Conectar-se com os outros: o desafio das novas formas de comunicação

· novembro 4, 2017

A tecnologia, no que diz respeito à comunicação, é uma das melhores representações da dualidade que costuma estar presente em cada um dos nossos atos. Por um lado, facilita algumas experiências. Por outro, envolve um grave perigo: o de nos afastar das experiências. Assim, conectar-se com os outros é cada dia mais fácil e, ao mesmo tempo, mais difícil.

As redes sociais, por exemplo, nos permitem trazer para perto o que está longe: podemos entrar em contato com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância mais rápido do que um piscar de olhos. Além disso, podemos saber quais lugares outras pessoas costumam visitar, saber do que elas gostam, quais são seus passatempos preferidos ou como está seu círculo social.

O perigo dessa grande quantidade de possibilidades surge quando o que acontece nas telas funciona como uma substituição, e não como um complemento, das formas de comunicação tradicionais. Assim, conectar-se com os outros é muito mais do que apertar o “curtir”. Falar cara a cara envolve uma grande quantidade de nuances que são perdidas no “WhatsApp”. E as fotos pouquíssimas vezes têm o poder de refletir uma realidade completa, ou pelo menos tão completa quanto a que captamos com nossos olhos ao vivo.

Casal prestando atenção no celular

Nós corremos o risco de nos tornarmos dependentes das redes, de nos esquecermos de entrar em contato com as pessoas através dos olhares e dos gestos, de nos esquecermos da linguagem não verbal que interpretamos quando temos a oportunidade de “ler” outra pessoa, de fingir nas fotos quando na verdade não queremos mostrar ao mundo como nos sentimos. O segredo está em tirar o máximo proveito das novas tecnologias sem perder, ou deixar de lado, tudo o que elas dificilmente podem nos proporcionar.

Conectar-se com os outros por necessidade ou por prazer

Definimos a nossa linha de ação quando sentimos necessidade de entrar nas redes sociais no nosso dia a dia, quando uma experiência deixa de ser válida se não for “publicada” nesses meios. Quando viver e aproveitar não é mais suficiente, e passamos a sentir necessidade de que os outros saibam e participem do nosso momento.

Longe de refletir a realidade, um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Winsconsin, Haverford, Northwestern e Toronto constatou que os casais que faziam mais publicações nas redes sociais eram mais infelizes.

Em geral, é possível dizer que as pessoas que mais precisam do externo (“curtir” dos seus contatos, visitas ao seu perfil, etc.) são também as pessoas que mais carências sentem no seu mundo interior. Uma pessoa com boa autoestima não vai precisar que os outros deem sua aprovação sobre fotos ou viagens, namoros ou amigos, pois simplesmente faz uso das redes sociais para se conectar de vez em quando e para ficar mais próximo de outras coisas e pessoas, mas nunca por necessidade.

Casal tirando fotos do mar

Não devemos nos esquecer de que falar ou conversar envolve mais do que manter o olhar fixo em uma tela ou escrever várias mensagens. Ver fotos, por exemplo, também não é ver paisagens. Clicar em “curtir” não significa expressar uma opinião completa, é simplesmente um “estou aqui e sigo você”.

A câmera da nossa memória é muito melhor do que a do nosso celular

A verdadeira essência do nosso dia a dia fica gravada na nossa memória, e não seria positivo permitir que, por estar refletida em uma foto, essa experiência deixasse em nós menos marcas do que a digital. Um momento pode esconder uma inspiração emocional que podemos perder se o único meio que utilizamos para olhar for a câmera.

Sem perder a possibilidade de se conectar com seus amigos imediatamente, ou abrindo mão dessa possibilidade em alguns momentos (não faz mal deixar o celular de lado um pouco), seria bom tirar um tempo para um café, manter uma conversa comum, viajar e ter a chance de abraçar, de piscar um olho, de pegar nas mãos, já que temos os métodos e a vontade para isso.

Mulher guiando seu par por estrada

É verdade que talvez não sejamos apenas nós. Parece que a maioria das pessoas prefere a comunicação digital à comunicação presencial, e poder passar algum tempo com elas é praticamente um milagre. Assim, se você não quiser perder o contato com essas pessoas não há outra opção senão ir ao lugar em que elas passam a maior parte do tempo: o mundo digital.

Há uma vida por trás de cada perfil. Nós somos mais do que uma imagem ou um contato, cada pessoa é um mundo, do qual pouco é refletido nas redes sociais. Assim, conectar-se com os outros é mais do estar “online” ao mesmo tempo. Se você tentar descobrir e sair de trás das telas, você vai ver o que a realidade esconde e guarda para você.