A pandemia e a crise de liderança

maio 22, 2020
Muitos países descobriram que têm como líderes indivíduos medíocres, mal-intencionados ou, falando com sinceridade, despreparados. Atualmente, existe uma crise de liderança que tem impedido a realização de um grande acordo global para enfrentar uma situação que preocupa a todos.

Um dos aspectos revelados com a pandemia causada pelo coronavírus é a crise de liderança em que o mundo atual se encontra. Existem poucos governantes que estão à altura da situação e um grupo menor ainda mostra sinais de ter uma verdadeira capacidade de motivar a sociedade em direção ao caminho certo.

Hoje em dia, um panorama comum está presente em muitas nações: a de ter como governantes pessoas mal preparadas para a administração e a tomada de decisões em uma estrutura arriscada na qual a incerteza prevalece.

Em geral, não estamos vivemos em uma época de líderes brilhantes no comando. Como regra, tem reinado a improvisação, quando não estão presentes também mentiras ou incompetências.

A crise de liderança também se manifesta na incapacidade de realizar algo que é crucial em uma situação como a atual: uma frente comum. O problema afeta praticamente toda a humanidade, mas até agora o individualismo e o egoísmo prevaleceram em muitos casos.

A criatividade também é necessária, mas até agora a resposta tem sido pintada com autoritarismo.

Negociações durante a crise

A crise de liderança e um dilema que não existe

Muitos governos abordaram o dilema “economia vs. vida” para fazer referência às quarentenas obrigatórias e à interrupção da atividade econômica que elas acarretam. Para muitos, o senso comum diz que não há dilema: a vida é um valor supremo e a decisão de preservá-la deve estar acima de tudo.

O que acontece, no fundo, é que a maioria dos líderes são líderes apenas sob determinadas circunstâncias. Quando a realidade dá as cartas de uma nova maneira, eles não sabem mais o que fazer e, por isso, tentam criar novamente uma situação inicial que já conhecem.

Existem casos extremos, como o dos Estados Unidos, em que os cidadãos são aconselhados a não “estar a par das notícias” para não se estressar e tentar seguir suas vidas normalmente. Por outro lado, no Equador, mesmo com centenas de pessoas mortas nas ruas, houve a tentativa de continuar negando a gravidade da situação.

O que preocupa nessa crise de liderança em particular é que ela tirou vidas.

Uma corrupção galopante

Se a má administração prevaleceu no setor público, no setor privado vimos empresas que se aproveitaram da situação para tentar maximizar seus lucros. Isso levou alguns países a regular o preço de determinados bens de consumo, como as máscaras.

A Europol também encontrou mais de 2.000 sites que comercializavam fármacos enganosos, se não perigosos, supostamente destinados a combater o coronavírus. Da mesma forma, os crimes cibernéticos aumentaram. Assim, podemos dizer que uma parte do setor privado assumiu uma liderança que não deixa de ser repreensível.

Por outro lado, em alguns países, veio à tona uma profunda corrupção no Estado. Na Colômbia, por exemplo, onde centenas de milhares de pessoas estão passando pela quarentena com fome, alguns funcionários e até governantes aumentaram o preço dos mantimentos que seriam entregues aos mais pobres para ficar com o excedente do preço real.

Habilidades de negociação

Falta de autoridade e criatividade

Muitos dos governantes do mundo atual têm poder, mas não têm nenhuma autoridade sobre a população. Uma das maneiras pelas quais a crise de liderança se manifesta é a desconfiança que muitas sociedades manifestam em relação aos seus governantes. Às vezes porque são considerados corruptos, outras porque não mostram virtudes especiais e outras, ainda, devido à sua incompetência.

Na crise atual, a maioria dos governos seguiu um plano, sem ter nenhum plano realmente. Como nos velhos tempos, as quarentenas foram decretadas e suas variações foram apenas o resultado do desejo de reativar a produção, mas não da criação de uma perspectiva inovadora.

É óbvio que a situação pegou todo mundo de surpresa e as reações estão apenas começando, mas ainda não há sinais de criatividade por boa parte dos governantes.

Algumas sociedades têm se mostrado mais proativas do que muitos governos. No Rio de Janeiro (Brasil), por exemplo, os chefes do tráfico decretaram quarentena diante da relutância do presidente Jair Bolsonaro em fazer isso. Em outros países, empresas particulares começaram a fabricar respiradores, gel desinfetante e máscaras para suprir a lacuna de produção.

A situação atual desafiou a capacidade dos governantes, e muitos deles não têm se saído bem. Ainda não se sabe como o mundo vai sair dessa situação, mas provavelmente teremos mudanças na configuração do poder.

As sociedades estão cada vez mais conscientes do que é verdadeiramente essencial em um Estado e do que não é.

Riggirozzi, P. (2020). Coronavirus y el desafío para la gobernanza regional en América Latina. Análisis Carolina, (12), 1.