A demência tem muitas faces

· novembro 25, 2016

A demência tem muitas faces, muitas maneiras de nos mostrar o quanto é horrível o esquecimento. Embora tradicionalmente a demência mais conhecida seja a do tipo Alzheimer, ela não é a única que existe, embora seja a mais comum.

Ao contrário do que se acredita popularmente, nem todas as formas de demência são irreversíveis. Em alguns casos, quando é identificada a causa, podem ser tratadas e até mesmo corrigidas, tais como:  a demência por deficiência de vitamina B12, a demência causada por vasculite, hipotireoidismo ou hidrocefalia, entre outras.

Atualmente as demências estão incluídas no DSM-5 dentro dos Transtornos Neurocognitivos, juntamente com o Delirium, transtornos amnésicos e outros distúrbios neurocognitivos. Estes distúrbios são aqueles em que a perda ou comprometimento cognitivo não esteve presente desde o nascimento ou na primeira infância e, portanto, acontecem ao longo da vida e se tornam visíveis se compararmos o atual nível de desempenho da pessoa com o nível anterior.

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A demência de Alzheimer

É uma doença degenerativa do cérebro com causas desconhecidas. Geralmente tem um início gradual e envolve uma deterioração contínua, lenta e progressiva, com uma duração média de 8-10 anos. Atualmente esta doença ainda não tem cura. Podemos perceber três fases distintas:

Fase inicial (2-4 anos ou mais)

Geralmente tem um início repentino, e a principal característica é uma deterioração da memória recente (que é a parte da memória que se relaciona com o que acontece no momento presente, isto é, você terá dificuldade em lembrar as tarefas diárias e a aprendizagem).

Na linguagem, é muito comum a perda da riqueza do vocabulário porque a pessoa tem dificuldade em encontrar as palavras (anomia) tentando resolver usando circunlóquios (rodeios sobre o mesmo tema) e parafasias (que consiste em substituir uma palavra por outra em um contexto semelhante).

Podem ocorrer mudanças na personalidade, como a apatia (que é a preguiça ou a falta de interesse pelas coisas), irritação, agressividade, rigidez mental (incapacidade de mudar o pensamento, ou seja, a pessoa torna-se obcecada com um pensamento e nada a fará mudar de ideia).

Também podem ocorrer alterações afetivas como a ansiedade ou depressão, porque muitas vezes elas estão conscientes do início da doença, especialmente porque notam os problemas de memória. Nestes momentos, as pessoas com demência e suas famílias precisam buscar uma adaptação à nova vida que os aguarda: um desafio estressante e sofrido.

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Segunda fase (aproximadamente 3-5 anos)

A deterioração intelectual continua, aparecendo a síndrome afaso-apraxo agnóstica (que envolve problemas de memória, dificuldade em realizar tarefas simples, como se vestir ou tomar banho, sendo necessária a supervisão, e a dificuldade de reconhecer os familiares e objetos).

Ocorre a amnésia retrógrada, ou seja, incapacidade de recordar eventos passados que geralmente tentam dissimular usando a imaginação (inventam eventos que não ocorreram para preencher esses espaços em branco de sua memória, mas eles não têm a intenção de mentir).

A capacidade de julgamento se deteriora, ou seja, eles se tornam mais impulsivos e não conseguem distinguir o certo do errado ou o que deve ser um comportamento privado e não público, etc. O raciocínio abstrato também fica comprometido, resultando em uma incapacidade de resolução de problemas e planejamento de tarefas.

Todos os sintomas se agravam e podem surgir sintomas psicóticos (alucinações, como dizer por exemplo que foi se encontrar com a sua mãe que já morreu há muitos anos, ou delírios, dizer que roubaram as suas coisas quando ele próprio as perdeu).

Nesta fase, já não consegue se orientar no tempo (hora, dia, mês ou ano) e no espaço (lugar onde mora, diferentes divisões da casa, etc). O paciente de demência de Alzheimer, nesta fase, é incapaz de sobreviver sem a supervisão de um adulto, mesmo que consiga fazer as suas atividades diárias.

Terceira fase (duração variável)

Nesta fase a pessoa já não se reconhece no espelho, porque ela acredita que é mais jovem do que a imagem que vê refletida e não reconhece as pessoas mais próximas. Começa a falar cada vez menos, chegando lentamente ao mutismo.

Ocorrem graves alterações da marcha (movimentação característica em pequenos passos e arrastando os pés), podem cair e até perder a capacidade de andar. Nesta fase, o paciente vai precisar de ajuda para realizar praticamente todas as atividades e geralmente terminam acamados.

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Demência com corpos de Lewy

A demência com corpos de Lewy é uma das mais difíceis de diagnosticar, além de ser uma descoberta recente. Os seus sintomas são parecidos com a demência tipo Alzheimer e demência de Parkinson e, portanto, o seu diagnóstico é muitas vezes confundido com ambos, embora atualmente seja considerada o segundo tipo mais comum.

Os seus principais sintomas são:

  • Síndrome afaso-apraxo agnóstica: característica na doença de Alzheimer, que são os esquecimentos frequentes, dificuldade em realizar tarefas simples e reconhecer membros da família ou objetos. Neste caso, é caracterizada por variações pronunciadas de atenção e estado de alerta.
  • Alucinações visuais complexas recorrentes, alucinações auditivas e delírios. São comuns os sintomas de transtornos do sono REM (o que pode ser considerada uma manifestação precoce), alucinações em outras modalidades sensoriais, delírios e depressão.
  • Sintomas parkinsonianos: como na doença de Parkinson, incluindo tremores e rigidez dos membros. Os tremores espontâneos começam após o início do declínio cognitivo e dos grandes déficits neurocognitivos que são observados pelo menos 1 ano antes dos sintomas motores. Também deve ser diferenciado dos sintomas extrapiramidais induzidos por neurolépticos (sintomas motores devidos à medicação usada para alucinações e delírios, uma vez que até 50% dos indivíduos com TNC com corpos de Lewy têm uma sensibilidade significativa a estes fármacos). Eles muitas vezes sofrem quedas repetidas e síncopes, que são apagões acompanhados por uma paralisia momentânea dos movimentos do coração e da respiração e que são devidos à falta de irrigação sanguínea no cérebro, assim como episódios transitórios de perda de consciência inexplicáveis.

Demência vascular

A demência vascular é provocada por uma série de pequenos derrames cerebrais (AVC) durante um período de tempo prolongado. Estes acidentes vasculares causam bloqueios ou interrupções do fluxo de sangue para uma parte do cérebro, resultando na morte neuronal da parte afetada.

É caracterizado por uma deterioração sucessiva, cujos sintomas são difíceis de prever porque dependem da área do cérebro afetada. Ainda assim, no início, ela é caracterizada por problemas de memória, problemas de orientação, e pode provocar mudanças na personalidade ou dificuldades de linguagem.

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Demência de Parkinson

A demência de Parkinson deve ser diferenciada da doença de Parkinson. A doença de Parkinson é caracterizada por tremores nas mãos, braços, pernas, mandíbula e da face, rigidez nos braços, pernas e tronco, lentidão de movimentos e problemas de equilíbrio e coordenação.

Este tipo de demência se caracteriza pelos tremores típicos da doença de Parkinson juntamente com lentidão cognitiva das funções superiores e distúrbios emocionais importantes, sendo comum encontrar um grave quadro depressivo nesses pacientes.

Ela difere das anteriores porque não tem os sintomas da síndrome afaso-apraxo agnóstica como na doença de Alzheimer e as alucinações e delírios não são tão comuns como na demência por Corpos de Lewy. No entanto, observamos a lentidão cognitiva e os tremores corporais.

Neste artigo eu descrevi as demências irreversíveis mais comuns, mas existem outras conhecidas como demências frontotemporais (a mais comum é a demência de Pick), a doença de Huntington, a demência associada ao HIV, a demência causada por príons, entre outras.