Quando você acaba imitando aqueles que o prejudicam

Quando você acaba imitando aqueles que o prejudicam

janeiro 16, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Quando você acaba imitando aqueles que o prejudicam

Estamos expostos à possibilidade de acabarmos machucados nos relacionamentos com as outras pessoas. Um mal entendido, uma situação incomum ou uma falta de tolerância podem dar lugar a sermos feridos e termos que lidar com um conflito. Mas também existem experiências nas quais a agressão e a violência vão mais além, e é quando cabe a possibilidade de acabarmos imitando aqueles que nos prejudicam.

A expressão “identificação com o agressor” foi criada por Sandor Ferenczi e logo retomada por Anna Freud, dois psicanalistas com pontos de vista um tanto diferentes. Foi definido como um comportamento paradoxal que só podia ser explicado como um mecanismo de defesa, que consistia na vítima de uma agressão ou dano acabar se identificando com seu agressor.

“A violência é o medo dos ideais dos outros.”
-Mahatma Gandhi-

Inclusive, em um cenário de terror e isolamento, a atitude da vítima com relação a seu agressor pode chegar a se transformar em patologia quando aparecem vínculos de admiração, agradecimento e identificação com ele.

Um exemplo típico de identificação com o agressor é o comportamento de alguns judeus nos chamados campos de concentração nazistas. Ali, alguns prisioneiros se comportavam como os seus guardas e abusavam de seus próprios colegas. Esta conduta não pode ser explicada como uma simples forma de identificação com seus agressores, mesmo sendo suas vítimas.

Quando você admira ou ama quem o prejudica

Um exemplo clássico de identificação com o agressor é dado pela chamada “Síndrome de Estocolmo”. Este termo se aplica quando as vítimas estabelecem um vínculo afetivo com seus sequestradores durante um sequestro.

Esta síndrome é usada para descrever sentimentos e comportamentos favoráveis por parte das vítimas com relação a seu abusador e atitudes negativas para com tudo o que vai contra a mentalidade e intenções do mesmo, apesar do dano causado.

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Quando alguém está à mercê de um agressor, surgem altas doses de pânico e de angústia que trazem como consequência uma regressão infantil. Esta regressão acontece como um tipo de sentimento de gratidão para com o agressor, em quem a pessoa começa a enxergar alguém que lhe atende nas suas necessidades básicas, de modo que a vítima de alguma forma volta a ser criança.

O agressor provê o alimento, lhe permite usar o banheiro, etc. Em retribuição a esta “generosidade”, a vítima sente gratidão para com o seu agressor por lhe dar a possibilidade de continuar com vida. Ela esquece que seu agressor é justamente a causa do seu sofrimento.

O jeito corriqueiro de um agressor consiste em intimidar o outro quando este se encontra indefeso. Isto é, o agressor abusa da sua vítima quando ela está vulnerável. Neste ponto a vítima está aterrorizada e dificilmente irá se defender do dano. Este comportamento acontece porque a vítima pensa que, ao se submeter, possui mais chances de sobreviver.

O vínculo emocional

O vínculo emocional da vítima de intimidação e abuso com o agressor na verdade é uma estratégia de sobrevivência. Uma vez que se compreende a relação entre vítima e agressor, é mais simples entender porque a vítima apoia, defende e até ama o seu agressor.

O fato é que este tipo de situação não apenas acontece quando estamos diante de um sequestro. Também encontramos este tipo de mecanismo em diversas situações mais comuns, como as mulheres vítimas de maus-tratos.

Muitas delas se recusam a prestar queixa e algumas até custeiam as finanças dos seus namorados ou maridos, apesar de que estes abusam fisicamente delas. Chegam até a enfrentar os policiais quando tentam resgatá-las de uma agressão violenta.

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Existem condições que são um verdadeiro caldo de cultivo para propiciar a identificação com o agressor. Por exemplo, quando prima a violência intrafamiliar ou o assédio profissional. Também em situações esporádicas de violência este mecanismo é ativado, como no caso de um assalto ou estupro. De todo jeito, a vida pode se tornar insustentável se não encontrarmos um jeito de superar o fato.

Todo trauma causado por um ato de violência deixa uma marca profunda no coração da pessoa. Por isso às vezes a identificação com o agressor se ativa, sem que tenha uma relação direta com ele.

O que acontece é que esse poder do abusador é tão temido que a pessoa acaba imitando-o, para compensar o medo que um possível confronto lhe provoca. Um exemplo disto se dá quando alguém é vítima de um assalto a mão armada e depois compra uma arma para se defender. A sua atitude legitima o uso da violência da qual foi vítima.

De vítima a agressor

Uma pessoa que foi vítima de abuso corre o risco de se transformar em um abusador. Isto acontece porque a vítima se esforça para entender o ocorrido, mas não consegue. É como se a personalidade se diluísse na confusão e surgisse um vazio. Vazio que pouco a pouco se preenche com as características do seu agressor, e então surge a identificação com o próprio.

Neste ponto, é preciso esclarecer que todo este processo se desenvolve de forma inconsciente. É como se um ator entrasse tanto no seu personagem, que acaba se transformando no próprio “personagem”. A vítima pensa que se conseguir se apropriar das características do seu agressor, poderá neutralizá-lo. Fica obcecada com este objetivo, tenta várias vezes, e nesta dinâmica acaba parecendo com seu agressor.

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Desta forma, inicia-se uma cadeia que se transforma em um círculo vicioso de violência. O chefe age com violência para com o seu funcionário, este com a sua esposa, ela com seus filhos, estes com o cachorro, e o animal acaba mordendo o chefe. Ou uma nação que age com violência para com outra e aquela afetada então se sente no direito de também agir com violência para com o seu agressor. Acha que está respondendo, mas no fundo está imitando o que, aparentemente, rejeita.

Infelizmente isto acontece em grande escala. As pessoas que passam por situações traumáticas e não conseguem superá-las ou não procuram ajuda são sujeitos que potencialmente reproduzirão o trauma em outras pessoas. Para alguns esta consequência pode parecer óbvia, para outros pode ser contraditória, mas esta é a realidade.

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