Fazer em casa: a nova alternativa em tempos de pandemia

maio 22, 2020
Fazer pão, tricotar, costurar, cultivar uma pequena horta... A quarentena está nos fazendo recuperar o prazer de realizar tarefas manuais, algo altamente benéfico para o cérebro, pois reduz a ansiedade e o estresse.

A quarentena não mudou apenas os nossos hábitos de vida. De alguma forma, também nos obrigou a aumentar nossa criatividade e a descobrir habilidades que estavam adormecidas. O movimento “fazer em casa” caracteriza essa fase da pandemia em que cozinhar, fabricar, construir e até ser o seu próprio cabeleireiro se tornou algo comum.

Isso significa que quando voltarmos à normalidade deixaremos de ir à padaria todos os dias e não precisaremos mais de um cabeleireiro? A resposta é não. Quando retomarmos nossas obrigações e ritmo de vida, sem dúvida enfrentaremos várias mudanças, mas não deixaremos de usar os serviços básicos oferecidos por profissionais de cada setor.

No entanto, em tempos de dificuldade, sempre surgem grandes soluções para necessidades inesperadas. Vimos isso, por exemplo, nas maravilhosas mobilizações de homens e mulheres para costurar máscaras. Agora, algumas pessoas também as fazem em casa para terem uma personalizada, uma que se adapte aos gostos e estilos das crianças da casa.

Muitos aprenderam a costurar, cozinhar e até cultivar um pequeno jardim. Na maioria das vezes, não fazemos isso por necessidade, porque há falta de determinados produtos. Trata-se apenas de preencher o tempo, libertar a imaginação e tornar os dias mais suportáveis, mesmo com os muros físicos e mentais erguidos pela quarentena.

Cortar o cabelo em casa

Fazer em casa: mais do que uma necessidade, um prazer

Durante essas semanas, as redes sociais ficaram repletas de fotos de pessoas mostrando o resultado do tempo que passaram na cozinha. Vimos todos os tipos de pães. Nos surpreendemos com receitas incríveis das sobremesas mais bonitas, cada uma melhor do que a outra. Até pouco tempo, a tendência era o nhoque, ou gnocchi, e se tivermos que ficar em quarentena por mais tempo, certamente outro tipo de comida ou sobremesa se tornará tendência.

No movimento fazer em casa não falta o efeito contágio. O que vemos no Instagram acaba despertando nossa curiosidade e desejo de imitação. Isso fez, por exemplo, com que as vendas de fermento e farinha disparassem nos supermercados.

No entanto, apesar desses comportamentos ainda serem curiosos do ponto de vista psicológico, devemos considerar um aspecto.

É verdade que não podemos fazer compras todos os dias e que, às vezes, podemos sentir falta de pão ou bolo frescos. No entanto, se muitas pessoas se voltaram para a cozinha, não é por necessidade: é por prazer e para passar o tempo.

Trabalhar com as mãos é terapêutico e ajuda a reduzir a depressão

Cada um lida com o tempo em confinamento como pode e deseja. Escolher uma vida mais tranquila e fazer o mínimo é tão válido quanto realizar uma atividade após a outra.

Seja como for, o movimento fazer em casa tem uma vantagem que é importante destacar. Trabalhar com as mãos, executar tarefas manuais e criativas é benéfico para a saúde do cérebro e ajuda a reduzir a depressão.

Um trabalho muito interessante fala sobre isso. A Dra. Kelly Labert, neurocientista da Universidade de Richmond, nos Estados Unidos, publicou o livro Lifting Depression: A Neuroscientist’s Hands-On Approach to Activating Your Brain’s Healing Power, que fala sobre isso.

Cozinhar, costurar, tricotar, modelar, pintar, desenhar, cultivar, etc. focaliza nossa atenção no momento presente, regula as emoções, reduz o estresse e até aumenta a plasticidade do cérebro. Poderíamos dizer que essas tarefas são ideais para o momento atual.

Trabalhar com as mãos é terapêutico

Faça em casa e descubra que você também pode ser autossuficiente

Alguns começaram seu projeto de cultivo em sua varanda, quintal ou pequeno jardim. Ao plantar sementes, vê-las crescer e descobrir como um vegetal germina nos damos conta de que poderíamos nos alimentar daquilo que cultivamos.

Fazer pão, cortar o cabelo, costurar ou até iniciar um curso à distância nos faz perceber que, às vezes, podemos realizar pequenas coisas sem sair de casa.

Podemos ser autossuficientes em relação a determinados produtos e serviços de maneira limitada, é verdade, mas é um começo. Talvez esse tempo de confinamento nos permita duas coisas:

  • A primeira, valorizar muito mais todas as pessoas que garantem a nossa subsistência todos os dias (funcionários de supermercado, agricultores, etc.).
  • A segunda é descobrir, graças à tendência de fazer em casa, que cada um de nós é capaz de realizar muito mais coisas do que pensávamos. E de que gostamos dessas coisas.

O trabalho feito à mão é muito gratificante, e isso nos permite apreciá-lo muito mais. Tanto é assim que talvez o utilizemos no futuro para fazer uma pequena horta orgânica ou para comer de maneira mais saudável ao recorrer a receitas caseiras e evitar alimentos industrializados e comidas prontas. Pensemos nisso.

  • Heuninckx, S., Wenderoth, L., & Swinnen, S. (2008). Systems Neuroplasticity in the Aging Brain: Recruiting Additional Neural Resources for Successful Motor Performance in Elderly Persons. Journal of Neuroscience, 28 (1) 91-99; DOI: https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.3300-07.2008
  • Kays, Jill L., et al. (2012). The Dynamic Brain: Neuroplasticity and Mental Health. The Journal of Nuropsychiatry and Clinical Neurosciences. https://doi.org/10.1176/appi.neuropsych.12050109
  • Lambert, Kelly (2010) Lifting Depression: A Neuroscientist’s Hands-On Approach to Activating Your Brain’s Healing Power. Basic Books.