Anestesiar-se diante da dor pressupõe renunciar ao amor

Anestesiar-se diante da dor pressupõe renunciar ao amor

20, março 2017 em Psicologia 1087 Compartilhados
Anestesiar-se diante da dor pressupõe renunciar ao amor

Se existe algo que evitamos sentir, fugindo como prisioneiros do medo, é, sem dúvida, a dor emocional. Lutamos para não enfrentar situações que sejam dolorosas e acabamos nos anestesiando diante das emoções. O que acontece é que essa anestesia é global e tem suas consequências, como a renúncia ao amor.

Você já sentiu dificuldade para amar, entrando em um estado em que não sabe se realmente tem capacidade de sentir o amor? Não se preocupe, isso também é algo muito normal para o resto dos mortais. Pressupõe um estado de confusão, com o medo sutil diante da possibilidade de nos tornarmos insensíveis.

Não tenha medo, você possui a capacidade de amar mas, simplesmente, levantou um muro para se defender de todos os possíveis perigos e medos que o invadem. Se todos os alertas foram soados, é porque se baseiam em experiências de outras situações dolorosas e, consciente ou inconscientemente, você tenta evitar que elas se repitam.

“Até mesmo uma vida feliz não pode existir sem uma medida de escuridão, e a palavra “feliz” perderia seu significado se não fosse equilibrada pela “tristeza”. É muito melhor aceitar as coisas como elas vêm, com a paciência e equanimidade.”
-Carl Gustav Jung-

Evitando o sofrimento e a dor

Embora sofrimento e dor não sejam a mesma coisa, tentamos evitar ambas as experiências. No entanto, evitar a dor não é uma boa ideia, já que é um processo natural pelo qual temos que passar diante de situações que nos entristecem e nos causam mal-estar. Todos, em algum momento, passamos pelo sofrimento e o alimentamos, quando a única coisa que deveríamos fazer para nos desfazer dele era nos entregar à dor durante o tempo necessário.

A dor nos faz crescer e desenvolver, e o sofrimento nos faz parar. Por isso é importante diferenciar um do outro. Entrar na dor supõe vivenciar a experiência, sentir a emoção para, finalmente, deixá-la ir e liberá-la de forma natural.

O sofrimento aparece com a negação da dor e com o distanciamento emocional. Impedimos que nossa ferida se cure e cicatrize, estancamos, transformando nossa dor em um sofrimento desnecessário. Dar-nos permissão para sentir a dor, sem necessariamente mergulhar nela, nos permite encarar as experiências e continuar avançando, além de impedir que fiquemos parados no sofrimento.

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“A dor é um aspecto inevitável de nossa existência, enquanto o sofrimento depende de nossa reação diante dessa dor”.
-Alejandro Jodorowsky-

Desconexão por mecanismo de proteção

Existem momentos tão dolorosos pelos quais passamos que fizeram com que desenvolvêssemos um mecanismo especializado para nos desconectar da nossa emoção, de nosso corpo, e nos tornamos frios para evitar entrar naquilo pelo que já sofremos. Isso pode chegar, inclusive, à dissociação, quando não somos capazes de aceitar a realidade pelo impacto emocional que representa.

Quando existe a possibilidade de ocorrer uma situação desagradável, parecida com a que temos guardada em nosso histórico de experiências, nosso sistema de sobrevivência nos protege. Atrás dessa proteção artificial se escondem nossos medos mais angustiantes, como o medo do abandono, da solidão e da rejeição.

Essa esquiva e frieza em experimentar certas situações que nos colocam em alerta podem estar determinando nossas vidas:

  • Evitando o risco que amar representa.
  • A insegurança de confiar em quem nos rodeia.
  • Relacionar-nos com precaução, ficando na superficialidade.
  • Manter relações nas quais o que nos move é o interesse, aquilo que podemos conseguir das pessoas, utilizando-as como instrumentos para nossos fins.
  • Criar um universo hostil para nós, no qual reina a sobrevivência e a competitividade.
  • Falta de confiança em si mesmo: agradando, procurando o reconhecimento e evitando expressar as próprias necessidades.

As emoções e os sentimentos são nossa bússola

As emoções e os sentimentos são tudo que temos. Sem nos esquecermos de que somos humanos, não existe melhor solução do que nos entregarmos à experiência de viver. O que supõe atrever-se a experimentar a dor, se queremos sentir plenamente o amor.

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A anestesia não é seletiva: se você a aplica para não sentir dor, estará se desconectando de si, de suas emoções e sentimentos, do amor e, por fim, da própria vida.

Essas sensações – sentimentos e emoções – são nossa bússola de precisão, já que nos indicam como nos sentimos em cada momento. Permitem que saibamos que não somos cascas vazias, mas que estamos repletos por um mundo interno extraordinário. Um cosmos diante do qual temos duas opções: tirar o máximo de proveito e nos entregarmos à experiência ou cortar todas as relações com ele.

Depende de você, e de mais ninguém, a escolha de se mostrar vulnerável ou protegido, e de dar o passo e atrever-se a mergulhar e nadar seguindo o curso do rio da vida ou, pelo contrário, ficar na margem, observando de longe como a corrente passa sem que você participe, sem que aproveite as possibilidades que só a entrega à experiência pode proporcionar.

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