O que aprendi lendo Murakami - A Mente é Maravilhosa

O que aprendi lendo Murakami

31, maio 2017 em Livros 219 Compartilhados
O que aprendi lendo Murakami

Murakami é um dos raros escritores que gozam do acolhimento do grande público e que ao mesmo tempo contam com a aprovação de grande parte dos críticos literários. Por exemplo, se olharmos para a lista dos últimos prêmios Nobel de literatura, encontraremos muitos autores desconhecidos para muitos leitores habituais, para não falar do quanto eles podem ser anônimos para quem não desfruta do prazer da leitura. Infelizmente Murakami nunca recebeu esse prêmio, mas pelo menos foi considerado nos últimos anos.

Também é, talvez, um desses autores que escolhe títulos que poucas editoras escolheriam e que falam do peso que o autor tem na hora de decidir detalhes que envolvem os seus livros. Além disso, é talvez o autor com a melhor capacidade de retratar um personagem de forma independente da etapa de vida pela qual está passando.

A cultura japonesa está muito presente em seus romances, especialmente a parte cerimonial que os japoneses costumam conceder às relações de confiança. Por outro lado, em seus personagens, desde os mais jovens até os mais velhos, sempre encontramos esse ponto de tristeza que parece lhes dar a solidão que costuma acompanhá-los. Em seus romances, a companhia parece ser um estado acidental, e a solidão, o estado natural. Isso talvez também tenha muito a ver com a própria personalidade do autor, que confessa ser uma pessoa muito introvertida.

A força de vontade não está tão presente quanto pensamos

Quem passa o dia exercitando sua força de vontade escolheu um plano de vida equivocado. Murakami aborda este tema de forma extraordinária quando se refere ao exercício. Neste sentido, muitas das pessoas que praticam esportes todos os dias são reconhecidas por outras muitas como possuidoras de uma enorme força de vontade. Talvez seja verdade que dentro deste grupo haja pessoas assim, mas para a maioria das pessoas que realizam uma atividade física durante anos, elas não fazem isso contando com a vontade.

Elas fazem isso porque para elas é mais fácil, mais divertido e mais motivador do que outras alternativas. Elas preferem uma hora de exercícios do que um hora de reunião ou de aulas de inglês, preferem isso a muitas outras atividades. O contrário, salvo por motivos de saúde, seria uma tortura que poucas vontades aguentariam.

Neste sentido, existem muitas atividades mitificadas; por exemplo, lembro do caso de um rapaz que sentia um prazer enorme em ficar em casa numa noite de sábado lendo tranquilamente e que, pelo contrário, enfrentava uma prova de vontade ao ter que passar um tempo em uma discoteca.

Parece que as coisas saudáveis, recomendáveis e positivas têm que ser, além disso, pouco apetecíveis, ingratas e desmotivantes. Pelo contrário, o oposto parece ser a tentação, o desejo, o capricho. No entanto, muitas vezes não é assim e é aqui que começa a confusão da vontade. Assim, podemos passar um tempo nadando contra a corrente, mas uma vida fazendo isso não faz sentido.

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Até no injusto costuma haver uma espécie de justiça

O mundo é dividido em dois tipos de pessoas: aquelas que “comem pelos cotovelos” e não engordam, e aquelas que têm uma capacidade especial para integrar em seu corpo qualquer caloria que se aproxima. O normal é que o primeiro grupo seja motivo de inveja para o segundo. Na verdade, nunca ouvimos um comentário no outro sentido. “Que inveja, você pode comer de tudo e não engorda!”.

No entanto… essa espécie de injustiça genética tem sua contrapartida. As pessoas com uma maior tendência a engordar costumam cuidar mais de sua alimentação, preocupam-se em seguir uma dieta mais variada e em não torturar seu metabolismo com refeições exageradas quando seu ritmo é muito baixo. Desta forma, não é raro que uma pessoa que esteja acima do peso recomendado para sua altura tenha um exame de sangue muito mais equilibrado e saudável do que o de uma pessoa muito magra.

Assim, as pessoas que são mais sensíveis às flutuações de peso contam com um “sinal de alarme” que dispara mais facilmente diante de muitos problemas de saúde. Por isso, essa é uma vantagem que muitos de nós ignoramos. Além disso, este é apenas um exemplo de algumas situações que consideramos negativas enquanto ignoramos as vantagens que elas também têm.

Ser diferente tem um preço

A globalização desenfreada que estamos testemunhando nos últimos anos é a fusão de culturas, mas em grande parte também está tendo como efeito a homogeneização das mesmas. Por outro lado, estamos em um mundo competitivo em que a criatividade é tão escassa que seu preço é enorme. Assim, de alguma forma, todos nós queremos ter uma voz própria, um estilo próprio, ao mesmo tempo em que queremos que os grupos com os quais nos identificamos nos acolham. É o paradoxo de querer parecer com os outros sendo diferentes.

Bem, independentemente do tipo de motivação para isso, a verdade é que não há pessoas iguais. O preço exato por essas diferenças são as discussões, os mal-entendidos e os desentendimentos. Sim, isso de que gostamos tão pouco.

Assim como você e eu, os personagens de Murakami são muito diferentes e desfrutam dessas diferenças pagando o mesmo preço que nós.
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Não entregue sua liberdade a ninguém

Ninguém merece carregar esse peso nem ter esse privilégio em suas mãos. Ninguém e nem nada, uma vez que atingimos a idade adulta. Seja uma pessoa que você ama ou um trabalho que você gosta. Não é só porque a sua liberdade é um privilégio que deveria pertencer a você de forma intrínseca (dentro dos limites da lei, como é óbvio), mas porque se você entregar sua liberdade a alguém ou a algo, estará condenando-a ao mesmo tempo.

Talvez no início você consiga suportar, mas mais cedo ou mais tarde você vai acabar se arrependendo. Isso provavelmente vai fazer com que a relação que você tem com a pessoa amada acabe ou se deteriore, ou vai fazer com que você deixe de sentir toda essa paixão pela profissão que antes te completava.

Amamos as pessoas de corpo e alma

“Não estava claro quem era ela. Não era mais que um ser. E estava dotada de uma habilidade especial que permitia separar o corpo do coração. ‘Te ofereço um dos dois’, disse a Tsukuru. ‘Ou o meu corpo ou o meu coração, não posso dar os dois. Por isso você tem que escolher um agora mesmo, porque o outro darei a outra pessoa’, disse ela. No entanto, Tsukuru a desejava por inteiro. Não podia aceitar que ela entregasse a outra metade a outro homem. A ideia lhe parecia insuportável”.

“E queria dizer que, se tivesse que ser assim, não queria nada dela, mas não podia dizer isso. Era incapaz de avançar ou retroceder”.
-H. Murakami. A Peregrinação do Rapaz Sem Cor-

Nada melhor do que as próprias palavras do autor para explicitar sua própria reflexão. É que o amor tem uma poderosa parte química, mas não é menos certo que tem uma poderosa parte física. Renunciar a alguma das duas dimensões é ferir mortalmente o próprio amor. Condená-lo a uma insatisfação perpétua que não vai tardar a acabar com ele. Talvez conceitualmente possamos separar alma e corpo, mas o amor precisa que ambos formem uma orquestra para tocar em sintonia.

Certamente se você se aproximar da obra de Murakami, será capaz de retirar seus próprios ensinamentos. Pode ser que seus personagens não falem muito, mas seus livros são uma comunicação aberta para a reflexão, para o enriquecimento pessoal e, acima de tudo, para a apreciação.

“Algum dia a morte pegará na nossa mão. Mas até o dia em que ela nos pegar, nos veremos livres dela. Eu pensava assim. Me parecia um raciocínio lógico. A vida está neste lado; a morte, no outro. Nós estamos aqui, e não ali”.
-H. Murakami. Tokio Blues-

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