Como é o cérebro das crianças superdotadas?

· dezembro 3, 2018

O cérebro das crianças superdotadas ou com alta capacidade de desempenho tem suas vantagens, mas também traz algumas limitações. Eles processam a informação de maneira muito veloz, têm uma capacidade analítica muito desenvolvida e um senso crítico bastante sofisticado. Nem sempre, no entanto, essas crianças conseguem alcançar seu potencial, nem desenvolvem uma mente forte o suficiente capaz de manejar de forma hábil suas capacidades, assim como o universo emocional que deriva disso.

O que em um primeiro momento pode parecer apenas uma grande bênção, para muitas pessoas não funciona exatamente assim. Toda criança superdotada ou com altas capacidades terá as dificuldades normais de toda criança da sua idade, somadas, é claro, às que derivam de seu alto coeficiente intelectual.

O cérebro das crianças superdotadas ou com alta capacidade cognitiva se desenvolve de modo diferente das crianças com um nível de inteligência média ou normal.

Desse modo, e ainda que frequentemente ouçamos falar das notáveis vantagens de um cérebro dotado de habilidades extraordinárias, nem sempre outros fatores que também caracterizam essa parte da população são levados em consideração. Estamos falando de ansiedade, de baixa autoestima, de desconexão com um entorno pouco ajustado a suas necessidades, de isolamento… Todos esses problemas começam a se tornar mais evidentes por volta dos 11 anos de idade.

As associações estatais ou mesmo as não governamentais que trabalham com essas crianças têm diretrizes bastante claras. Não basta fazer uso de todos os meios possíveis para a identificação da condição em idades bastante jovens – estima-se que o ideal seja entre os 3 e os 5 anos de idade. Precisamos também compreender como é o cérebro das crianças superdotadas. É prioridade entender como ele se desenvolve, e como devemos lidar com cada marco do desenvolvimento neural, acompanhando-o com os reforços e o suporte mais adequado possível.

Criança observando a chuva

O cérebro das crianças superdotadas ou com altas capacidades

Os neurocientistas sempre tiveram um grande interesse em compreender o cérebro das crianças superdotadas. O que o torna diferente das crianças com uma inteligência média ou normal? Que recursos neurais excepcionais essas crianças apresentam para ter uma capacidade tão mais desenvolvida? Muitas dessas perguntas já foram respondidas graças ao novos avanços na ciência de estudo do cérebro como, por exemplo, as técnicas de contraste e as ressonâncias eletromagnéticas.

A seguir listamos e explicamos uma parte das descobertas recentes que temos disponíveis para o público, e que podemos consultar em espaços especializados de revistas científicas, como a The British Psychological Society.

Seu córtex cerebral se desenvolve mais lentamente

Esse dado é muito chamativo, mas foi algo que a neurociência já deixou bem claro. Já foi confirmado a partir de estudos realizados com o cérebro de pessoas com QI muito elevado, como Albert Einstein, que elas não tem um cérebro maior. Mais impressionante ainda, as crianças com altas capacidades costumam apresentar um córtex cerebral menor. Conforme a idade, porém, o desenvolvimento dessa parte da massa cerebral vai sofrendo um espessamento e engrossando de forma lenta, mas constante, até a chegada da adolescência.

Em uma criança com um QI normal, acontece justamente o contrário. Na primeira infância, essas crianças apresentam um córtex cerebral mais grosso. Chegados os 12 ou 13 anos, a área tende a diminuir, reduzindo seu tamanho total. O que isso significa? Basicamente que o cérebro de uma criança com elevadas habilidades cognitivas vai se sofisticando e se especializando com o tempo. Seu momento de maior potencial é a adolescência.

As regiões do cérebro são mais especializadas

As crianças superdotadas apresentam, também, um volume maior de matéria cinzenta em certas regiões do cérebro. Lembremos que a matéria cinzenta tem relação com a cognição, a inteligência e a nossa capacidade de processamento de informação. Isso significa basicamente que alunos superdotados têm mais facilidade e maior habilidade para lidar com dados, analisá-los e extrair conclusões.

Há no cérebro 28 regiões relacionadas com a nossa habilidade de raciocinar, agir, focar a atenção e reagir a estímulos sensoriais externos. As crianças com altas capacidade apresentam uma maior especialização em cada uma dessas áreas cerebrais.

A inteligência

Há uma maior conexão neuronal

Enquanto a matéria cinzenta contém e lida com a informação, a matéria ou substância branca é a que permite a mobilidade da informação, pois garante a conexão entre os neurônios. Já podemos adivinhar que no cérebro de crianças superdotadas esta é, sem dúvida, a parte com uma das características mais notáveis. Sua eficiência neuronal é enorme.

O cérebro tem, podemos dizer de forma figurativa, muito mais estradas e ruas neuronais para conduzir os dados, a informação e os conceitos. Além disso, essas vias são todas intercomunicadas, em uma ampla rede que torna o cérebro sofisticado e hiperconectado, permitindo um funcionamento muito rápido. Agora… essa mesma característica também traz algumas desvantagens.

Podem surgir engarrafamentos muitas vezes. Ou seja, a criança com alta capacidade cognitiva pode entrar em colapso diante de tanta informação processada, diante de tanta relação que o cérebro cria entre uma ideia e outra. É por isso que às vezes há um bloqueio. Diante de tantas ideias, hipóteses e inferências, há uma pane no sistema. Há tanta atividade mental e neuronal que frequentemente essas crianças podem demorar muito mais tempo para terminar uma prova, ou inclusive para responder uma pergunta de aparência bastante simples.

A plasticidade cerebral é uma grande vantagem

Grande parte dos trabalhos neurocientíficos ressaltam a grande capacidade de plasticidade que o cérebro das crianças superdotadas possui. Tal como falamos no início do artigo, seu córtex cerebral cresce de forma mais lenta, mas enquanto isso, ele se especializa e vai se desenvolvendo de forma constante. Novas conexões são criadas, novas estradas são abertas de forma gradual para facilitar a aprendizagem.

Quando uma criança presta atenção em uma nova experiência, seu cérebro muda, se especializa, novos caminhos neurais são construídos para criar uma maior conexão entre áreas, regiões e estruturas. A plasticidade das crianças superdotadas é tão maravilhosa que muitos neurocientistas as classificam como mente em eterno crescimento. Mentes famintas e desejosas de interação, cujas expectativas nem sempre são cumpridas pela maioria de nós, meros mortais que estão ao seu redor.

Criança superdotada no mundo da arte

Para concluirmos, há algo que temos que ter em mente sobre todas as informações trazidas. É a forma como o cérebro das crianças superdotadas se desenvolve. O desenvolvimento se dá de forma gradual, mas sofisticada, e tem seu pico na adolescência. Enquanto crianças com um QI normal têm seu pico de maturação cerebral entre os 5 e 6 anos, são os adolescentes com altas habilidades que exigem uma maior demanda quando chegam a essa fase da vida.

Eles precisam, antes de tudo, de um contexto que os favoreça e permita que eles usem o potencial de suas capacidades, impulsionando sua plasticidade cerebral. Se o ambiente dessa criança entre 10 e 11 anos é pouco estruturado e pouco ajustado a suas capacidades, o mais comum é que ela lide com o ostracismo e a frustração. Sejamos, então, mais sensíveis a essas mentes tão despertas, mas também frágeis em muitos aspectos.