Dar à luz: o maior gesto de amor da mulher

· setembro 26, 2016

Costuma-se dizer que dar à luz é como ter um encontro às cegas onde finalmente a mãe conhece aquele que será o amor da sua vida. Poucos gestos são ao mesmo tempo tão doloridos, sagrados e cheios de incríveis emoções como o parto, um momento vital que requer também um tratamento especial. Se a concepção foi um ato de amor, dar à luz deveria ser também igualmente cálido e amoroso.

Entre 16 e 22 de maio celebra-se a semana mundial do parto respeitado. Um dado a considerar e que a própria OMS (Organização Mundial da Saúde) adverte é que nas últimas décadas muitas mulheres se queixam de que o parto às vezes é demasiadamente frio, pouco humanizado e às vezes até traumático.

Não existe dor mais intensa que a de um parto, nem um amor tão profundo e puro como o de uma mãe para com esse recém-nascido que acaba de trazer ao mundo.

Nils Bergman é um pediatra e neonatologista conhecido principalmente por suas pesquisas em neurociência perinatal. Segundo ele, um dos momentos mais importantes para construir um vínculo adequado de apego entre a mãe e o filho serão sem dúvida os “mil primeiros minutos de vida”. Se a mãe e o filho sentirem um estresse excessivo, tudo isso poderia afetar a qualidade desse primeiro marco emocional no recém-nascido.

Vir ao mundo precisa ser, portanto, um gesto de amor. Convidamos você a refletir sobre isso.

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Dar à luz, entre a dor, as emoções e os protocolos médicos

Dar à luz é um momento delicado tanto para a mãe, quanto para o filho. Se além disso considerarmos que nos últimos anos as gestações acontecem em idades um pouco mais adiantadas, tudo isso faz com que a atenção médica e as medidas de precaução sejam poucas para garantir um parto sem complicações.

Agora, deixando de lado que desde o inicio a atenção dos profissionais em um centro médico é essencial, uma coisa da qual muitas mulheres se queixam e que a própria OMS vem alertando faz já alguns anos são os aspectos que veremos a seguir e que deveríamos considerar.

Os partos são cada vez menos respeitosos

Michel Odent, um renomado obstetra defensor do parto humanizado, lembra que “o parto é amor e o ideal é propiciar que mãe e filho desfrutem desse sentimento desde o primeiro instante”. Agora, o que assistimos nos últimos anos é o seguinte:

  • O número de cesáreas vem aumentando de forma alarmante. Segundo dados oficiais, o Brasil é o campeão mundial em cesáreas (lembrando que as cesáreas substituem o parto vaginal sempre e quando exista risco de mortalidade materna ou perinatal).
  • Muitas mulheres declaram ter se sentido muito desconfortáveis durante o parto: estando expostas a muitos profissionais por meio do toque, o monitoramento, a depilação, os edemas, a indução ao parto através da ocitocina sintética ou sendo tocadas obrigatoriamente em posição de litotomia (de quatro) para dar à luz. Tudo isso faz com que sintam um elevado estresse diante desses protocolos pouco amorosos.

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Também fica claro que cada mãe terá a sua própria experiência peculiar. Muitas terão aproveitado, mas outras guardarão uma lembrança um tanto apagada ou decepcionante onde não se propiciou, por exemplo, uma coisa tão essencial quanto o contato pele com pele do recém-nascido com a mãe.

Os partos humanizados ou como favorecer o vínculo emocional entre a mãe e o filho

Dar à luz é um momento doloroso e mágico que, por sua vez, está orquestrado por hormônios precisos e neurotransmissores que têm um fim muito específico. É preciso considerar que a nível cerebral acontece um cenário neurobiológico que ajudará a mãe a criar esse primeiro contato com o bebê para construir o vínculo.

Dar à luz não significa apenas trazer um filho ao mundo, também implica o nascimento de uma mãe.

Se a mulher se sente estressada ou assustada, tudo isso pode afetar, por exemplo, a qualidade do seu leite. Se o bebê, por sua vez, também sofre esse estresse, e se é separado prematuramente de sua mãe para ser levado ao “berçário”, também podem ocorrer pequenas mudanças metabólicas e cognitivas.

Nosso DNA espera essa união imediata entre a mãe e o filho, e se isto não acontece, o bebê pode interpretar o mundo “em que veio parar” como sendo um tanto hostil e frio. Por isso, vale a pena considerar uma série de orientações com as quais propiciar um parto humanizado onde possa se construir esse vínculo baseado no amor e em uma recepção calorosa.

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Dicas do parto baseado no amor

Existem muitos tipos de parto, e não vamos entrar aqui se é melhor um parto sem medicação, com doulas ou em um hospital onde inclusive se facilita “programar” o nascimento da criança. O importante é, acima de tudo, não colocar em risco em nenhum momento os dois protagonistas desse acontecimento maravilhoso: a mãe e o filho.

Cada família é livre para escolher de que forma deseja trazer a sua criança ao mundo, mas vale a pena considerar estes simples aspectos:

  • A OMS defende o que se conhece como o “parto humanizado”, no qual a mulher tem o direito de escolher – sempre que não exista risco – a posição em que deseja dar à luz.
  • Deve-se propiciar um tratamento próximo, amoroso e íntimo para que a mãe se sinta confortável a todo momento.
  • Não se deve cortar o cordão umbilical imediatamente. Sabe-se que nele há centenas de células-mãe, nutrientes e diversas substâncias benéficas para o futuro desenvolvimento da criança que lhe servem de “vacina”.
  • Também não se deve romper a placenta que acolhe o bebê, já que este tecido continua enviando sangue rico em oxigênio. Se existe a oportunidade, sempre é melhor permitir a ruptura natural, já que desta forma se facilita, de forma tranqüila, o inicio da respiração pulmonar.
  • O recém-nascido deve ser colocado imediatamente em contato com sua mãe, pele com pele. Devem estar assim durante horas, já que dessa forma se combate o estresse, facilita-se o inicio da lactância, regula-se o ritmo cardíaco, a temperatura, a glicose no sangue, fortalece-se o sistema imunológico do bebê…

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Para concluir, dar à luz não é somente um “ato médico” marcado por um protocolo adequado que evite qualquer risco, qualquer perigo. É preciso propiciar partos respeitosos e amorosos nos quais se favoreça o vínculo entre a mãe e o recém-nascido desde o primeiro momento.