Firewalking: uma técnica de motivação perigosa

Firewalking: uma técnica de motivação perigosa
Gema Sánchez Cuevas

Escrito e verificado por a psicóloga Gema Sánchez Cuevas.

Última atualização: 28 novembro, 2017

O Firewalking, ou caminhar sobre brasas, é uma técnica polêmica de motivação que se tornou moda nos últimos anos. As objeções a esta prática abrangem um amplo espectro: alguns o consideram um método relativamente eficaz e outros afirmam que é uma completa farsa.

Ele é apresentado como uma técnica inovadora, mas na verdade, as primeiras referências a respeito da caminhada sobre brasas ardentes datam de mais de 4000 anos. Um ritual desse tipo ocorria na Índia e o seu propósito era religioso. Fazia parte de cerimônias de cura, iniciação, purificação, invocação de boa colheita e muito mais.

Sabe-se que existem comunidades ancestrais que ainda praticam a caminhada sobre brasas, como os Kahunas ou sacerdotes de vários grupos nativos no Havaí. Eles atualmente caminham sobre a lava ardente. Os nativos do Kalahari, na África, fazem rituais semelhantes.

O Firewalking não é algo novo. O que aconteceu é que, desde os anos 70, essa prática ressurgiu nos Estados Unidos e começou a se popularizar. Seu principal impulsionador foi Tolly Burkan, que afirmou ter lido um artigo de física na revista Scientific American e, desde então, começou a caminhar sobre brasas sem problemas. Ele publicou vários livros e esteve envolvido em uma suposta “abdução alienígena”.

“Uma verdade sem interesse pode ser eclipsada por uma falsidade excitante”.
– Aldous Huxley –

Homem sob uma nuvem de chuva

Os fundamentos do Firewalking

Os adeptos do Firewalking garantem que é uma técnica motivacional que facilita o desenvolvimento pessoal. Na sua opinião, é uma ferramenta muito útil para aumentar a autoconfiança, enfrentar os medos e estimular a motivação. Eles acreditam que se você conseguir caminhar sobre brasas ardentes, se sentirá mais capaz e mudará positivamente a imagem que tem de si mesmo.

Eles dizem que qualquer pessoa tem medo de caminhar sobre as brasas. No entanto, aquelas que superam esse medo e conseguem dar o primeiro passo se tornam mais fortes. Aparentemente, isso será extrapolado para a sua vida diária. É uma “mudança radical” para destruir crenças negativas e cultivar outras mais positivas.

O Firewalking é uma técnica promovida e praticada por alguns coaches. Eles costumam usar metáforas para introduzir ou melhorar crenças positivas sobre si mesmo. Caminhar sobre brasas ardentes seria uma metáfora do que acontece com os outros desafios que enfrentamos.

Caminhar sobre brasas

Os adeptos do Firewalking apontam que as experiências, tanto o sucesso como o fracasso, afetam a nossa programação mental, isto é, os nossos valores e crenças. A partir disso, cada um forma uma imagem do que é capaz de fazer. O resultado afetaria a autoconfiança. Eles indicam que a caminhada sobre brasas a 500°C contribui para uma reprogramação mental. Se você superar o desafio, modificará a sua autoimagem.

Firewalking: caminhar sobre brasas

No processo de Firewalking, devem ser concluídas três etapas, que são:

  • Identificação. Consiste em explorar as crenças limitantes e definir quais são os objetivos que cada um deseja alcançar, assinalando as programações mentais que o impedem.
  • Aprendizado. Está orientado para superar os medos e aprender a confiar em si mesmo para que seja possível avançar.
  • Mudança. Nesta etapa, se incentiva o desejo de mudança, pois o objetivo é que cada pessoa aprenda a quebrar as barreiras que a impedem de alcançar o que desejam.

O que se espera é que o firewalking ajude as pessoas a lidarem com situações difíceis. Com a experiência de caminhar sobre as brasas, a pessoa internaliza a ideia de que, se não avançar, se queima (se não continuar caminhando, o sofrimento é maior). Além disso, deve permanecer firme e continuar, não importa o que aconteça.

Atualmente o Firewalking é utilizado especialmente pelas empresas que buscam “capacitar” os seus funcionários. Algumas empresas que já recorreram a esta técnica são a Microsoft, a American Express e a Coca-Cola, entre outras.

O que acontece quando as pessoas andam sobre brasas?

O que se supõe é que a força mental de alguém que consegue caminhar sobre brasas ardentes seja tão grande que sai do outro lado sem nenhum ferimento. Isso provaria ao participante que ele é mais forte e mais capaz do que imagina. No entanto, do ponto de vista físico, existem várias nuances que não podem ser ignoradas.

Homem caminhando sobre brasas

De acordo com Luís Alfonso Gámez, crítico do assunto e autor do artigo “254 euros para aprender a caminhar sobre brasas”, isto não é nenhuma proeza. Pelo contrário, ele afirma que qualquer um pode realizar essa atividade, que não precisa de nenhuma preparação e muito menos pagar para aprender como se faz. Ele se baseia em uma série de fatos físicos, que podem ser resumidos da seguinte maneira:

  • Andar sobre as brasas do carvão é o mesmo que apagar uma vela com os dedos. A chama, inclusive, é mais quente do que as brasas, pois atinge os 800 °C.
  • As brasas do carvão são menos densas do que o corpo humano e têm baixa condutividade térmica.
  • O processo de aquecimento do pé é muito lento e a temperatura diminui quando o levantamos para caminhar.
  • Os promotores do Firewalking colocam uma camada espessa de cinzas sobre as brasas, o que bloqueia a transmissão de calor.
  • Gámez assegura que essa suposta técnica de coaching não passa de um truque para “tirar” dinheiro das pessoas. Ele cita o cético John Nevil Maskelyne, que disse: “Aqueles que têm muito dinheiro e nenhum cérebro são feitos para aqueles que têm muito cérebro e nenhum dinheiro”.

Um experimento interessante

Richard Wiseman é um psicólogo inglês que queria “colocar à prova” esta controversa técnica de motivação. No seu programa, ‘Tomorrow’s World’, da BBC, fez um experimento simples. Ele fez um tapete de brasas queimando, mas desta vez não usou um comprimento de 4,5 metros, o que é o habitual no Firewalking. Em vez disso, ele montou uma pista de 18 metros e convidou três conhecidos promotores da técnica para atravessá-la ao vivo na televisão.

Programa 'Tomorrow's World'

O primeiro caminhou 6 metros, mas precisou saltar da pista porque estava queimando os pés. Exatamente o mesmo aconteceu com o segundo e o terceiro não quis participar do experimento. Os dois primeiros tiveram que ser tratados porque tinham queimaduras de segundo grau nas solas dos pés.

Dessa forma, Wiseman provou o que queria: a “força mental” termina aos 6 metros. É por isso que os gurus do Firewalking utilizam trajetos curtos. Eles calcularam exatamente o comprimento necessário para que as pessoas não se queimem. Não há pensamento positivo que resista após 6 metros de brasas ardentes.

Neurônios e pensamentos

Um “truque” que funciona de qualquer maneira

A maioria de nós gosta de sonhar e de acreditar na possibilidade de que o extraordinário se torne possível. Há muitos mitos sobre o “poder da mente” que, embora seja enorme, não consegue quebrar as leis da física. E muito menos depois de uma instrução que, na maioria das vezes, dura apenas 3 horas.

Apesar disso, há muitas pessoas no mundo que afirmam ter obtido benefícios inimagináveis ​​graças ao Firewalking. Elas dizem que a sua vida mudou radicalmente. Várias empresas afirmam que melhoraram os resultados dos seus trabalhadores depois que atravessaram as brasas ardentes. Também há aqueles que saíram chamuscados dessa experiência. “Eu não estava preparado”, eles dizem.

Para concluir, um dos grandes poderes da mente humana é precisamente acreditar, mesmo contra todas as evidências. Se você quiser acreditar e se o que você acredita o ajuda a superar algum desconforto, vá em frente. É o mesmo que acontece com o efeito placebo. Se tudo isso pode ajudá-lo a viver melhor, quem somos nós para questioná-lo?


Este texto é fornecido apenas para fins informativos e não substitui a consulta com um profissional. Em caso de dúvida, consulte o seu especialista.