Hoje quero falar do atentado terrorista em Barcelona

· outubro 13, 2017

É difícil se colocar na pele de quem sofreu, direta ou indiretamente, o atentado terrorista em Barcelona. Mais é ainda mais difícil se colocar na pele das pessoas que vivem o terrorismo diariamente, por causa da distância e por causa do pouco que sabemos sobre elas. A verdade é que milhares de pessoas no Iraque e na Síria vivem essa situação diariamente sem conseguirem imaginar um futuro mais esperançoso.

É absurdo responsabilizar uma religião inteira pelos atos de uma ínfima minoria. No entanto, vendo os comentários de muitas pessoas que estendem suas bandeiras nas redes sociais, podemos ver como esse absurdo é real.

Os comentários de ódio se multiplicam sempre que um ataque acontece. No entanto, para compreender o atentado terrorista em Barcelona, é necessário entender o que é o terrorismo e do que ele se alimenta. Da mesma maneira que as mensagens de encorajamento são necessárias e benéficas nesses casos, não é menos importante estar bem informados e não gerar ódio naquelas pessoas que nada tem a ver com o que aconteceu.

O terrorismo é uma ameaça tão grande que requer aliados, e não inimigos, para ser combatido…

O que é o terrorismo?

O primeiro problema com que nos deparamos é a definição do terrorismo. Atualmente, cada país e cada organização tem uma definição própria do terrorismo. Embora essas definições tenham muitos pontos em comum, elas também se distanciam em outros pontos cruciais. Pode-se dizer que a definição de terrorismo é política, pois atende aos interesses de quem o define.

Um dos objetivos que a política deveria visar é a unificação da definição do terrorismo. Um conceito internacional que possa ser usado tanto pelas forças de segurança, quanto por aqueles que aplicam as leis e por quem procura o terrorismo nas ruas.

Flor nascendo em meio à adversidade

Baseando-nos nessas diretrizes, recorremos à definição de Boaz Ganor, ex-chefe do Mossad, o Instituto para Inteligência e Operações Especiais de Israel, que propõe que o terrorismo é: “uma forma de luta violenta na qual a violência é deliberadamente usada contra os civis para alcançar objetivos políticos (nacionalistas, socioeconômicos, ideológicos, religiosos, etc.)”. Segundo essa definição, qualquer atentado contra civis que tenha objetivos relacionados com a política seria terrorismo. Em contrapartida, atentados nos quais as vítimas são membros de forças de segurança não seriam considerados terrorismo, e sim guerrilha.

Os interesses do terrorismo

Em relação aos interesses do terrorismo devemos diferenciar dois tipos de motivos. Por um lado estão os motivos individuais de cada pessoa ou terrorista e, por outro lado, estão os interesses da organização terrorista. Para a organização, o mais importante é difundir o medo.

Um atentado terrorista em Barcelona, Londres ou Paris, que pode parecer completamente aleatório e impossível de evitar, tem o objetivo de enviar uma mensagem: ninguém está a salvo. Nessa situação, é normal que as pessoas, tanto as atingidas como as não atingidas, sintam medo e até mesmo terror. Mas esse medo pode se transformar em algo crônico. Pode chegar a ser algo irracional.

Desse modo, o objetivo da organização terrorista é instaurar um terror crônico que leve as pessoas a se sentirem constantemente inseguras. Uma das consequências imediatas é a aceitação pela população das medidas do governo em favor da segurança, aceitando pagar essas medidas com a redução de direitos e liberdades. Outra consequência provável do atentado é que o nossa atenção vai se focar em alguma das características dos terroristas, como a religião, e o fato de a rejeição a aqueles que roubaram vidas se estender aos que professam a mesma religião.

A consequência vai ser a pressão por parte das pessoas em relação aos seus governos para que instaurem medidas mais rígidas que restrinjam as liberdades em favor de uma segurança desnecessária. Outra consequência desse medo é que ele vai se voltar na direção de determinadas pessoas. Mais especificamente, nesse caso, a todas as pessoas que têm o islamismo como religião ou que tenham origens árabes.

Dessa forma, a organização terrorista vai tentar legitimar seus atos como uma defesa nobre daqueles que são discriminados, oprimidos e marginalizados. A diferença entre “nós” e “eles” vai se tornar maior. Os discursos de ódio vão polarizar a sociedade, ao mesmo tempo em que vão facilitar o trabalho daqueles que recrutam terroristas.

Interesses dos terroristas

Em contrapartida, os interesses dos terroristas podem ser variados. Cada pessoa vai ter prioridades diferentes. Levando em consideração que o terrorismo jihadista surge de uma depravação do islamismo, os interesses vão manter relação com as crenças dessa religião. Mas nem por isso os terroristas serão muçulmanos, mesmo que entre as suas motivações estejam aquelas relacionadas com os benefícios que a religião traz.

Assim, alguns dos “benefícios” individuais para os terroristas vão ser: garantir a entrada no céu, ter 72 mulheres virgens esperando quando chegar ao céu, gozar da possibilidade de escolher 70 conhecidos para irem diretamente para o céu quando falecerem (independentemente das suas ações em vida), prestígio para os familiares e a idealização do terrorista morto, que passa a ser um mártir.

Luto por terrorismo em Barcelona

No entanto, como dissemos, nem todos os interesses são religiosos. As famílias dos terroristas costumam receber quantidades de dinheiro que não conseguiriam obter de outras maneiras. Os terroristas que participaram de atentados e não foram capturados também vão receber reconhecimentos e até mesmo maiores responsabilidades na organização da qual pertencem. Por fim, outro interesse comum costuma ser o desejo de vingança contra aqueles que eles pensam que são os responsáveis pela sua situação.

Uma mistura desses interesses e outros mais é o que define as motivações individuais dos terroristas que, como foi possível observar, não precisam coincidir com os da organização.

Recomendações em caso de atentado

Embora seja importante conhecer os conceitos, para as pessoas leigas no assunto é mais importante saber quais orientações de ação seguir. Como reagir em caso de um atentado terrorista, mesmo que não tenha ocorrido nenhum perto de nós, é a primeira coisa que deveríamos saber. Para começar, o fundamental é dar ouvidos aos especialistas, às forças de segurança. Suas indicações são as primeiras que devemos seguir.

Dar apoio através das redes sociais pode trazer benefícios para todos. Como já se viu, manter discursos de ódio, criminalizar comunidades inteiras e apoiar políticas racistas e intolerantes é o que os terroristas querem. Se você faz isso, está agindo a favor dos interesses dos terroristas.

Da mesma maneira, compartilhar imagens mórbidas é outra ação errada. Além de gerar medo irracional, essas imagens podem ferir a sensibilidade dos atingidos. Pelo contrário, compartilhar informações sobre como agir, imagens que mostrem união e compreensão com os atingidos, tanto direta como indiretamente, vai ser mais benéfico. Ao mesmo tempo, repudiar as ações erradas ao denunciá-las ou deixando de visualizá-las também é uma prática correta.

Caso estivermos no lugar de algum atentado, as recomendações dos profissionais são: correr, se esconder e avisar. Em um primeiro momento é preciso fugir e buscar um abrigo seguro, tentar ser um herói pode ser contraproducente. Assim que você tiver encontrado um lugar seguro é preciso avisar as forças de segurança sobre o acontecido e aos seus conhecidos de que você está seguro. Antes de avisar, você precisa ter certeza de que não está em perigo. Lembre-se: corra, esconda-se e dê o sinal de alerta.

Hoje todos somos Barcelona. Amanhã seremos sírios e depois afegãos. Não importa a nacionalidade, a cor, a etnia nem a religião. Contra o terrorismo, estamos todos unidos. Dessa maneira e apenas dessa maneira, vamos ganhar aliados e perder inimigos.