Desaprendemos a viver no mundo real

· julho 6, 2017

É como se desconectados ficássemos de castigo trancados num quarto, sem poder falar com ninguém. “Preciso me desvirtualizar”. Li isso ainda há pouco no post de uma amiga que não estava se referindo ao excesso de virtudes, mas ao mundo virtual. E assim como ela, muitos outros se queixavam dessa dependência, curiosamente no mesmo dia em que eu mesma me coloquei a pensar no quão sério ficou meu relacionamento com a conectividade.

Tornamos-nos dependentes do Facebook, do WhatsApp e das demais redes sociais. Eu não vou ficar aqui contando como era boa aquela época de brincar na rua, etc, etc, etc. Não quero falar sobre isso que você já sabe, de um tempo em que socializar não era adicionar um novo contato, mas ir lá com a mão suada e tremendo e dar oi olhando no olho.

Pensando bem, deixa eu falar um pouco sobre isso. Como é que a gente sabia que alguém tinha nascido, morrido, noivado, rompido, ficado doente, etc? A gente se falava, ouvia a voz, o tom, olhava no olho, pegava na mão, abraçava sentindo o calor da pele. Hoje tudo é postado.

Eu tenho uma raiva quando encontro alguém que não vejo há muito tempo e escuto “Seus filhos são lindos, como cresceram”. Eu pergunto: “Você os viu?” e a pessoa responde “Eu vi uma foto no Face, uma graaçaa”. Pior ainda é quando me falam “Tá sumida, não vejo mais nada no Face, não manda mensagem no WhatsApp”.

Não viver mais na realidade

Minha vida real continua, gente! Quer saber de mim? Me liga, me procura, olha nos meus olhos, vem me dar aquele abraço, não fica espionando meus sentimentos baseados em postagens no Facebook, porque eu continuo sendo de carne e osso, não sou uma imagem holográfica, meus filhos não são, minha vida não é!

No entanto, eu também não dou telefonemas, não faço visitas, perco tempo demais vendo fotos de paisagens ao invés de me fotografar entre elas, tempo demais conectada ao mundo virtual e desconectada do mundo real. Estreitando mais laços com quem está do outro lado da tela do que com quem senta na minha frente todos os dias para tomar um café. Eu e o resto do mundo (ou pelo menos uma grande maioria).

As redes sociais nos tiraram da solidão. Abriram-nos portas, você pode, sei lá, namorar um cara do Japão como se ele estivesse ali do seu lado. Outro dia estava assistindo um filme e a garota estava indo ao cinema. O pai perguntou:

– Com quem você vai?
– Com o Fulano. (Fulano é o namorado, esqueci o nome agora)
– Mas o Fulano não mora no Japão? (o país também era outro, mas acompanha o raciocínio)
Aí ela simplesmente mostrou o celular onde estava em uma chamada de vídeo com o namorado e fez uma cara de quem diz “pelo amor de Deus, pai, em que mundo você vive?”

E é assim que vivemos nos tempos atuais, muitas vezes nos relacionando da maneira que dá com quem está distante, e quantas vezes com quem nunca vimos fisicamente, dividindo nossa vida, nossa rotina, nos apegando à fibra ótica que nos conecta, ao satélite que mantém tudo funcionando. Até chover ou ventar demais, até os créditos ou a bateria acabarem e esse laço frágil se romper demonstrando claramente como estamos dependentes.

Ontem mesmo o WhatsApp ficou instável. Eu fui uma dos que ficaram meio desnorteados. Rapidamente as pessoas (e eu) postaram no Facebook reclamações da desconexão porque é como se desconectados ficássemos trancados num quarto, de castigo, sem poder falar com ninguém.

Não viver só para redes sociais

Estamos desaprendendo a viver no mundo real. E as coisas não vão mudar

Na verdade a tecnologia só faz evoluir a cada minuto, e que bom! Que bom poder colocar o namorado do Japão na rotina, que bom ter milhares de amigos compartilhando seus momentos ainda que virtualmente, que bom não nos sentirmos sozinhos. A gente pensa que globalização é tirar as fronteiras entre os países e nos unirmos em uma só língua, fisicamente falando. Não!

Globalização é isso, é eu receber uma mensagem de alguém da Grécia que leu um texto meu e entender tudo o que ela disse, porque existe uma coisa chamada Google Tradutor que nos faz falar em uma só língua. As fronteiras entre os países foram derrubadas pela internet, estamos em todos os lugares, com todas as pessoas, todo o tempo. Que bom! Graças à tecnologia por isso!

Não é para maldizer a tecnologia que escrevo isso. Muito pelo contrário, na verdade eu tenho que agradecer todos os dias. Você está aqui lendo meus devaneios graças a essa conectividade. Quanta gente conheci virtualmente por quem tenho carinho como se fosse aquele amigo da infância! Quanta coisa boa a realidade virtual me trouxe. Só não quero deixar de perceber que esse mundo tão vasto e tão amplo pode se tornar uma prisão com com 3G, 4G e WiFi, sem grades, portas ou janelas, mas da qual simplesmente não conseguimos sair.

Quando eu li o post  “preciso me desvirtualizar” respondi em pensamento “eu também”. Quero gargalhar de verdade, não ficar com uma cara de paisagem enquanto digito “kkkkkk”. Quero sentir de verdade, abraçar de verdade, beijar de verdade, demonstrar orgulho, admiração, raiva, saudade, medo, alegria, ser uma pessoa de verdade sem emotions ou caracteres que traduzam o que estou sentindo. Quero transformar determinadas realidades!

Acho que desaprendemos a viver no mundo real. Nem temos mais tempo para isso. Para onde está indo nosso tempo?

Eu tenho absoluta certeza de que quero trocar o mundo virtual pelo real, para ontem. Quero ficar desencorajada de ler todas as notificações que vão se acumular pelo tempo em que ficarei desconectada. Quero perder o celular em algum canto da casa porque ele será totalmente dispensável, uma vez que tudo o que preciso está no mundo real, na mesa do happy hour, no chão da sala, na preparação do jantar na cozinha, no gramado do parque. O celular não vai para a cabeceira da cama porque não será mais ele quem preencherá o vazio e o silêncio das horas de insônia ou solidão.

Talvez a gente crie um dia de paralisação dos aparelhos eletrônicos, quem sabe? Talvez eu até abra um centro de recuperação para dependentes virtuais! Assim que eu me desvirtualizar também!