A neurociência da felicidade: cérebro e emoções positivas

março 20, 2019

Nos últimos anos surgiram diversos estudos relacionados ao que foi chamado de “neurociência da felicidade”. De fato, há relativamente poucos anos os neurocientistas e os psicólogos começaram a investigar os estados cerebrais associados com os componentes da felicidade e a considerar a sua relação com o bem-estar.

Durante anos, as pesquisas demonstraram que, com o tempo, nossas experiências remodelam nossos cérebros e podem mudar nossos sistemas nervosos. Isso acontece tanto para o bem quanto para o mal.

Atualmente, os pesquisadores do âmbito da neurociência da felicidade estão se concentrando em como podemos aproveitar esta “plasticidade” do cérebro para cultivar e manter emoções positivas.

Emoções positivas, chaves para o bem-estar psicológico

A capacidade de manter uma emoção positiva é o segredo para o bem-estar psicológico. Os benefícios das emoções positivas estão bem documentados. Por exemplo, foi comprovado que as emoções positivas melhoram a saúde física, fomentam a confiança e a compaixão, e compensam e/ou amortecem os sintomas depressivos.

Também foi descoberto que as emoções positivas ajudam as pessoas a se recuperar do estresse e que podem até mesmo anular os efeitos das emoções negativas. Além disso, as emoções positivas promovem uma melhor conexão social.

No entanto, a incapacidade de manter emoções positivas ao longo do tempo é um traço importante da depressão e de outras psicopatologias, mas os mecanismos que respaldam a capacidade de sustentar respostas emocionais positivas foram entendidos há muito pouco tempo.

Mulher deitada na grama com flores

Um estudo publicado no Journal of Neuroscience em julho de 2015 descobriu que a ativação prolongada de uma região do cérebro chamada estriado ventral está diretamente relacionada à manutenção de emoções e recompensas positivas.

A boa notícia é que podemos controlar a ativação do estriado ventral, o que significa que podemos desfrutar das emoções mais positivas que estão ao nosso alcance.

Neurociência da felicidade

No geral, de acordo com o estudo, as pessoas com níveis de atividade mais sustentados no estriado ventral apresentam níveis mais altos de bem-estar psicológico e níveis mais baixos de cortisol, o hormônio do estresse.

Em estudos prévios, a equipe de pesquisadores identificou que desfrutar de coisas como um bonito pôr do sol e das emoções positivas associadas a ele podem contribuir para melhorar o bem-estar. Para este novo estudo, os pesquisadores queriam identificar como e por que algumas pessoas são capazes de manter vivos os sentimentos positivos.

Uma das grandes vantagens de identificar uma região específica do cérebro relacionada com a manutenção das emoções positivas é que isso facilita a visualização do que poderíamos chamar de um interruptor – que nos permite ativar esta região de forma consciente.

Para este novo estudo, os pesquisadores estudaram a neurociência associada com a manutenção de emoções positivas no mundo real através da realização de dois experimentos em seres humanos.

O primeiro experimento foi uma tarefa de respostas de recompensa monitorada por ressonância magnética funcional. A segunda foi uma tarefa de demonstração de experiência que mede as respostas emocionais a uma recompensa obtida. O teste de laboratório previu positivamente a duração das respostas emocionais positivas no mundo real.

O exame destas dinâmicas pode facilitar uma melhor compreensão das associações de comportamento do cérebro que estão na base das emoções positivas e negativas. Neste sentido, cabe destacar que, segundo os autores, é importante ter em conta não só quanta emoção a pessoa experimenta, mas também por quanto tempo estas emoções persistem.

O mecanismo exato que permite a criação de instâncias no cérebro das emoções do mundo real, experimentadas em segundos, minutos e horas, continua sendo misterioso. No entanto, os autores dizem que estas descobertas sugerem que a duração da atividade em circuitos específicos do cérebro, inclusive em períodos de tempo relativamente curtos, como segundos, pode prever a persistência das emoções positivas de uma pessoa minutos e horas mais tarde.

Mulher feliz sorrindo

A neurociência da felicidade e a ativação do estriado ventral

Os resultados deste estudo contribuem para uma melhor compreensão de como os transtornos mentais, como a depressão, se manifestam no cérebro.

Além disso, as descobertas também poderiam ajudar a explicar por que algumas pessoas são mais cínicas do que outras e por que algumas pessoas tendem a ver o copo sempre meio cheio, em vez de meio vazio.

De acordo com os autores do estudo, o padrão neural observado no novo estudo, particularmente no estriado ventral, previu níveis mais altos de bem-estar em estudos prévios.

De acordo com eles, práticas como a bondade amorosa e a compaixão pelos demais, que têm como objetivo cultivar certas formas de emoção positiva, podem ajudar a aumentar a capacidade de saborear as emoções positivas.

Por outro lado, de acordo com os autores, as inovações metodológicas mostradas neste estudo podem ser aplicadas para estudar se o impacto das formas simples de meditação pode melhorar as emoções positivas mantidas em contextos do mundo real, assim como a ativação sustentada pelo estriado ventral medida em laboratório utilizando tecnologia de imagens cerebrais.

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