Construtivismo: como construímos nossa realidade?

· novembro 8, 2017

Há muito tempo filósofos e cientistas têm se perguntado sobre como percebemos a realidade e como adquirimos o conhecimento. Neste artigo, vamos falar sobre uma das posturas que responde a essas questões, o construtivismo. A teoria construtivista nos proporciona uma visão interessante na hora de fazer frente ao estudo da psicologia.

Antes de falar sobre o construtivismo em si, temos que fazer uma revisão de sua história para entender de onde vem essa posição. Buscando a simplicidade na exposição, tentaremos colocá-la seguindo dois caminhos diferentes: os antecedentes sobre a aquisição do conhecimento e os antecedentes sobre a percepção da realidade.

Como adquirimos o conhecimento?

De onde vêm nossas ideias e representações mentais? As teorias clássicas que explicam esta questão são agrupadas em duas correntes: empirismo e inatismo.

O empirismo parte da premissa de que todo o nosso conhecimento é dado pela experiência. Até a menor e mais simples ideia seria dada pelo nosso ambiente, para depois ser captada pelo nosso cérebro e aprendida.

O pressuposto desta posição é que o conhecimento está completamente fora do assunto e este passa para a sua mente: pode vir dos outros ou da própria realidade, que o sujeito copiaria. O empirismo é uma teoria muito consistente com o senso comum e tem inspirado correntes psicológicas como o comportamentalismo.

Homem pensando sobre a sua realidade

O inatismo nasce porque o empirismo parece insuficiente. Embora pudéssemos aceitar que uma boa parte do conhecimento tenha sido adquirida do exterior, não é menos verdade que nascemos com certas disposições, como a de nos relacionarmos entre si usando uma linguagem sofisticada.

Assim, o inatismo parte do postulado de que existem conhecimentos ou programações que não são adquiridos através da experiência. Esses conhecimentos – ou programações – seriam, por exemplo, aqueles que são muito necessários para organizar nossa experiência (categorias de espaço, tempo, número…).

O problema que a inatismo representa é que fica aquém quando se trata de explicar como esses conhecimentos surgem ou por que eles aparecem em momentos diferentes e, acima de tudo, por que existem as diferenças individuais. O construtivismo procura resolver esse problema, juntamente com os problemas que o empirismo também parece apresentar.

O construtivismo parte do princípio de que a aquisição do conhecimento é o resultado de uma interação contínua entre a realidade e o assunto. O indivíduo é como um cientista intuitivo, recolhe dados sobre sua realidade e cria interpretações sobre seu ambiente. Essas interpretações nos ajudariam a criar nosso próprio mundo e utilizá-lo como base para as seguintes interpretações.

Como percebemos a realidade?

Esta também tem sido uma das grandes questões, e uma grande quantidade de soluções possíveis surgiram antes dela. A resposta mais intuitiva e a primeira que a história nos mostra é o realismo. A partir desta posição, se pensa que recebemos uma cópia exata da realidade, o que vemos, ouvimos e tocamos é exatamente o que percebemos; e todos os indivíduos percebem igualmente.

O realismo logo caiu sob seu próprio peso, muitos filósofos perceberam que os sentidos não percebiam a realidade de forma correta. Descartes e Hume inclusive chegaram ao ponto de dizer que era possível que não houvesse realidade por trás dos sentidos. Aqui aparece outra das possíveis soluções: os sentidos nos dão um reflexo impreciso da realidade. Já não observamos a realidade diretamente, essa premissa diz que o que vemos é uma sombra da realidade.

Mesmo assim, podemos observar algumas deficiências nesta última explicação. Por exemplo, embora todos tenhamos os mesmos sentidos, nem todos percebemos o mesmo na mesma situação. Parece que a sombra da realidade muda de acordo com o indivíduo que a olha. É aqui que o construtivismo nos diz que nossa percepção não é apenas uma reflexão, é algo mais complexo.

Pessoas discutindo por percepções diferentes

A teoria construtivista nos diz que os sentidos nos dão informações sobre a realidade, mas esta é muito caótica para o nosso cérebro. Portanto, para poder processar essa informação, o cérebro tem que estruturá-la e, para isso, categoriza toda essa informação desestruturada em conceitos e interpretações. Com essa afirmação, a realidade se torna algo inacessível para nós.

Construtivismo e ocioconstrutivismo

Em resumo, podemos entender o construtivismo como um postulado epistemológico no qual nós somos agentes ativos da nossa própria percepção, não recebemos uma cópia literal do mundo.

Somos nós, através de nossas percepções, que damos forma ao mundo que há dentro de nós, mas também fora. Agora, se cada um de nós é uma pessoa ativa que constrói sua realidade, como é possível que todas as pessoas tenham uma visão da realidade muito parecida?

Para encontrar uma resposta para isso, podemos recorrer ao psicólogo Vygotsky e sua teoria socioconstrutivista baseada na cultura. Apesar de cada um construir seu mundo, todos nós nascemos em uma sociedade e uma cultura que nos guia. Ao nascermos imersos em uma cultura, esta não apenas orienta nossas interpretações, mas também tomamos emprestado dela uma multiplicidade de construções. Uma evidência a favor disso é que nossas construções da realidade se assemelham mais com pessoas da nossa cultura do que com pessoas de países distantes.

Homem se olhando em espelho quebrado

A conclusão subjacente a isso é que todas as ideias, conhecimentos e teorias são construções sociais. A realidade é estranha para nós, até mesmo as leis físicas teriam uma parte da construção social em um marco conceitual compartilhado. Neste aspecto, a ciência já não explicaria mais os acontecimentos da realidade, mas os eventos de nossa construção conjunta da realidade.

Esses postulados supõem, até certo ponto, uma revolução na história da psicologia e de outras ciências. Graças ao socioconstrutivismo, muitas áreas da psicologia têm mudado totalmente de paradigmas e ampliado seu espectros. A questão que pode surgir agora é: o construtivismo é a resposta correta ou ainda temos muito a descobrir?