Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias

Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias

Dora Nunes junho 10, 2017 em Emoções 0 Compartilhados
Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias

Um choro miudinho, quase calado. Não podias deixar que percebessem que sentias desalento e vontade de desistir.

Não ias ao cabeleireiro, porque os teus netos vinham almoçar e foi a eles que te dedicaste de corpo e alma, ensinando-os os verdadeiros valores da partilha e do amor. Dedicação de mãe, ao dobro, que só tem olhos para o amor aos seus.

choravas pela família

Ias ao supermercado e compravas o que toda a tua família mais gostava de almoçar, ao domingo, em tua casa. A casa que todos procuravam para desabafar as vicissitudes da vida e as encostas mais íngremes desta escalada que é viver. Aquela casa branca de barras amarelas, com um vaso de feto à porta, e um rádio que tocava uma música portuguesa, da qual já não me lembro muito bem. Cantarolavas a músicas e davas alegria à rua toda. Acho até que as tuas malvas cantavam também.

Viver para os outros sem limites e com vontade que as reuniões de família durassem uma eternidade. Todos reunidos à volta da mesa era sinônimo de um sorriso rasgado no teu rosto. Rosto de mulher cansada, mas com uma garra e uma força de viver que transbordavam do balde da esfregona que tinhas à porta da cozinha. E bate-me uma saudade.

Sinto até o cheiro da roupa molhada no estendal, por cima do teu tanque de pedra. Era lá que te encostavas a falar com quem te visitava.

Eterna Mulher Saudade, que hoje vive assombrada por uma vida de passado, de lembranças boas, recordando uma casa cheia de sorrisos, gente feliz, papéis e laços de embrulho que desatavam os nossos sonhos de meninice.

choravas pela família

Eterna Mulher Saudade, sempre foste a atriz principal, mas em papel secundário.
Eterna Mulher Saudade, trilhaste o teu caminho, marcando com pegadas de sal o caminho de quem o cruzou contigo. E o meu? Marcaste e marcas ainda, minha Eterna Mulher Saudade.
Eterna Mulher Saudade, que me enche de paz e tranquilidade, sempre que falamos neste mundo de correria e, só por cinco minutos, me dás o teu sorriso mais sincero.
Eterna. Assim serás para mim.

Eterna Mulher Saudade.

Dora Nunes

Sou licenciada em Tradução e Secretariado, trabalho como Técnica Administrativa num Lar de Idosos, Casa dos Avós em Ponte de Sor, Portugal. Vivo “no mundo dos papéis”, mas sou completamente rendida e apaixonada pelo mundo das emoções

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