Safo de Lesbos: a biografia de uma mulher silenciada

junho 24, 2019
Safo de Lesbos foi uma mulher silenciada pelo tempo, pela censura e pela história. Faz parte, juntamente com outros homens, da lista dos nove poetas líricos da Grécia; a sua importância é indiscutível. Nós pretendemos desenterrar os seus versos, relê-los para que nunca mais sejam silenciados. Você nos acompanha nessa aventura para descobrir essa mulher incomum? 

Quando pensamos na Grécia Antiga, nos vêm à mente uma infinidade de nomes masculinos: Platão, Aristóteles, Sócrates, Epicuro, etc. Seja na política, filosofia, matemática ou literatura, a verdade é que existem poucos nomes femininos que se destacam. E não é só na Grécia, mas ao longo de toda nossa história. Entre todos esses nomes masculinos, aparece um que brilha com luz própria: Safo de Lesbos.

Safo de Mitilene, Safo de Lesbos ou, às vezes, simplesmente Safo… Diferentes variações para uma só mulher. Uma mulher cuja poesia conhecemos fragmentada, silenciada pelo tempo.

Conhecemos somente alguns fatos sobre sua vida; tudo o que sabemos sobre ela não são mais do que suposições extraídas de seus versos.

A poesia de Safo é uma poesia totalmente feminina, onde tudo relacionado ao masculino é banido. A força, a dureza, as atitudes mais associadas ao homem não têm lugar em seus versos.

Conservamos apenas uma pequena parte de toda a sua produção, mas a poesia de Safo é tão importante que dá nome a um tipo de estrofe e verso: a estrofe sáfica e o verso sáfico.

Homossexualidade, feminilidade, poesia e silêncio… A sua poesia ainda hoje é silenciada, tanto pelo tempo quanto nas salas de aula. Fala-se muito pouco sobre Safo e os seus poemas não são recitados.

O silêncio marcou a poesia dessa mulher cuja vida continua envolta em mistério, idílica e hipotética, porque sabemos muito pouco sobre ela.

“Na raiva, nada é melhor do que o silêncio”.
– Safo –

Contextualizando Safo de Lesbos

Temos provas da grande importância de Safo já na Grécia Antiga, pois foi incluída na lista dos nove poetas líricos, lista de poetas considerados canônicos, aqueles autores dignos de estudo e cujo trabalho devia ser imitado. A sua influência foi tal que Platão chegou a catalogá-la como a décima musa.

Safo viveu a maior parte de sua vida na ilha grega de Lesbos entre o sétimo e sexto século a.C. Também dizem que ela passou um curto período na Sicília.

Ela pertencia à aristocracia e fundou uma escola ou círculo de mulheres conhecido como “A Casa das Musas”. Outras mulheres pertencentes à aristocracia frequentavam esta escola, onde se preparavam para o casamento, mas também aprendiam poesia, confeccionavam grinaldas, etc.

Safo de Lesbos

Alguns estudiosos identificaram um certo componente religioso em “A Casa das Musas” vinculado ao culto da deusa Afrodite. A poesia de Safo está intimamente ligada a esta deusa, e surgiu assim o poema Ode a Afrodite.

Essa escola pode ser comparada, de certa forma, à Academia Platônica, mas exclusivamente para mulheres. Além das odes nupciais, compunham outros tipos de poemas, estudavam dança, arte, etc.

Ao contrário de outros núcleos que preparavam as jovens para o casamento, na escola de Safo a maternidade não era tão celebrada, e sim o amor.

As mulheres não eram apenas relegadas a conceber filhos, mas tentavam aproximar-se da beleza, do prazer e do amor. Tudo isso se reflete na sua poesia, algo que contrasta com a poesia masculina, voltada para heróis e guerras.

Os versos de Safo de Lesbos

A poesia de Safo é caracterizada pela perfeição, por ser intimista e sentimental, em clara oposição à poesia épica masculina. Em uma sociedade militarizada, Safo resgata o amor, o feminino, afasta-se da política e nos envolve com grande sensualidade.

Ainda que em sua poesia ‘o político não tenha lugar’, acredita-se que teve uma certa implicação política, apoiando a aristocracia contra a democracia (entendida no contexto da época, não na atual). Essa atitude rebelde foi o que supostamente a mandou para o exílio na Sicília.

Em seus versos, vemos que Safo manteve relações com algumas de suas alunas. Diz-se que ela também tinha relações com homens e que inclusive teve uma filha. Diferentemente do que aconteceria séculos depois, nessa época as relações homossexuais não eram tão condenadas.

Podemos ver em Safo uma revolucionária, porque ela se afastou do que ditava a poesia épica da época e era fiel a si mesma, com uma poesia intimista, erótica e sensível.

Safo de Lesbos modificou o verso eólico e foi a precursora do que hoje é conhecido como verso sáfico. A estrofe sáfica é composta por quatro versos: três decassílabos sáficos e um pentassílabo adônico.

De acordo com o DRAE, o verso sáfico é: “na poesia grega e latina, verso composto de onze sílabas distribuídas em cinco pés”. Safo não só revolucionou o tema da poesia, como também inovou a sua forma.

Com a ascensão do cristianismo e, principalmente, durante a Idade Média, muitos dos versos de Safo foram perdidos, queimados ou proibidos.

Apesar do silêncio imposto, Safo sobreviveu e alguns autores posteriores, como Petrarca, Byron ou Leopardi, não deixaram que a sua figura caísse no esquecimento. Não é por acaso que Catulo escolheu Lésbia como um nome para sua amada, em clara alusão à ilha de Lesbos.

O amor sáfico

Conhecemos várias musas em sua poesia, mas especialmente Atthi, a quem ela dedicou vários versos. O poema O Adeus a Atthi narra o sofrimento de Safo quando Atthi é enviada para se casar com um homem. Este amor é recíproco e ambas sentem dor ao se separar.

O amor em Safo não é irreal, não é uma contemplação como acontece com muitos autores masculinos, mas está ligado à sua própria pessoa.

Em Ode a Afrodite, Safo propõe uma nova revolução: fala de ciúmes, de desejo, de tristeza… Esse tipo de sentimento não era tratado na Grécia Antiga e ficava relegado ao divino. Para os gregos, a explicação para esses sentimentos nunca vinha do ‘terreno’.

No entanto, Safo vai além e funde o terreno com o divino. No poema, ela implora a Afrodite para ajudá-la, pois está apaixonada por uma mulher que não presta atenção nela, se lamenta e pede ajuda.

Rosto de Safo de Lesbos

Quando falamos de amor lésbico ou amor sáfico, estamos fazendo alusão a Safo de Lesbos. Daí o significado de “amor entre duas mulheres”. O amor era um dos cernes de sua poesia e também o motivo de seu silêncio.

Esse amor era um sentimento puro, individual e elevado, digno da poesia mais culta. Ao contrário do que será compreendido nos séculos posteriores, o amor sáfico não era baixo, não era vulgar ou puramente sexual, mas refinado. Essas mulheres da “Casa das Musas” eram aristocratas.

A morte de Safo

Uma figura tão terna, tão simples em sua linguagem, capaz de misturar o terreno com o divino, não poderia ter um fim abrupto. Por essa razão, a sua morte foi mitificada e certamente narrada de uma forma longe da realidade.

Ovídio e muitos outros poetas gregos e latinos divulgaram uma falsa lenda sobre a morte de Safo. Diziam que Safo estava apaixonada por Faón e, em sua desesperada paixão, cometeu suicídio se jogando no mar de uma rocha de Leúcade.

Essa imagem tão mítica e romântica contrasta com um dos últimos poemas que foram capazes de reconstruir a partir da própria Safo. Um poema em que ela falava sobre a velhice e o passar do tempo, em que reflete sobre a juventude de suas alunas e o envelhecimento de seu próprio corpo.

Sem dúvida, Safo é uma figura que, longe de ser silenciada, merece ser recitada, celebrada e reivindicada como uma mulher que, em tempos antigos, conseguiu viver como queria, desfrutar do amor, da poesia e da companhia de suas alunas.

“Os seus lindos pardais desceram do céu,
através dos ares agitados pela batida apressada de suas asas”.
– Safo –