A vulnerabilidade também é um valor psicológico

outubro 4, 2019
Permitir-se ser vulnerável ​​é um ato de coragem. No final das contas, forte não é aquele que mais usa a máscara de felicidade absoluta. Forte é aquele que se permite demonstrar o que sente, assumindo erros e feridas.

A vulnerabilidade, além do que fomos levados a acreditar, é um valor psicológico, outra face da nossa realidade como seres humanos que, como tal, merece ser aceita. Com ela, não apenas assumimos outra parte do nosso universo emocional, mas também facilitamos uma conexão mais íntima e autêntica com tudo aquilo que nos rodeia.

É necessária uma grande força para nos permitirmos ser vulneráveis. Em um mundo em que a segurança, a eficácia e a força são tão valorizadas, aquele que se atreve, em um determinado momento, a renunciar à sua armadura de aparente perfeição, demonstra uma coragem notável. E o fato de o fazer não demonstra uma derrota, muito menos um ato de fraqueza.

Vale lembrar que a vulnerabilidade não é uma indisposição, não é uma falta de força ou de coragem pessoal. Trata-se de mais um aspecto do caráter humano. É, em essência, outra parte da nossa natureza, que nos torna mais sensíveis às nossas necessidades e, além disso, capazes de simpatizar melhor com a dor e a realidade emocional de outras pessoas.

“Sou muito grata por me sentir vulnerável, porque significa que estou viva”.
-René Brown-

Viver com leveza

Não somos super-heróis, somos pessoas (o poder da vulnerabilidade)

Mario Benedetti dizia que a perfeição nada mais é do que uma coleção refinada de erros. Convenhamos, no entanto, que as pessoas têm uma enorme dificuldade em aceitar os erros, as falhas e as mudanças de sentido que o destino traz.

De alguma forma, a sociedade nos acostumou a navegar pelo universo das aparências, das máscaras com as quais se finge resolução e bom humor quando, por dentro, palpitam medos, tristezas e ansiedades.

Assim, a partir do ponto de vista cultural, a vulnerabilidade emocional e inclusive a física sempre têm uma característica depreciativa e até vergonhosa. Quem, em um determinado momento, se afasta desse molde caracterizado pela perfeição, força e resolução — que admite a dúvida e o erro como partes do jogo —, chega a se sentir mal consigo mesmo por não estar em conformidade com o que a sociedade espera e reforça.

Por outro lado, é curioso que, no mundo da literatura, da poesia ou da filosofia existencial de autores como Martin Heidegger, a vulnerabilidade seja entendida de uma maneira mais necessária e construtiva.

Livros como o do Dr. Robert D. Stolorow, Mundo, Afetividade, Trauma, nos lembram que essa dimensão é mais uma área da nossa existência. Afinal, somos todos finitos, sensíveis, mortais e erráticos.

O equilíbrio entre a vulnerabilidade e a força

É incrível, por exemplo, demonstrar nossas competências e habilidades para determinadas atividades ou desafios; é maravilhoso mostrar como somos bons em uma área. No entanto, admitir que às vezes não podemos fazer tudo também é aceitável; assim dever ser, porque é uma realidade.

Assumir erros, demonstrar dor, frustração ou tristeza em determinadas circunstâncias que estão além de nós ou inclusive dizer em voz alta que estamos passando por um mau momento e que precisamos de um tempo também é admirável e recomendado. Não há nada de errado nisso, nem perdemos valor por deixar claro que nossa força coexiste com nossa fragilidade.

A dureza não é um valor psicológico, a vulnerabilidade sim

A dureza de caráter, a personalidade que faz uso de uma atitude dura e aparentemente inflexível, não leva a sucessos na vida. Pelo menos não no que realmente importa: felicidade, bem-estar, respeito, convivência. Além disso, essas habilidades baseadas em dureza, resolução e implacabilidade não são recomendadas nem mesmo em ambientes de trabalho.

Atualmente, é evidente que aspectos como a sensibilidade, a empatia e a vulnerabilidade criam melhores ambientes de trabalho. Com elas, é possível chegar a melhores acordos e humanizar os ambientes.

 

Mulher vulnerável

Você é perfeito quando, em um determinado momento, se permite ser vulnerável

Brené Brown, professora e pesquisadora da Universidade de Houston, destaca que a vulnerabilidade é o berço do amor, do pertencimento, da alegria, da coragem, da empatia e da criatividadePor que assumir então que, quando nos permitimos ser vulneráveis em algum momento, somos imperfeitos?

Triste é, por exemplo, quem nunca se permitiu sê-lo. Quem nunca se atreveu a se abrir a alguém para comunicar emoções, para sentir a dor ou a felicidade do outro.

É lamentável ser obcecado em mostrar aos outros uma competência absoluta, dureza de caráter, inflexibilidade e incapacidade de assumir erros. Esses comportamentos evidenciam uma imperfeição, na qual, além disso, há a presença da infelicidade.

Corajoso é aquele capaz de se mostrar com suas luzes e sombras, com seus pontos fortes e fracos. Tem coragem aquele que cai quando já não suporta mais e se levanta quando é o momento certo. O poder da vulnerabilidade nos torna humanos, nos dota de perfeição porque somos capazes de aceitar a nós mesmos e aos outros com toda a sua riqueza interior. Nada pode ser tão reconfortante.

  • Brown, Brene (2012). Daring Greatly: How the Courage to be Vulnerable Transforms the Way We Live, Love, Parent, and Lead.  Gotham Books.
  • Stolorow, RD (2011). Mundo, afectividad, trauma: Heidegger y psicoanálisis post-cartesiano . Nueva York: Routledge