Efeito Lúcifer: por que podemos cometer atos malvados?

· julho 6, 2018

O efeito Lúcifer pode surgir em qualquer um dos nossos contextos mais cotidianos. Faz referência a um processo de transformação. Graças a ele, uma pessoa aparentemente normal, boa e íntegra é capaz de cometer atos atrozes. São casos em que, longe de existir um transtorno ou um passado traumático, o que há na realidade é a influência poderosa de um fator situacional capaz de nos desumanizar.

Todo bom criminologista com conhecimentos de sociologia nos dirá que a maldade não é uma espécie de verdade universal que existe como mero antagonismo à “bondade”. O mal parte de um contexto, de uma situação social e de uma série de mecanismos psicológicos relacionados com o momento pontual que estamos vivendo. Assim, um exemplo que costumam dar em muitas bibliografias sobre o tema é o relativo aos julgamentos de Salem, com a famosa caça às bruxas.

“A mente humana tem uma capacidade infinita para transformar qualquer um de nós em amáveis ou cruéis, compassivos ou egoístas, criativos ou destrutivos, e fazer com que alguns cheguem a ser vilões e outros heróis.”
– Phillip Zimbardo –

Foi um momento histórico delimitado no tempo e reduzido a uma comunidade que vivia arraigada pelo fanatismo religioso, o puritanismo, a histeria coletiva, etc. Outro bom exemplo sobre o efeito Lúcifer está no já clássico personagem de televisão Walter White, da série “Breaking Bad”.

Neste caso, os antropólogos Alan Page Fiske e Tage Shakti ressaltam que temos alguém que inicia uma série de atos violentos partindo de uma percepção do correto, ou seja, que aquele que está realizando a ação, por mais atroz que seja, está mais do que justificado por sua complexa situação pessoal e o contexto social. Porém, devemos ter muito em conta que nenhuma violência é “virtuosa”.

Pode ser que em um dado momento, e devido a certas circunstâncias sociais e estruturais, alguém sinta a necessidade ou obrigação de cruzar a linha em direção à crueldade, que é o que explica o Efeito Lúcifer. Porém, acima de tudo isso deve estar a moral. Essa dimensão incorruptível que age como uma atração para a lembrança: muito além da pressão do entorno ou do desespero, está a lógica e a integridade.

O efeito lúcifer

O efeito Lúcifer e o estudo de Philip Zimbardo

Estamos na noite de 28 de abril de 2004. A população norte-americana termina de jantar e se senta diante da televisão para ver o programa “60 minutos”. Algo mudou naquele dia. A cadeia de televisão os convidou a descobrir algo que muitos não estavam preparados para ver. Começaram a emitir imagens da prisão de Abu Ghraib no Iraque, onde um grupo de soldados americanos (homens e mulheres) torturam e violentam os presos iraquianos das formas mais execráveis e humilhantes.

Uma das pessoas que viu aquelas cenas, com imenso pavor, foi o conhecido psicólogo Philip Zimbardo. Porém, cabe dizer que para ele aqueles atos não eram novos, também não eram inexplicáveis e muito menos estranhos. A sociedade americana, por sua vez, via como vulnerável um esquema clássico em sua mentalidade. De repente, quem consideravam “os bons e os salvadores” se transformavam, quase sem saber como, nos maus e torturadores.

O experimento de Zimbardo em 1971

Depois da publicação das fotografias, aqueles 7 guardas norte-americanos foram acusados e levados posteriormente a julgamento. Porém, o doutor Philip Zimbardo considerou que era necessário participar do processo como testemunha especialista para dar uma explicação para tudo aquilo.

Ele deixou um aspecto muito claro: a maldade que havia germinado naquela prisão era efeito da administração Bush e de uma política que facilitava claramente o efeito Lúcifer.

Uma das razões pelas quais se sentiu na obrigação de colaborar no julgamento era porque o mesmo já havia vivido uma situação muito similar à do cárcere de Abu Ghraib. Em 1971, ele conduziu um experimento na Universidade de Stanford na Califórnia, onde dividiu dois grupos de estudantes norte-americanos em “policiais” e “prisioneiros”.

  • Passadas algumas semanas, Zimbardo foi testemunha de níveis de crueldade não previstos e ainda menos imaginados.
  • Estudantes universitários liberais, conhecidos por seu altruísmo, bondade e sociabilidade, se transformaram em sádicos ao assumir seu papel de “policiais”. Chegou-se a tal ponto em que Zimbardo foi obrigado a parar o experimento.
Experimento da Prisão de Stanford

O efeito Lúcifer e seus processos psicológicos

O ocorrido na Universidade de Stanford com aquele experimento parecia sem dúvidas uma premonição do que ia acontecer anos depois na prisão de Abu Ghraib. O doutor Zimbardo não buscava desculpar e nem justificar os atos dos soldados acusados, também não queria transformá-los em vítimas, mas sim oferecer uma explicação científica sobre como circunstâncias específicas podem transformar nosso atos inteiramente.

Estes seriam os processos psicológicos associados ao que Zimbardo batizou de Efeito Lúcifer:

  • A conformidade ao grupo. Essa teoria enunciada por Solomon Asch demonstra que a pressão de um entorno determinado com os membros que fazem parte dele nos impulsiona a manter condutas que podem ir contra os nossos valores com a finalidade de conseguirmos apenas uma coisa: ser aceitos.
  • O obediência à autoridade, de Stanley Milgram. Este fenômeno é comum, por exemplo, nos coletivos de hierarquia militar ou policial, onde uma boa parte de seus integrantes é capaz de cometer atos violentos quando se sentem justificados ou ordenados por pessoas de cargo maior.
  • A desconexão moral de Albert Bandura. As pessoas dispõem de seus próprios códigos morais e sistemas de valores. Porém, às vezes fazem uma série de “piruetas” mentais para integrar comportamentos totalmente opostos aos seus princípios, até chegarem ao ponto de ver como “correto” o moralmente “inaceitável”.
  • Fatores ambientais. O doutor Zimbardo soube que estes soldados trabalhavam em turnos de 12 horas, 7 dias por semana, e ao longo de 40 dias sem descanso. Na hora de dormir, faziam isso nas próprias celas. Ainda, as instalações estavam em mau estado, com mofo, manchas de sangue e restos humanos nas paredes.
Rosto de homem desenhado

Porém, esse lado perverso pode ser balanceado pela força de determinação e a integridade capaz de pôr limites e de nos animar a sair de certos contextos opressivos para não esquecermos quem somos, e passarmos cada um de nossos atos pela peneira de nossos valores.

Zimbardo explicou em seu livro “O Efeito Lúcifer” que o processo de desumanização era inevitável. Os fatores situacionais, as dinâmicas sociais de um contexto específico e a pressão psicológica podem fazer a maldade nascer e crescer em nós.