A dor que sentem os "sem nome" - A Mente é Maravilhosa

A dor dos “sem nome”

março 18, 2017 em Psicologia 325 Compartilhados
A dor dos 'sem nome'

A dor dos “sem nome” é a dor daquelas pessoas que foram rotuladas e marcadas como perigosas, estranhas, excêntricas, prejudiciais e incompreendidas por pessoas que não se preocupam sequer em conhecê-las. É a dor de quem tem a letra escarlate de um diagnóstico na saúde mental que as condena a uma vida cheia de incompreensão.

Eles são os indivíduos que apontamos na rua: é o louco da cidade, a sua vizinha excêntrica, o senhor esquisito da sua rua. Eles não são considerados pessoas, são um conjunto de desqualificações perpetuadas ao longo dos anos, que roubaram a sua humanidade aos olhos dos outros. Eles não têm um diagnóstico preciso, são pessoas sem identidade.

Talvez você esteja tão acostumado a ouvir estas qualificações que não tenha parado para pensar sobre como se sente a pessoa que as ouve. Você pode até acreditar que ela ri porque acha tudo tão engraçado quanto você. Mas talvez ela ria porque já não tem forças para se mostrar para aquele que a julgou através de um simples olhar e a desqualificou por ser diferente. Como você se sentiria se recebesse esses insultos ou desqualificações com tão pouca empatia?

“Não devemos rotular as coisas como pretas ou brancas, mas fazer um esforço para percebê-los como branco e preto dependendo da situação. Ou, como cinza, vermelho, azul, amarelo … Ter boas ou más características não significa ser uma pessoa boa ou má. Quem tem uma tendência a rotular as pessoas que conhece provavelmente desenvolverá a mania de se avaliar em termos absolutistas”.
– Albert Ellis –

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Esperanças perdidas

No início, elas acreditam que se tivessem um diagnóstico preciso, poderiam receber um tratamento adequado e solucionar os seus problemas. Mas, na maioria dos casos, esse maldito rótulo que as vincula a uma doença mental é mais um peso do que uma solução.

É um fardo, porque aos olhos da sociedade se transformam em pessoas perigosas, agressivas, incontroláveis e pouco confiáveis. Já não há trabalho para elas, não há nenhuma esperança de uma vida melhor, porque esse rótulo as condenou ao exílio dos diferentes, dos esquecidos.

Não há mais nada, só a dor dos sem nome, daqueles que perderam os seus sonhos e a esperança. A sociedade exige a sua reintegração. Mas como? Se essa mesma sociedade os julga e não lhes dá a oportunidade de mostrarem o seu valor e tudo o que podem fazer.

“É patético que não possamos conviver com as coisas que não entendemos. Precisamos que tudo seja rotulado, explicado e desconstruído. Mesmo que seja completamente inexplicável.”
 – Chuck Palahniuk –

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Tratamentos inadequados

Mas, não termina aí o inferno dos esquecidos. Eles também se sentem marginalizados pelo próprio sistema de saúde. Isso porque embora existam tratamentos para diferentes tipos de patologia, eles não têm acesso a esses tratamentos e perdem a esperança de uma vida melhor.

De acordo com alguns estudos, para um transtorno tão conhecido como a depressão, apenas 62% das pessoas tiveram acesso a um tratamento psicológico adequado. A depressão é tratada apenas através de medicação tanto pelos serviços psiquiátricos ou pelos médicos de cuidados primários. O tratamento de escolha para a depressão, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, envolve tanto o tratamento farmacológico como a terapia psicológica.

Além disso, quando reclamamos sobre os cortes na saúde sempre esquecemos da saúde mental. Porque acreditamos que é algo que está longe de nós, que é uma coisa rara ou, coisas que acontecem com essas “outras” pessoas tão raras e diferentes. Mas o fato é que não é bem assim: uma em cada cinco pessoas irá desenvolver um transtorno mental ao longo da sua vida.

Além disso, o número de suicídios é o dobro das pessoas mortas em acidentes de trânsito; por outro lado, a quantidade de antidepressivos consumidos quadruplicou. Mas isso não diminuiu o número de suicídios ao longo dos anos, pelo contrário, está aumentando.

Isto quer dizer que as drogas psicotrópicas são inúteis? Pelo contrário, os medicamentos podem ser úteis, mas são mais um apoio do que uma solução. Mesmo na depressão leve e moderada, o tratamento psicológico traz bons resultados e diminui o tempo de utilização da medicação. É na depressão mais grave que os pacientes se beneficiam mais da combinação de tratamentos psicológicos e farmacológicos.

De acordo com a revisão de alguns artigos científicos já publicados anteriormente, o tratamento psicológico deveria ser o tratamento de primeira linha para o tratamento da ansiedade, antes da utilização de medicamentos. Mas, devido à escassez de psicólogos clínicos em hospitais públicos, raramente você tem acesso a este tratamento.

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A dor da família que se sente julgada e incompreendida

Falando dos sem nome, dos esquecidos, não podemos nos esquecer das pessoas que são as únicas que não as julgam e permanecem ao seu lado. Essas pessoas que lutam todos os dias para que o mundo deixe de ser um lugar hostil para eles. Não podemos esquecer que por trás de cada doente se esconde a dor de uma família que muitas vezes se sente julgada e incompreendida.

Porque muitos daqueles que costumam rotular as pessoas como se fossem classificadores inofensivos, quando se referem aos doentes mentais, culpam as famílias pela sua doença. Não lhes oferecemos apoio e tratamento adequado e, além disso, também são julgados.

Não podemos mais rotular os esquecidos e lhes causar tanto sofrimento. Precisamos nos informar sobre os diferentes transtornos mentais antes de termos ideias pré-concebidas, e na maioria das vezes incorretas, sobre eles. Aprenda antes de julgar e, sobretudo, coloque-se no lugar dele: não existe outro caminho se você realmente deseja ajudar.

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