Efeitos do confinamento em pessoas com problemas prévios de saúde mental

maio 22, 2020
Depressão, problemas de dependência, esquizofrenia, anorexia... Muitas pessoas (e suas famílias) estão passando pelo confinamento com um problema mental ou distúrbio psicológico. São realidades invisíveis que precisam de uma resposta social e de saúde urgente.

Os efeitos do confinamento em pessoas com problemas prévios de saúde mental são um aspecto que talvez esteja sendo negligenciado. Temos nos esquecido das pessoas que já tinham um distúrbio psicológico, que tinham problemas de dependência, das pessoas que cuidam de familiares com esquizofrenia ou transtorno de personalidade limítrofe ou que, por exemplo, sofrem de bulimia ou anorexia.

Essas realidades silenciadas sobrevivem com grande dificuldade dentro de casa. Frequentemente, com recursos limitados e com uma resposta social e profissional insuficiente, que não cobre todas as necessidades, todas as urgências e todos os problemas.

Muito recentemente, organizações como a Universidade de Washington alertaram que um efeito adicional da pandemia atual seria uma onda de depressão causada pela situação atual. Contudo, o grupo de pessoas com problemas prévios de saúde mental não está sendo levado em consideração.

Os psicólogos alertam para o aumento das recaídas. Eles chamam a atenção para a urgente necessidade de desenvolver acompanhamentos e redes de apoio eficazes, além de permitir que os profissionais viajem para monitorar a situação desses pacientes. Porque, às vezes, uma ligação ou uma conversa por vídeo não é suficiente. Porque somente com a presença física o especialista consegue perceber crises, retrocessos ou momentos críticos que podem abrir caminho para respostas dramáticas.

Mulher com crise de ansiedade: os efeitos do confinamento em pessoas com problemas anteriores de saúde mental

Efeitos do confinamento em pessoas com problemas anteriores de saúde mental

Se os problemas de saúde mental já eram invisíveis antes da pandemia, agora permanecem em uma sombra ainda mais distante e, acima de tudo, negligenciada. Muitas das pessoas que sofrem com esses problemas perderam suas rotinas. Os grupos de apoio e as terapias que permitiam a realização de progressos valiosos não estão mais lá. Agora, na solidão de um apartamento, alguns retornam aos seus vícios.

Outros estão à beira da recaída da depressão. Muitos ficam sem saber como reagir diante do filho que não quer mais tomar os remédios para a sua condição psiquiátrica. A variabilidade de cada caso é muito ampla e os efeitos do confinamento são imensos.

A população chinesa já teve que considerar essa situação. De fato, recentemente foi publicado um estudo na revista The Lancet no qual os doutores Hao Jao e Jian Chen se aprofundaram nessa questão.

  • Foi possível notar que as pessoas com problemas mentais correm um maior risco de contrair o coronavírus.
  • Muitas delas têm um sistema imunológico enfraquecido. Outras têm uma tendência maior a quebrar o confinamento e criar comportamentos de risco que aumentam o contágio.
  • Da mesma forma, os problemas de saúde mental também apresentam comorbidades com outras doenças. Isso aumenta a vulnerabilidade à infecção.
  • Outro fator adicional é a dificuldade de receber atendimento médico e psicológico adequado quando precisam.

Vamos ver mais alguns fatores dos efeitos do confinamento em pessoas com problemas anteriores de saúde mental.

Homem preocupado

Transtornos mentais em tempos de pandemia: realidades negligenciadas

Os efeitos do confinamento em pessoas com problemas anteriores de saúde mental estão criando desigualdades. Algumas têm mais dificuldade do que outras para procurar apoio e assistência.

Uma boa parte dessas pessoas ficaria agradecida, por exemplo, por poder sair na rua em algum momento do dia. Devemos pensar que existem muitas pessoas que vivem em apartamentos pequenos que mal recebem luz solar.

Essa situação, somada a um transtorno ou uma doença mental, agrava a situação. No entanto, há mais problemas que devem ser considerados:

  • O contexto atual é um gatilho para quem sofre de fobias, transtornos obsessivos compulsivos ou pensamentos intrusivos.
  • Muitas pessoas, depois de anos de terapia, aprenderam a lidar com a angústia e a buscar estratégias para enfrentar as preocupações cotidianas. Contudo, a presença de uma pandemia é algo que as sobrecarrega e, de repente, as deixa em um estado de grande desamparo. Nada do que foi aprendido parece funcionar.
  • Qualquer pessoa que passou por um trauma pode revivê-lo no contexto atual.
  • Aqueles que recorriam à automutilação ou ao abuso de substâncias veem essa situação como um gatilho para retornar a realizar esses comportamentos.
  • No passado, alguns pacientes já foram internados em uma ala psiquiátrica de um hospital. O atual confinamento os leva de volta a esses momentos, e a angústia se agrava.
  • Esses pacientes não podem voltar às terapias, aos grupos de apoio e às rotinas que os ajudavam.

Efeitos do confinamento em pessoas com problemas anteriores de saúde mental: qual estratégia seguir?

Os efeitos do confinamento em pessoas com problemas anteriores de saúde mental podem ser muito problemáticos. Há pacientes que os enfrentam sozinhos. Outros, juntamente com famílias que sentem o medo e o desamparo de não saber o que fazer. Na medida do possível, devemos considerar as seguintes estratégias:

  • Seguir as rotinas e os horários preestabelecidos. Fazer o mínimo que garanta o nosso bem-estar: descansar, comer, fazer exercício, ter momentos de lazer, etc.
  • O ideal seria estabelecer essas rotinas com o apoio de profissionais, especificamente as mesmas pessoas que eram responsáveis pelos casos antes da pandemia.
  • Devemos lembrar que pedir apoio e ajuda é válido e necessário. Merecemos ficar bem e, em momentos de crise, sempre haverá alguém que pode nos ajudar.
  • Devemos construir uma rede de apoio. Família, amigos, vizinhos, serviços sociais, associações, psicólogos e médicos devem formar uma rede que possa estar sempre atenta a essa pessoa com problemas de saúde mental ou transtornos psicológicos.
  • Contato constante. Mensagens, ligações e conversas por vídeo são um canal de ajuda diário e não podem faltar.
  • É sempre adequado relembrar as estratégias de enfrentamento que foram úteis no passado. Qualquer pessoa que já lidou com um transtorno ou problema sabe que sempre existe alguma coisa que ajuda, como os exercícios respiratórios, a leitura, a música, a arte, etc. Só é necessário relembrar qual é essa estratégia e mantê-la em mente para que possa servir como uma ferramenta diária para acalmar a mente.
Psicólogo: fonte de apoio emocional na quarentena

Para concluir, seja qual for a nossa situação, devemos nos lembrar de que não estamos sozinhos. Por outro lado, caso conheçamos alguém na mesma situação (sozinho ou com a companhia da família), podemos tentar nos fazer presentes.

Vamos nos aproximar e fazer parte dessa rede de apoio que sabe dar respostas, que sabe estar presente para quem mais precisa.

  • Jian-Hua Chen, Yi-Feng Xu. Patients with mental health disorders in the COVID-19 epidemic. The Lancet Psychiatry VOLUME 7, ISSUE 4, PE21, APRIL 01, 2020 DOI:https://doi.org/10.1016/S2215-0366(20)30090-0