A sociedade condiciona a criatividade?

· novembro 3, 2017

Com o “tipo criativo” em crescimento, muitas empresas estão tentando usar a imaginação e a inovação com mais frequência em seu dia a dia. Mas quando se trata deste tema, será que a sociedade condiciona a criatividade?

A criatividade está ligada à cultura. Pelo menos, é isso que sugere um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Concordia, em Montreal (no Canadá).

A criatividade está ligada à cultura. Nas sociedades individualistas as pessoas produzem um número maior de ideias.

O estudo, publicado recentemente no Journal of Business Research, comparou quase 300 pessoas de Taiwan, uma sociedade coletivista, e do Canadá, um país mais individualista.

Os resultados mostraram que as pessoas que fazem parte de sociedades individualistas criam um número maior de ideias se comparadas com seus correspondentes coletivistas. Essas comparações foram realizadas em condições iguais na hora de avaliar a qualidade da produção criativa.

A sociedade condiciona a criatividade

Os pesquisadores teorizaram que quando um país entra no individualismo, em detrimento do coletivismo contínuo, a situação interfere nos jogos criativos que poderiam ser “permitidos” por ser membro de uma cultura particular.

A sociedade condiciona a criatividade

“O brainstorming frequentemente é usado como substituo da criatividade, por isso decidimos realizar atividades de troca de ideias utilizando estímulos culturalmente neutros em Taiwan e no Canadá”, disse Gad Saad, professor da John Molson School of Business da Universidade de Concordia e coautor do estudo.

Pensar “fora da caixa”

Saad e seus colegas trabalharam na hipótese de que os membros de uma sociedade individualista se sairiam particularmente bem em uma atividade que promovesse o ato de pensar fora da caixa, tentando encontrar uma ideia de milhões de dólares.

Em contrapartida, os membros de um grupo coletivista não estariam dispostos a participar desse tipo de pensamento, pois se mostrariam mais relutantes a se destacar do grupo.

Os pesquisadores recrutaram estudantes de duas universidades: Taipei (em Taiwan) e Montreal (no Canadá). Eles coletaram os seguintes dados:

  • O número de ideias geradas.
  • A qualidade das ideias, segundo uma avaliação realizada por juízes independentes.
  • O número de declarações negativas pronunciadas dentro dos grupos de troca de ideias, como “essa é uma ideia boba que levaria a um erro”.
  • O grau de negatividade das declarações. Por exemplo, “essa é a ideia mais idiota de todos os tempos” tem uma conotação negativa mais forte do que “essa ideia é banal”.
  • O nível de confiança manifestado pelos membros do grupo quando foi pedido para que avaliassem seu rendimento em comparação com o de outros grupos.

Quando se trata de criatividade, a qualidade supera a quantidade

“O estudo sustenta em grande parte as nossas hipóteses”, afirmou Saad. O pesquisador explicou que eles descobriram que os individualistas produziram muito mais ideias e pronunciaram declarações mais negativas. O grupo canadense também mostrou mais confiança que o grupo taiwanês.

Em relação à qualidade das ideias produzidas, os coletivistas se mostraram superiores aos individualistas.

Saad explica que isso se relaciona com outro traço cultural importante que algumas sociedades coletivistas possuem. Trata-se de uma forma de ser mais reflexiva se comparada a aqueles que são orientados à ação, o que se reflete em pensar muito antes de se comprometer com a ação.

O papel da criatividade na cultura e nos negócios

Estudos como esse são fundamentais para entender como a sociedade condiciona a criatividade e compreender as diferenças culturais que ficam cada vez mais evidentes, levando em consideração que o centro econômico mundial se desloca cada vez mais para a Ásia.

Fomentar a criatividade das crianças

“Para maximizar a produtividade das suas equipes internacionais, as empresas globais precisam entender as importantes diferenças entre a mentalidade ocidental e a oriental”, afirma Saad.

A pesquisa explica que o brainstorming, uma técnica frequentemente utilizada para produzir ideias inovadoras, assim como inovações de produtos, pode não ser igualmente eficiente em todos meios culturais.

Saad também insiste que, apesar de os indivíduos das sociedades coletivistas terem contribuído com uma quantidade menor de ideias criativas, a qualidade dessas ideias foram tão boas ou melhores do que as dos indivíduos de sociedades individualistas.

Desta forma, tudo parece indicar que a sociedade condiciona a criatividade de diferentes maneiras, e este é um campo extremamente interessante do comportamento humano em que ainda há muito a descobrir e compreender.