Reatância psicológica durante a quarentena

maio 22, 2020
A reatância psicológica é um fenômeno muito presente em qualquer situação na qual o entorno muda suas circunstâncias ou regras. Neste artigo explicaremos, nesse contexto psicológico, as reações às restrições com as quais temos que viver atualmente.

As restrições impostas pela situação atual têm o objetivo retardar a propagação do coronavírus. Apesar da gravidade da situação, persiste o vazamento de notícias sobre relatos de pessoas que não cumpriram as medidas. São irresponsáveis ​​ou vítimas da reatância psicológica?

Depois de acompanhar a evolução da epidemia na China, recebemos as notícias do primeiro caso (importado) de coronavírus. Essa notícia foi acompanhada com relativa calma, até o número de infecções aumentar, chegando ao ponto de forçar o governo a estabelecer medidas de contenção.

O governo decretou o fechamento de centros educacionais e locais de entretenimento e a suspensão de eventos. Além disso, solicitou as empresas a facilitar o trabalho remoto para seus funcionários. No entanto, essas medidas não foram suficientes.

As medidas foram intensificadas para limitar o risco de propagação do vírus, instando os cidadãos a não deixarem suas casas, exceto para adquirir bens de necessidade básica, para ir trabalhar (no caso de não poder trabalhar de casa), para o atendimento aos idosos e/ou em situações de dependência e emergência.

Mulher de máscara em sua casa

Como as pessoas reagiram às medidas: primeiros indícios de reatância psicológica

Essas medidas tiveram diferentes respostas por parte da sociedade. A primeira foi fazer compras compulsivas nos supermercados, como já havia acontecido com máscaras, luvas e álcool em gel.

Isso pode ter acontecido por medo de um isolamento total, para evitar ir a lugares lotados mais tarde (quando o risco de contágio fosse maior) ou por medo de desabastecimento.

A segunda resposta, e a mais preocupante, foi não levar essas medidas a sério, especialmente nas fases iniciais, quando eram menos restritivas.

Em alguns países, com a suspensão das aulas, as boates organizaram festas e os jovens lotaram bares para aproveitar o tempo livre. Crianças encheram os parques, muitas sob os cuidados dos avós (grupo de risco).

A população trabalhadora, aproveitando o trabalho remoto, e os estudantes, por conta do fechamento de escolas e faculdades, retornaram às suas cidades e estados de origem. Inclusive, famílias inteiras, encarando esse período como férias, viajaram para suas segundas residências.

Por que as pessoas violam a quarentena?

Brehm criou o termo “reatância psicológica” ao estudar as consequências de limitar a liberdade das pessoas. A reatância é uma reação motivacional ou emocional que surge quando o indivíduo vê sua liberdade limitada ou ameaçada e que visa recuperar essa liberdade de ação.

Decharms, por sua vez, explicou que a necessidade de escolher livremente o comportamento (a necessidade de autodeterminação) é uma motivação primária e, portanto, ao ver-se cortada, surge a reatância psicológica, que depende de vários fatores:

  • Expectativa de liberdade. Em outras palavras, quanto maior a sensação de liberdade, maior a reatância psicológica diante de limitações. Ninguém pensou que seríamos proibidos de sair de casa.
  • A importância da liberdade. Se a liberdade for importante para a pessoa, sua limitação causará uma maior reatância psicológica. O que poderia ser melhor do que sair com os amigos na sexta-feira depois de uma semana difícil?
  • Força da ameaça. Quanto maior a força, maior a reatância psicológica. Podemos suportar a suspensão de eventos, mas não a proibição de sair.
  • Proporção de liberdades ameaçadas. Quanto maior o número de comportamentos anteriormente percebidos como livres e agora limitados, maior a reatância psicológica. Não apenas não nos deixam trabalhar, como também não podemos ir ao cinema ou tomar um café em uma cafeteria.
  • Legitimidade da fonte de limitação. A legitimidade geralmente reduz a reatância psicológica, mas em alguns casos tem efeitos contraditórios, como foi visto com as primeiras medidas e com as reclamações em relação à gestão do governo.
Por que as pessoas violam a quarentena?

De que maneira as pessoas reagem para restaurar a liberdade perdida?

A seguir, estão algumas maneiras comuns:

  • Restauração direta. Ou seja, fazer exatamente aquilo que foi proibido ou, pelo menos, ter comportamentos associados. Um exemplo claro são as pessoas que, diante do fechamento dos bares, se reunem nas ruas para comer e beber, apesar da proibição.
  • Restauração indireta. Em outras palavras, realizar comportamentos equivalentes ou comportamentos que demonstrem que alguém é capaz de fazer aquilo que foi proibido. Um exemplo pode ser a pessoa que, diante da proibição de passear, vai todos os dias ao supermercado que fica a 3km de distância para passear.
  • Respostas subjetivas. Isso explica o porquê da conduta proibida ser quase inevitavelmente percebida como mais atraente e valiosa. É o clássico “você nunca sabe o que tem até perdê-lo”, ou melhor dizendo, “você sempre soube que o tinha, mas nunca pensou que poderia perdê-lo”. Resumindo, uma reunião com amigos nunca é valorizada o suficiente até que ela seja proibida.
  • Hostilidade e agressividade em relação à fonte limitadora. O surgimento dessa hostilidade depende dos fatores explicados acima. Além disso, a privação da liberdade sempre é acompanhada por desconforto.

Essa situação passará e tudo voltará ao normal. Por enquanto, por todos aqueles que não podem fazer isso agora, lute contra a sua reatância psicológica e fique em casa. Porque juntos podemos achatar a curva do coronavírus. Hoje, ficar em casa salva vidas.