Precisamos ter cuidado com as metáforas para explicar a depressão

Precisamos ter cuidado com as metáforas para explicar a depressão

dezembro 30, 2017 em Emoções 179 Compartilhados
Precisamos ter cuidado com as metáforas para explicar a depressão

Muitas pessoas tentam explicar a depressão com as metáforas. Parece que ela inevitavelmente leva à tristeza, e a tristeza a um poço profundo e escuro em que a saída se torna distante ou inexistente. A depressão faz alusão à uma espécie de cadeias invisíveis que são um tanto complicadas.

São assim porque amordaçam com o peso e não com a tensão, porque se engraxam com melancolia e não com óleo. Seu poder é o de fazer com que acreditemos que somos pequenos, desajeitados e não qualificados. Perdedores neste jogo, que alguns por um capricho, chamam de vida.

“Porque só uma coisa trêmula permanece de mim,
Que nunca pode ser algo,
Exceto por um pássaro com asas quebradas
Fugindo em vão de você.

Eu não posso dar-te o amor
Que já não é meu,
O amor que me golpeou e me derrubou
Sobre a neve ofuscadora”.

-Esgotada. Worn Out, Elizabeth Siddal (1829-1862)-

Mulher cobrindo seu rosto com as mãos

Explicar a depressão vista de fora

Aqueles que veem de fora a pessoa com depressão chegam a pensar que a compreendem. Sim, eles pensam que fazem isso. Afirmam que também já se sentiram tristes e passaram por ocasiões em que não viram uma saída. A partir dessa lembrança, deixaram a sensação de que a paciência é uma arma que sempre subestimamos, que o tempo com tristeza continua correndo, embora ao redor tudo pareça imóvel e sem importância, de modo que, quando abrirmos os olhos, entenderemos junto.

É por isso que aqueles que pensam que a entendem não hesitam em encorajar a pessoa deprimida, porque em seu rosto eles veem desenhado um esquema semelhante ao que eles passaram. No entanto, a depressão é mais do que uma semana de tristeza ou um luto que fica bem dentro de nós. Explicar a depressão é complicado porque trata-se de transtorno que, na realidade, não pode ser exemplificado por metáforas e precisa da intervenção de um profissional.

Não é apenas um túnel escuro e sem saída. É também um túnel em que falta o ar e não se pode respirar. Um espaço em que a pessoa não pode se mover e se sente culpada por isso. É uma situação em que reina a impotência de querer e não poder. Um lugar onde as perguntas mordem e tudo o que há fora da questão se constitui como uma ameaça.

Um lugar no qual o valor é manchado e os olhos protegidos por um cristal de lágrimas que nem sempre saem. Um cristal que magnifica o negativo e se torna opaco para as oportunidades. No final, falamos sobre um lugar para o qual os ânimos são necessários, mas as ferramentas e as habilidades emocionais são ainda mais importantes.

Um lugar onde as perguntas mordem e tudo o que há fora da questão se constitui como uma ameaça.
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Desenho de olhos chorando

A depressão torna as vítimas culpadas

Uma pessoa com depressão não é apenas uma pessoa triste. Melhor dizendo, nem sempre parece triste, e embora seja essa a emoção mais destacada no estereótipo, nem sempre é a que predomina. Na verdade, muitas vezes e especialmente em crianças, acontece algo que poucos sabem, e é que essa tristeza se transforma em raiva. No adulto também acontece porque, apesar de ter mais ferramentas de regulação emocional, no fundo há uma luta e um sentimento de frustração porque não há resultados.

Sim, raiva. Uma raiva que geralmente é transmitida para as pessoas do ambiente que tentam ajudar, anestesiando a empatia. Essa face da depressão, não tão reconhecível, afasta aqueles que querem ajudar, cansados de dar conselhos, soluções fáceis e úteis para eles, mas que o outro não segue.

É então quando a pessoa com depressão pode deixar de ser uma vítima e passar a ser culpada. Assim, embora ela continue sofrendo, os outros podem entender que a posição em que ela se encontra é muito confortável: não trabalha, não ajuda em casa e passa o dia descansando. Descansando, de que? Se não faz nada…

Como vimos, a depressão é um transtorno muito mais complexo do que uma emoção. Trata-se de um dano profundo para o qual é necessário todo o apoio do mundo, mas um apoio bem dirigido, com inteligência. Caso contrário, a força deste apoio pode acabar afundando a pessoa ainda mais.

Daí a necessidade de que existam bons profissionais, de que os amigos são necessários, mas não o suficiente, que podem dar a sensação de que a pessoa com depressão é um saco vazio para os conselhos. Se queremos ajudar, não subestimemos esse transtorno, não façamos metáforas para explicar a depressão porque corremos grande perigo de estarem incompletas e isso será transferido para nossa maneira de ajudar, independentemente de termos a melhor intenção do mundo.

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