O sentimento de culpa nos sobreviventes da COVID-19

maio 22, 2020
Por que superei o coronavírus e meu parente não? Por que quase não tive sintomas e outros estão em estado grave? Muitas pessoas estão começando a sofrer da síndrome do sobrevivente associada à pandemia atual.

Não param de aparecer novos fenômenos no campo da saúde mental relacionados ao contexto atual. Nem mesmo no campo da psicologia pode-se prever exatamente quais efeitos surgirão nos próximos dias. Eles aparecem pouco a pouco, dia após dia, e um deles, que começa a ser tristemente comum, é o sentimento de culpa nos sobreviventes da COVID-19.

Isso pode causar surpresa. Toda vez que sabemos de alguém que superou o coronavírus, sentimos muita alegria e esperança. Há pouco tempo soubemos, por exemplo, do caso de Alberto Belluci, o italiano de 101 anos que deixou a terapia intensiva para reencontrar a sua família. Ele se sente com sorte, e sua família, feliz.

No entanto, nem todos experimentam esse sentimento. Nas mentes de muitos que superaram a doença, estão se instalando as seguintes ideias: “Por que estou vivo e meu pai não? Por que fui salvo e meu irmão perdeu a vida? O que explica o fato de eu ter sofrido dessa doença de maneira séria e outras pessoas estarem lutando com um respirador?” Mais uma vez, como ocorre em qualquer evento de crise, cada pessoa vive essa situação de uma maneira particular.

Devemos ser sensíveis a esse tipo de realidade. Além disso, no caso de estarmos passando por essa situação, não devemos hesitar em pedir ajuda. A primeira coisa é entender que estamos diante de algo muito comum em contextos semelhantes: trata-se da síndrome do sobrevivente.

Mulher chorando

Como se desenvolve o sentimento de culpa nos sobreviventes da COVID-19?

Não nos equivocamos ao dizer que, em meio a essas circunstâncias, a ansiedade é um mal que nos afeta de forma quase constante. No entanto, nem todo mundo a sente e manifesta da mesma maneira.

Há quem mal consiga dormir à noite. Há quem passe o dia deitado, quase hibernando, e reduzindo ao mínimo qualquer atividade além de assistir a séries, comer ou enviar mensagens.

Outros, por outro lado, apresentam uma hiperatividade exacerbada. O importante é fazer as coisas para não pensar, e quanto mais, melhor. Obviamente, existem aqueles que já sofriam de ansiedade e que enfrentam como podem essa situação incrivelmente complexa.

No entanto, entre todas essas pessoas, surgem aquelas que sofrem de um sentimento de culpa por terem sobrevivido ao COVID-19. Vejamos, portanto, em que isso consiste.

Por que eu? A dor pelas situações de outras pessoas

Com o passar dos dias, conhecemos histórias que ficarão marcadas na memória pessoal e também na coletiva. Porque esse sofrimento pertence a todos, porque uma pandemia não conhece fronteiras, nacionalidades ou classes sociais. Ela se estabeleceu em nossas vidas afetando pessoas, a maioria delas de idades mais avançadas, muitas com patologias prévias. Outras, saudáveis ​​e com uma vida pela frente.

Seja como for, todos somos valiosos e necessários. Todos fazemos falta. Assim, o sentimento de culpa nos sobreviventes da COVID-19 surge como resultado de vários gatilhos. O mais difícil é perder um ente querido. Por exemplo, existem casais em que apenas um conseguiu superar o coronavírus. Há filhos que perderam os pais e pais que perderam os filhos.

Nessas situações, é comum sentir estranheza, raiva, incompreensão e culpa. “Por que eles e não eu?” Elas se perguntam constantemente. Por outro lado, também existem aquelas que sofrem pelos colegas de trabalho doentes ou que simplesmente perderam o emprego e enfrentam um futuro incerto.

Existem também aquelas que, sem ter perdido ninguém próximo, mas tendo superado o coronavírus, sentem-se presas à contradição, a um vazio existencial onde surgem os questionamentos e a sensação de irrealidade ao ver as pessoas adoecerem e morrerem enquanto elas tem sua vida pela frente novamente…

A síndrome do sobrevivente, uma reformulação em tempos de pandemia

Vendo esse tipo de realidade, somos quase obrigados a dar lugar a uma nova visão da síndrome do sobrevivente.

Essa condição surge após a experiência de um evento traumático. Realidades tão adversas, como uma agressão, uma guerra, um desastre natural, um acidente de trânsito, etc., submetem muitas pessoas a um estado de culpa, sofrimento e estresse persistente. Em média, essas pessoas apresentam os seguintes sintomas:

  • Irritação, mau humor.
  • Insônia.
  • Baixa motivação.
  • Transtornos psicossomáticos, como dores de cabeça, dores musculares, etc.
  • Sensação de estar desconectado da realidade.
  • Flashbacks, lembranças do evento traumático.

No caso do sentimento de culpa nos sobreviventes da COVID-19, as manifestações podem ser as mesmas. Talvez o ponto mais complicado seja que os eventos com o coronavírus continuem ocorrendo. Como consequência, esse desconforto pode continuar se retroalimentando.

Mulher refletindo sobre a sua vida

O que posso fazer se me sentir culpado por ter superado a doença?

A primeira coisa que você deve saber é que experimentar essa realidade emocional é completamente normal. Ter esse tipo de pensamento é compreensível, ainda mais se você perdeu alguém próximo. O passo mais decisivo que você tem pela frente é lamentar essa perda, aceitando emoções, procurando desabafar e contando (na medida do possível) com o apoio dos seus familiares.

Aceitar a realidade do que aconteceu sem dar poder à culpa é essencial. Uma maneira de reduzir a contradição e a sensação de vazio ou irrealidade é conectar-se com outras pessoas para criar um refúgio. Você deve alinhar-se novamente com os seus valores, significados e prioridades. Cuidar de pessoas próximas, apoiar amigos ou familiares distantes através de mensagens e videochamadas também pode ajudar.

Estabelecer rotinas, gerenciar suas emoções e situar novas metas em seu horizonte permitirá que você retome a sua vida. A chave para o bem-estar é entender que existem coisas que estão além do seu controle e que, como tal, é preciso aceitá-lasColoque isso em prática.