A criança abandonada: o transtorno de apego reativo

dezembro 12, 2018

Quando uma criança cresce em um contexto de cuidados insuficientes, ou de negligência, o mais comum é que ela responda com comportamentos sociais pouco adaptados quando comparados aos da sociedade em geral. O apego desorganizado reativo ou transtorno de apego reativo (TAR) se desenvolve devido a um histórico de condições de desenvolvimento desse tipo.

O apego é o principal componente do desenvolvimento social e emocional na primeira infância. Refere-se ao vínculo que o bebê estabelece com seus progenitores ou cuidadores primários. Esse vínculo será uma referência poderosa para o resto das relações que a criança vai estabelecer na infância e, em muitos casos, será referência também para as relações que serão estabelecidas em qualquer outra etapa até o fim da vida da pessoa.

A Teoria do Apego propõe um novo olhar para o processo de desenvolvimento do ser humano. Dessa forma, formulamos e responderemos algumas perguntas nesse artigo que poderão nos ajudar a responder melhor a essas perguntas principais: O que é o vínculo do apego e para que ele serve no crescimento do ser humano? Quais são os efeitos danosos de um vínculo de apego que não se organiza de forma adequada?

O que é o apego desorganizado reativo ou Transtorno de Apego Reativo (TAR)?

A essência do apego desorganizado reativo, ou Transtorno de Apego Reativo (TAR), nos remete à infância. Quando as crianças pequenas crescem com oportunidades limitadas para se vincular de maneira efetiva, em algum momento vão se mostrar retraídas e inibidas, e não se vincularão a pessoa alguma. O abandono social, mudanças frequentes de cuidadores ou privações – por exemplo em contextos institucionais – são algumas das condições de risco que podem levar ao desenvolvimento de um apego desorganizado reativo ou Transtorno de Apego Reativo (TAR).

Criança pensativa

Essas crianças se mostram frias, e raramente buscam proximidade com adultos específicos, mesmo que tenham necessidades emocionais não supridas. Também podem se mostrar irritados sem nenhuma explicação, ou tristes ou com medo diante do contato ou da proximidade de seus cuidadores e familiares.

“Considera-se essencial para a saúde mental que um bebê ou uma criança pequena experimente uma relação íntima, contínua e verdadeira com sua mãe (ou mãe substituta ou uma pessoa que cuide dessa criança de forma estável), relação na qual ambos encontrem satisfação e prazer”.
-John Bowlby-

O apego e seu impacto no desenvolvimento infantil

Dentro do campo de estudo da infância, uma das teorias mais interessantes atualmente é a teoria do apego. Ela nos permite entender melhor a complexidade do processo pelo qual sobrevivemos e nos integramos à sociedade. Desde a etologia e a psicanálise, já sabemos que quando um bebê humano nasce, ele precisa de adultos dispostos a satisfazer suas necessidades vitais como afeto, cuidado, alimento, higiene, movimento, etc.

O que nos diferencia de outras espécies é que aprendemos por imitação de maneira inata. Esse processo, é claro, implica também uma relação de aprendizagem. Ela é chamada nesse contexto de humanização. Em outras palavras, chamamos de vínculo de apego a necessidade que os seres humanos possuem de criar laços de convivência e amor, estabelecendo vínculos seletivos fortes e duradouros com seus cuidadores.

Quais são os efeitos da incompetência parental?

Quando as figuras de apego não se conectam com a criança, falamos de incompetência parental. A presença de incompetências parentais severas em um adulto pode se manifestar em algum ou vários dos seguintes traços na pessoa adulta:

  • Dificuldade para se mostrar disponível, psiquicamente ou fisicamente, para estabelecer relações afetivas, sintonizar ou entender as necessidades de seus filhos.
  • As relações ou cuidados que oferecem são caóticas, instáveis e mudam muito.
  • Não sabem acalmar a criança, nem dar carinho a ela, responder a suas demandas de comunicação…
  • Não conseguem reconhecer, identificar, regular ou favorecer o desenvolvimento da capacidade de simbolização ou de adaptação à realidade social da criança.
  • Costumam oferecer respostas incoerentes e contraditórias. Por exemplo, não havendo concordância entre palavras e gestos, ações, etc.
  • Comportamentos negligentes como ausência de cuidados básicos, maus-tratos psíquicos e físicos, abuso sexual, manipulação psicológica, etc.
  • Costuma ocorrer no contexto de doenças mentais graves como depressão, toxicomanias, dificuldades sociais, acontecimentos de vida graves e incapacitantes, etc.
Ursinho de pelúcia sozinho na floresta

Como consequência de um desenvolvimento que ocorre sob esse contexto de capacidades parentais incompetentes, cria-se um vínculo de apego que não é adequado. Ainda assim, as consequências dependerão de variáveis diversas, entre as quais podemos incluir:

  • A idade de criança no momento em que houve a desorganização do vínculo
  • A existência de um substituto para o vínculo, já conhecido e estável, se ocorre uma separação ou ruptura. A adaptação ao substituto depende da qualidade das relações dos vínculos anteriores ao episódio de ruptura e de como esse novo vínculo foi criado.
  • O momento psíquico em que isso ocorre, sendo que os momentos críticos são os primeiros anos de vida, entre os 3 e 4 anos e a adolescência.
  • A capacidade de resiliência ou recuperação subjetiva de cada sujeito.
  • O motivo da ruptura do apego – história e acontecimentos mais importantes.
  • A duração da situação de ruptura e desorganização.

É compreensível que as pessoas que crescem nessas condições apresentem comportamentos abruptos, impulsivos ou dificilmente compreendidos, já que sentem as relações com grande insegurança, pouca previsibilidade e confiança, muita ansiedade. Em alguns casos a pessoa padece de alguma patologia, como o mencionado Transtorno de Apego Reativo (TAR), também conhecido como apego desorganizado reativo. Diante da grande incoerência e paradoxo da situação em que “a pessoa da qual dependo destrói meu próprio ser”, não há como sair ileso.

Referências bibliográficas

  • Zeanah, C. H., Chesher, T., & Boris, N. W. (2016). Medidas prácticas para la evaluación y tratamiento de niños y adolescentes con trastorno reactivo de apego (TRA) y trastorno de compromiso social desinhibido (TCSD). J Am Acad Child Adolesc Psychiatry, 55(11), 990-1003.
  • Comín, M. A. (2014). El vínculo de apego y sus consecuencias para el psiquismo humano. Logos, 1-15