Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias

Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias

Dora Nunes junho 10, 2017 em Emoções 566 Compartilhados
Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias

Um choro miudinho, quase calado. Não podias deixar que percebessem que sentias desalento e vontade de desistir.

Não ias ao cabeleireiro, porque os teus netos vinham almoçar e foi a eles que te dedicaste de corpo e alma, ensinando-os os verdadeiros valores da partilha e do amor. Dedicação de mãe, ao dobro, que só tem olhos para o amor aos seus.

choravas pela família

Ias ao supermercado e compravas o que toda a tua família mais gostava de almoçar, ao domingo, em tua casa. A casa que todos procuravam para desabafar as vicissitudes da vida e as encostas mais íngremes desta escalada que é viver. Aquela casa branca de barras amarelas, com um vaso de feto à porta, e um rádio que tocava uma música portuguesa, da qual já não me lembro muito bem. Cantarolavas a músicas e davas alegria à rua toda. Acho até que as tuas malvas cantavam também.

Viver para os outros sem limites e com vontade que as reuniões de família durassem uma eternidade. Todos reunidos à volta da mesa era sinônimo de um sorriso rasgado no teu rosto. Rosto de mulher cansada, mas com uma garra e uma força de viver que transbordavam do balde da esfregona que tinhas à porta da cozinha. E bate-me uma saudade.

Sinto até o cheiro da roupa molhada no estendal, por cima do teu tanque de pedra. Era lá que te encostavas a falar com quem te visitava.

Eterna Mulher Saudade, que hoje vive assombrada por uma vida de passado, de lembranças boas, recordando uma casa cheia de sorrisos, gente feliz, papéis e laços de embrulho que desatavam os nossos sonhos de meninice.

choravas pela família

Eterna Mulher Saudade, sempre foste a atriz principal, mas em papel secundário.
Eterna Mulher Saudade, trilhaste o teu caminho, marcando com pegadas de sal o caminho de quem o cruzou contigo. E o meu? Marcaste e marcas ainda, minha Eterna Mulher Saudade.
Eterna Mulher Saudade, que me enche de paz e tranquilidade, sempre que falamos neste mundo de correria e, só por cinco minutos, me dás o teu sorriso mais sincero.
Eterna. Assim serás para mim.

Eterna Mulher Saudade.

Dora Nunes

Sou licenciada em Tradução e Secretariado, trabalho como Técnica Administrativa num Lar de Idosos, Casa dos Avós em Ponte de Sor, Portugal. Vivo “no mundo dos papéis”, mas sou completamente rendida e apaixonada pelo mundo das emoções

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