Luto e coronavírus: a dor das despedidas pendentes

maio 22, 2020
Neste artigo, queremos falar sobre como lidar com uma perda no atual momento, tendo em mente que não contamos com muitos dos recursos habituais.

Há momentos em que chegamos ao nosso limite. Sentimos uma carga emocional profunda, nos enchemos de raiva, impotência, frustração e muita dor. A crise atual nos leva a isso. Felizmente, são estados que podemos superar. Neste artigo, falaremos sobre a relação entre o luto e o coronavírus.

Lidar com as mudanças impostas pela crise global provocada por esse vírus não é um desafio fácil. Além disso, a maioria de nós deve passar por diferentes tipos de luto.

Para abordar esse assunto, nos aprofundaremos em teorias psicológicas sobre o luto e em pesquisas atuais relacionadas ao coronavírus. Muitas delas são tão recentes que foram colocadas em prática diretamente para lidar com essa situação.

Como observação prévia, vejamos a definição de luto. Em seu livro Pérdida, pena, duelo. Vivencias, investigación y asistencia, Jorge L. Tizón (2013) sugere que o luto é “um conjunto de fenômenos que são colocados em prática após a perda: fenômenos não apenas psicológicos, mas psicossociais, sociais, físicos, antropológicos e até mesmo econômicos”.

No entanto, devido ao coronavírus, houve uma série de mudanças em vários países do mundo. Essas mudanças causaram perdas – e, como consequência, lutos – em diferentes planos.

“Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”.
-Viktor Frankl-

Mulher enfrentando luto

Coronavírus: tipos de luto e suas manifestações

Quando se trata de luto, é comum experimentar as seguintes sensações:

  • Fisiológicas. Vazio no estômago, aperto no peito e garganta, hipersensibilidade a ruídos, sensação de despersonalização, falta de ar, dor de cabeça, boca seca, palpitações.
  • Comportamentais. Distúrbios do sono, isolamento social, chorar, suspirar, distração, etc.
  • Afetivas. Raiva, culpa, ansiedade, apego, ausência de sentimentos.
  • Cognitivas. Problemas de memória, atenção e concentração, pensamentos repetitivos, baixo senso de presença, entre outras.

Estas são algumas manifestações que costumam ocorrer, dando origem a um quadro único em cada pessoa. Que tipos de luto ocorrem por conta da crise por coronavírus? Eles podem ser diferentes de acordo com cada perda. Entre eles:

  • Antecipado. É um processo de luto prolongado, que ocorre antes de uma perda. Geralmente se dá ao receber um diagnóstico de uma doença que não tem cura.
  • Crônico. Também chamado de patológico ou complicado. É um luto não resolvido que ocorre quando a pessoa não consegue parar de reviver os processos relacionados à experiência de perda.
  • Distorcido. Quando há uma reação desproporcional à situação.
  • Ausente. Ocorre quando a pessoa nega a perda. Também é visto como uma das etapas do luto.
  • Desautorizado. Quando aqueles que cercam as pessoas em luto não aceitam o luto e incentivam a contenção de qualquer manifestação que possa ser um reflexo dele.
  • Inibido. Quando os sentimentos não são expressados e a dor da perda é evitada.

Existem outros tipos de luto de acordo com a perda. Por exemplo, o relacional, que tem a ver com a perda de pessoas em termos de morte e separações. Ou o material, relacionado a objetos e posses.

Além disso, levando em conta outras classificações, podemos dizer que o luto ocorre de acordo com fatores familiares e sociais, como a perda de autonomia ou funcionalidade, o isolamento social, a falta de recursos financeiros e a falta de apoio adequado.

Quanto ao luto no contexto do coronavírus, Cara L Wallace e seus colegas publicaram uma análise no Journal of Pain and Symptom Management, na qual sugerem que as políticas de distanciamento social, as restrições de visitantes em centros de saúde e o impacto da propagação do vírus agravam o luto.

Pensemos que as dinâmicas que acompanham o luto com as quais estávamos acostumados mudaram. Um exemplo seriam os rituais: em muitos casos, eles não podem ser realizados em companhia ou imediatamente após a perda.

Homem chorando por luto

Como lidar com a situação?

Quando vivemos um luto, passamos por diferentes estágios, e o luto relacionado ao coronavírus não é exceção.

Segundo a especialista em luto Elisabeth Kübler Ross, esses estágios são: negação, no qual adiamos a dor; raiva, no qual surge um ressentimento diante da frustração; negociação, no qual há uma tentativa de controle; depressão, caracterizada por um profundo sentimento de vazio; e aceitação, no qual há ressignificação e compreensão.

Para chegar a esse último estágio, é necessário:

  • Expressar nossas emoções para liberar tensões e nos conectarmos com o nosso mundo emocional.
  • Deixar ir essa situação que tanto nos domina. Embora seja doloroso, é importante deixar ir para poder fluir. Isso não significa esquecer nossos entes queridos ou como era nossa vida passada.
  • Pedir ajuda. Diante da atual crise, surgiram muitos canais de chamadas telefônicas e de videoconferência de assistência à população. Além disso, lembre-se de que existem profissionais especialistas em luto, por exemplo, psicólogos, e também muitos profissionais oferecendo terapia à distância.
  • Utilizar os recursos à disposição. O que podemos fazer com o que temos? Não nos esqueçamos de nenhum aspecto.
  • Autocuidado. Não devemos deixar de lado a nossa saúde social; a distância física não significa isolamento social. Também não devemos esquecer nossa saúde física; estejamos atentos à nossa dieta, ao exercício físico e ao sono. Devemos procurar um psicológico e separar tempo para fazer algo de que gostamos, refletir e liberar tensões.

Algumas pesquisas, como a de Cyrus SH Ho, Cornelia Yi Chee e Roger CM Ho, defendem a psicoeducação e a intervenção psicológica online. Por sua vez, praticar mindfulness, colocar em prática técnicas de relaxamento, gerenciar o estresse e meditar nos permite obter serenidade.

Em suma, o luto relacionado ao coronavírus é um processo muito particular por conta das circunstâncias em que ocorre. Nesse sentido, é mais provável que o luto se torne mais complicado, porque alguns de nossos recursos mais poderosos estão indisponíveis devido à situação.

Falamos, por exemplo, do contato físico ou cara a cara. Por isso é tão importante utilizarmos os recursos que temos ao nosso alcance, especialmente aqueles que temos à nossa disposição graças à tecnologia.

Ho, C.S., Chee, C.Y., & Ho, R.C. (2020). Mental health strategies to combat the psychological impact of COVID-19 beyond paranoia and panic. Ann Med Singapore, 49 (1), 1-3.

Tizón, J.L. (2004). Pérdida, pena, duelo. Vivencias, investigación, y asistencia (Vol 12). Madrid: Planeta.

Wallace, C.L., Wladkowski, S.P., Gibson, A., & White, P. (2020). Grief During the COVID-19 Pandemic: Considerations for Paliative Care Providers. Journal of Pain and Symptom Management.