Desinfetar a tristeza

· fevereiro 7, 2015

“Dois monges iam em direção ao templo quando encontraram uma mulher à margem do rio. Ela tentava atravessá-lo, mas a correnteza estava forte e o nível da água havia subido. O monge mais velho a pegou pelos braços e a carregou até a outra margem.

Três dias após o acontecido, ainda a caminho do tempo, o monge mais jovem já não conseguia conter a raiva e disse “Como você pôde fazer isso?! Segurar uma mulher em seus braços! É uma falta às regras a que seguimos!”, e o monge mais velho respondeu “O que há com você? Já se passaram três dias que eu a deixei na margem e você ainda a está carregando?”.

Quando um acontecimento importante afeta nossos valores mais íntimos, costumamos reagir com estupor.

Ocasionalmente, muitas ações cotidianas (em casa, no trabalho, com amigos ou família) atingem nossos sentimentos, nossas emoções e até nossa dignidade da maneira mais profunda. Ficamos paralisados, aquilo nos causa letargia, insensibilidade. Encapsulamos nosso coração porque já não suportamos nenhuma dor. Quando percebemos que somos atingidos por um desastre, tudo desmorona, nossos medos aumentam, as dúvidas se amontoam e a esperança vai embora.

Esquecemos as crenças e assumimos em nosso interior um caos que nos convida a perder a confiança, e sem confiança não sobra nada. O sofrimento é enorme e afastamos as pessoas que antes eram de confiança. Num primeiro momento, deixamos que o tempo organize nossa confusão mental adequadamente, mas isso é um erro. Não há remédio melhor do que limpar, reorganizar, varrer a sujeira e tirar o pó que nos cobre. Dessa maneira, nos desfazemos de tudo que nos causa dor, escapamos e deixamos de armazenar o que já não serve mais. Devemos procurar novos caminhos, limpos e iluminados, que nos afastem do caos.

Resumindo: acabar com a tristeza e desinfetá-la. Outra alternativa é continuar com a nossa vidinha, como se nada tivesse acontecido, sem dialogar nem refletir. Mas dessa forma, nossos pensamentos e emoções reprimidas vão acumular raiva e ressentimento, até que isso nos provoque um novo desastre.

É extremamente necessário salvar os móveis, recolher os escombros, fazer uma bela limpeza geral e esterilizar nosso interior. Adquirir uma dimensão consciente do nosso sofrimento e voltar a decorar com compromisso e respeito nossa consciência e a de quem nos causou os desastres. Somente esqueceremos o medo, a incerteza e a desconfiança organizando o caos, assim tudo desaparecerá. As lembranças não serão apagadas, mas pelo menos deixarão de causar dor.

 Créditos da imagem: Eddy Van