A pandemia vista por Yuval Harari: “Nunca voltaremos ao mundo de antes”

maio 22, 2020
Na opinião do conhecido historiador Yuval Harari, o mais importante no momento atual de pandemia é promover a responsabilidade individual e a cooperação. Isso pode ser alcançado através de uma informação ampla e transparente, unida à vontade de cooperar e à ajuda mútua entre todos.

Ele se tornou um historiador de fama mundial depois de publicar o livro Sapiens – Uma Breve História da Humanidade. Não só se tornou uma celebridade, mas também virou assessor de líderes mundiais como Bill Gates e Angela Merkel. Yuval Harari é um dos pensadores mais lidos no mundo, e por isso suas opiniões sobre a pandemia do coronavírus merecem uma atenção especial.

Harari publicou várias colunas a respeito do tema em diversos jornais do mundo, e também foi entrevistado por uma grande quantidade de meios de comunicação. Por mais estranho que pareça para nós, ele afirmou que as pandemias são uma realidade perfeitamente normal se as olharmos analisando a história da humanidade.

As epidemias e pandemias mataram muitas pessoas ao longo dos séculos. No entanto, nós nunca estivemos tão preparados para enfrentar um fenômeno como este. Para destacar esse fato, Yuval ressalta que bastaram duas semanas para identificar o vírus, sequenciar seu genoma e criar um teste de detecção. Essa rapidez teria sido impensável em outra época.

“É necessário escolher entre vigilância totalitária e empoderamento cidadão, e entre isolamento nacional e solidariedade mundial”.
-Yuval Harari-

Mulher usando celular de máscara

O primeiro grande desafio da pandemia, segundo Yuval Harari

Yuval Harari afirma que nunca voltaremos ao mundo pré-pandemia porque uma crise dessa magnitude, como a que estamos vivendo hoje, deixa marcas permanentes. O ponto é que essa nova realidade à qual chegaremos dependerá muito das decisões individuais e coletivas que tomarmos agora. O que acontecer não será fruto do azar, mas sim consequência da vontade humana.

O primeiro grande desafio que o historiador vê é o de evitar que se propague uma estrutura social e política na qual a vigilância sobre a saúde seja o centro de tudo. Este tipo de problema de saúde traz o risco de passar facilmente de uma vigilância epidemiológica para uma de controle que pode acabar afetando a liberdade humana.

Harari pensa que muitas medidas temporárias que os cidadãos aceitam de bom grado para conter a pandemia podem se tornar permanentes, com outras finalidades, após o seu fim. Em particular, ele está se referindo às tecnologias de controle biométrico, que permitem, entre outras coisas, estabelecer a localização de uma pessoa, mas também determinar dados como a temperatura corporal e a pressão arterial.

Tais tecnologias poderiam ajudar a conter a expansão do vírus hoje, mas amanhã dariam acesso a informações muito pessoais, que serviriam para vigiar minuciosamente quantas vezes rimos, o que nos causa raiva e, desse modo, fornecer dados que nos tornariam vulneráveis à manipulação.

O segundo desafio: solidariedade ou competência

O segundo dos grandes desafios do momento, segundo Yuval Harari, é a escolha entre uma grande frente de cooperação mundial ou uma competição selvagem por todos os recursos.

Ainda que o ser humano seja capaz de ir ao espaço com relativa facilidade no mundo de hoje, ele se mostrou menos eficiente para produzir máscaras, respiradores e elementos de proteção pessoal. Por isso, há quem, como o presidente do Estados Unidos, responda a essa escassez com chauvinismo. Outros, ao contrário, clamam por cooperação.

Harari afirma que é estranho que até o momento não tenha sido criado um grande foro ou instância internacional para assumir a crise de um modo coordenado e, principalmente, cooperativo. É possível e desejável que isso aconteça. A pandemia é uma realidade que será superada mundialmente, ou não será superada. Ela envolve e compromete todos no mundo.

Tanto os elementos de proteção mundial quanto os insumos médicos e o próprio pessoal de saúde deveriam ser bens de todos. Devemos compartilhar o que é mais necessário, com confiança de que hoje estamos dando, mas amanhã podemos precisar do que outros países produzem.

Bonecos de papel representando ajuda mútua

Quais são as soluções?

Harari insistiu principalmente nesses dois pontos, ainda que não sejam os únicos sobre os quais ele tenha falado. Em respeito a eles, ele afirma que há soluções viáveis à vista. A primeira delas é fortalecer a cidadania, para evitar o perigo do surgimento de estados policiais. Como? Informando e confiando na responsabilidade individual.

Um exemplo disso é lavar as mãos. Se as pessoas entenderem a sua importância por estarem bem informadas, não haverá necessidade de vigilância de ninguém para que a medida seja implementada. A mesma coisa vale para outras medidas simples.

Uma pessoa é capaz de cuidar de si mesma e da sua saúde, e estar atenta aos sinais de doença. No entanto, isso só é possível se a pessoa estiver bem informada e confiar na autoridade que lhe pede para tomar algumas precauções.

No que diz respeito à cooperação, a solução está em criar mecanismos conjuntos para enfrentar o tema de forma global, já que o problema é global. Se aproveitarmos o momento para promover a cooperação e a solidariedade, o mundo sairá mais comprometido e responsável dessa crise. Se optarmos pela competição e pelo egoísmo, o futuro será tenso e imprevisível.

Harari, Y. N. (2020). El mundo después del coronavirus. Envío: publicación mensual del Instituto Histórico Centroamericano, 39(457), 6.