Muito além de Freud: escolas e autores da psicanálise

Muito além de Freud: escolas e autores da psicanálise

outubro 30, 2017 em Psicologia 4 Compartilhados
Freud e outros autores da psicanálise

Muito se fala e ouve sobre Freud, mas você conhece outras escolas e autores da psicanálise?

Desde uma concepção mágico-religiosa até o divã de Freud, ocorreram certos indícios de escuta ativa e preocupação com pessoas com faculdades mentais prejudicadas. Desde o Padre Joan Jofré em Valencia com seu hospício para doentes mentais até o tratamento por parte da comunidade de escutar o doente não como um louco, mas como um mensageiro da palavra de Deus.

Há muitas tentativas de fazer psicologia, pois, como dizia Skinner, na verdade a política não vai nos salvar, apenas com o conhecimento sobre nós mesmos teremos uma chance. Nós evoluímos como espécie quase por tentativa e erro, sem fazer grandes esforços para separar tudo que, não sendo verdade, foi tomado como tal nesse processo.

Por isso, vamos analisar uma visão que pode ser considerada como uma das primeiras aproximações formais da psicologia. Muitas vezes atacada e ignorada, mas que, devido ao seu interesse por analisar certos casos clínicos, plantou a semente para que surgisse essa ciência apaixonante.

O início da psicanálise: Sigmund Freud

A fascinação que Freud e sua obra provocaram têm limites tão amplos quanto difusos. Atualmente muitos consideram que ele foi um mero especulador, distante da luz que emana do método científico. No entanto, outros o consideram um visionário que soube enxergar o ser humano e seus problemas a partir de uma perspectiva revolucionária.

Devemos a Freud a primeira aproximação séria com a subjetividade humana, algo revolucionário. O que nos diferencia, por que nos comportamos de uma maneira e não de outra. Ao mesmo tempo, também lhe devemos o entendimento da causa e do alimento da neurose.
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A mente de Freud

Explicações como o complexo de Édipo, o medo da castração, a origem de todos os problemas psicológicos por uma libido sexual mal definida estão completamente excluídas de um estudo sério e científico de uma teoria psicológica, e todas elas coincidentemente fazem mais referência ao estudo da origem do transtorno na infância do que ao estudo de um adulto em consulta.

No entanto, devemos agradecer a Freud pela descrição minuciosa de casos clínicos.  Também pela identificação de certos fenômenos inconscientes, como a sugestão, a lei da atenção flutuante, a resistência ou a transferência e contratransferência que hoje estão bem articuladas no âmbito da terapia.

Depois de Freud: Adler, Carl Jung, neofreudianos e a tradição analítica do eu

Alfred Adler foi um dos primeiros autores da psicanálise a discordar de Freud, pois defendia uma abordagem finalista do comportamento, e não causal. A verdade é que muitos dos nossos comportamentos têm como causa o objetivo pelo qual são realizados, no entanto outras vezes isso não acontece. No caso de não ser, pense em uma criança à qual pediram para que arrumasse seu quarto: o objetivo é o quarto arrumado, a causa o fato de que sua mãe mandou.

Além disso, Adler defende a força do eu contra a fraqueza “natural” do eu freudiano. Ele fala do estilo de vida individual marcado pelas primeiras relações com a família, os valores familiares e a constelação familiar.  Adler se refere ao desenvolvimento do indivíduo não como uma resposta à libido, mas como um desejo de poder para superar sua inferioridade orgânica.

Por outro lado, Jung difere de Freud no seu conceito do inconsciente: para Jung, este transcende o individual. O tratamento vai buscar uma visão mais ampla na maneira de entender o processo de individualização. Ele fala de diferentes arquétipos coletivos e tipos psicológicos. Sua leitura é recomendável e apaixonante.

 “A solidão não vem de não haver pessoas ao seu redor, mas de não conseguir comunicar as coisas que são importantes para si mesmo ou de sustentar certos pontos que os outros acham inadmissíveis.”
-Carl Jung-

Carl Jung

Por outro lado, muitos dos seguidores de Freud que se identificaram com parte do seu legado minimizaram, em maior ou menor grau, a importância da sexualidade no desenvolvimento da neurose. Alguns dos seguidores também menosprezaram o papel do inconsciente, enfatizaram a área cultural e social, as relações interpessoais ou prestaram mais atenção às experiências e às circunstâncias que estavam acontecendo no momento com o paciente. Alguns desses neofreudianos seriam Erich Fromm, Karen Horney e Harry S. Sullivan.

Na tradição analítica do eu, outra corrente da psicanálise, encontramos sua filha Anna Freud, Melanie Klein, Erik Erikson e Bolwlby. Esse grupo dá especial relevância às funções do eu, atribuindo-lhe uma grande importância nas relações interpessoais, precisamente como motor para a construção desse eu.

Vale destacar autores como Melanie Klein e seu desenvolvimento do jogo na terapia ou a teoria do objeto transicional de Winnicott, tão estudada e reconhecida por outras correntes.

Além disso, Anna Freud se destaca nessa corrente psicanalítica por seus famosos mecanismos de defesa: a repressão, a regressão, a formação reativa, a anulação retroativa, a introjeção, a projeção, o isolamento, a volta contra si mesmo e a transformação no seu contrário ou a sublimação.

 “As mentes criativas são conhecidas por serem capazes de sobreviver a qualquer tipo de mau aprendizado.”
-Anna Freud-

Erik Erikson encontrou a fama e o prestígio ao descrever os estágios do eu e sua teoria é amplamente aceita devido a sua utilidade clínica.  No quadro definido por Erikson existiriam oito etapas do ser humano e sua antítese: confiança/desconfiança, autonomia/vergonha, iniciativa/culpa, construtividade/inferioridade, identidade/confusão de papéis, intimidade/isolamento, generatividade/estagnação, integridade do eu/desespero.

Para finalizar esse ponto, destacamos que John Bowlby teve uma grande influência com a sua teoria do apego. A articulação da sua teoria goza de uma ampla aceitação como quadro de referência útil para entender como as crianças se relacionam com as suas figuras de referência. Além disso, explica, a partir desse tipo de relação tão importante e suas dinâmicas, como construímos nossas outras relações à medida que crescemos.

John Bowlby

Outros desenvolvimentos e autores da psicanálise

Seria impossível descrever toda a riqueza das escolas e autores da psicanálise que surgiram ao longo do tempo, embora valha a pena nomear algumas delas devido ao seu maior peso e influência:

  • A terapia psicodinâmica breve, que limita a duração da terapia, aborda um foco principal do problema e tem uma atitude mais diretiva e ativa do terapeuta. Os representantes mais conhecidos são Sandor Ferenczi e Otto Rank.
  • Alexander e sua experiência emocional corretiva, um reconhecido fator do sucesso terapêutico na atualidade.
  • Ackerman e seu estudo das relações familiares nos transtornos neuróticos e psicóticos.
  • Jacob Moreno com a criação do psicodrama.
  • Lacan com seu retorno aos postulados de Freud, incorporando contribuições de Saussure e Levis-Strauss.

Podemos aceitar ou não os pensamentos de Freud, mas não podemos negar que o seu pensamento representou uma revolução na forma de entender nossos atos e as motivações que os fundamentam. Também representou um toque de atenção, dando espaço a uma ideia que hoje levamos muito em consideração: no nosso passado remoto foram formadas memórias, conscientes ou inconscientes, que condicionam o nosso comportamento atual.

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