofreram perdas. Outras, por outro lado, sentirão um pouco menos seus efeitos, mas ninguém está completamente imune às experiências pelas quais estamos passando atualmente.

Nossos pensadores, filósofos e historiadores têm uma opinião dividida sobre o efeito da pandemia e do confinamento. Keith Lowe, historiador renomado, destaca que a sociedade de hoje não é tão sábia quanto a de nossos avós, e que o vivido durante esse período não nos será de muita utilidade. Voltaremos a apresentar os mesmos defeitos de forma crônica.

Michel Wieviorka, sociólogo francês, tem uma opinião diferente. Essa experiência nos forçará a reformular prioridades e contribuirá para criar uma sociedade mais solidária, na qual valorizaremos o apoio mútuo. O vírus, segundo ele, nos impõe uma metamorfose que devemos aproveitar para sermos melhores.

Adela Cortina, professora de ética da Universidade de Valência, nos lembra que, na luta pela vida, não são os mais fortes que sobrevivem, mas os que se apoiam, e que esse será um valor sagrado que devemos preservar e ter em mente no futuro.

Confinamento

De que maneira o confinamento pode mudar o nosso caráter?

Para entender se o confinamento pode mudar o nosso caráter, devemos primeiro esclarecer o que queremos dizer quando falamos dessa dimensão.

O caráter define nossa maneira de reagir ao que acontece. É um componente da personalidade e surge como consequência do que vivemos e experimentamos, e também da nossa predisposição genética.

Ernst Kretschmer e William Stern foram os autores que mais estudaram essa dimensão no século XX, destacando que o caráter é composto pela nossa emocionalidade, interesses e ressonância. Essa última área refere-se ao nosso limiar de sensibilidade quando um evento, uma experiência ou um estímulo nos afeta.

Existem pessoas cada vez menos ressonantes. Portanto, cada um é impactado por essa situação de maneiras e intensidade diferentes. Vejamos.

Saúde mental e personalidade

Há pessoas que já sofriam de ansiedade antes da chegada da pandemia. Outras começaram a lidar com essa condição psicológica durante o confinamento. Assim, de todos os efeitos que a situação atual pode ter sobre a saúde mental, os transtornos de ansiedade são os mais frequentes. 

Fatores como a incerteza profissional e pessoal, o medo em relação a novos surtos de contágio ou o efeito do próprio confinamento geralmente agravam o nível de ansiedade.

Assim, para entender se o estresse e a ansiedade que sofremos durante o confinamento podem mudar o nosso caráter, há um fator determinante: a duração.

Se essa situação durar meses, podemos sofrer mudanças, como um maior pessimismo, sensação de alerta e angústia.

Um estudo realizado pelo Dr. Gran Shields, da Universidade da Califórnia, destaca esse mesmo fato. A personalidade pode variar quando nos encontramos em uma situação em que o estresse é constante. Por outro lado, se essa situação for resolvida o mais rápido possível, o efeito será mínimo.

Mulher preocupada

Se nossos hábitos de vida mudam, aspectos do nosso caráter também mudam

Existe uma relação quase determinante no que diz respeito à psicologia humana: o ambiente nos condiciona. Se há um contexto que muda abruptamente, se somos forçados a mudar nossos hábitos de vida, muitos aspectos do nosso caráter podem sofrer alterações.

O simples fato de ter que depender de máscaras para ir trabalhar ou encarar o dia a dia pode nos afetar. O medo do contágio estará presente e isso aumentará a nossa hipervigilância. 

Além disso, a limitação do livre movimento e do contato social também podem nos afetar, aumentando a presença de emoções como a tristeza e até a frustração.

O impacto dessas realidades sempre dependerá da duração dos eventos atuais.

Crianças e idosos, os mais afetados

Possivelmente, os mais afetados durante essa pandemia são as crianças e os idosos. As crianças, especialmente as menores de 14 anos, são as que mais sofrem devido ao fato de terem sido afastadas do ambiente escolar, onde tinham contato com os colegas. A socialização, as brincadeiras e o contato com o exterior são essenciais para elas.

Da mesma forma, o fato de estar em casa e conviver com os pais preocupados também pode afetá-las e ter um impacto psicológico grave.

Por outro lado, não podemos nos esquecer dos idososMuitos deles estão passando pelo confinamento sozinhos e sabendo pela mídia como a pandemia afeta a população de maior idade.

Como o confinamento pode mudar o nosso caráter?

O confinamento pode mudar nosso caráter: vigilantes, mas com a oportunidade de ficarmos mais fortes

O confinamento pode mudar o nosso caráter de uma maneira ou de outra. Tudo depende, como bem destacamos, da duração dessa pandemia e das possíveis mudanças que possam ocorrer posteriormente. No entanto, há um fato inegável: ficamos um pouco mais hipervigilantes e cuidadosos em questões de higiene. No entanto, podemos sair dessa com um caráter fortalecido.

A adversidade nos muda e, muitas vezes, o faz despertando forças e alimentando novos valores e capacidades. Esta parte do caminho, mais pedregoso e abrupto do que o habitual, exige o melhor de nós mesmos. Lembremos de nossos significados vitais, nossos propósitos, e avancemos nessa etapa da nossa existência com ousadia e confiança.

Ao nosso redor sempre haverá mãos prontas para nos ajudar.

  • Church, A.T. (2000). Culture and personality: Toward an integrated cultural trait psychology. Journal of Personality, 68(4), 651–703.
  • Grant S. Shields, Toussain. Lauren (2017) Stress-related changes in personality: A longitudinal study of perceived stress and trait pessimism. Journal Research Personality. 2016 Oct; 64: 61–68. doi: 10.1016/j.jrp.2016.07.008