Encoprese: sintomas, causas e tratamentos

outubro 4, 2019
A encoprese é um transtorno que, junto com a enurese, compõe os transtornos de eliminação. Atinge crianças que têm entre quatro e nove anos, e é uma causa de mal-estar para quem apresenta esse transtorno. Neste artigo, vamos explicar o que é, os tipos de encoprese que existem, assim como sua etiologia e os tratamentos mais eficazes.

A encoprese é uma doença englobada nos transtornos de eliminação, junto com a enurese. Essas alterações se caracterizam pela incapacidade de controlar a emissão de fezes ou urina em idades nas quais a criança já deveria ser capaz de fazer isso.

A encoprese, especificamente, se refere à imperícia da criança de controlar a emissão fecal. Essa falta de controle é problemática quando ocorre em locais inadequados, independentemente de ser uma incapacidade voluntária ou intencional.

O momento da vida em que as crianças já devem ter aprendido a controlar sua emissão fecal costuma ser por volta dos 4 anos de idade. A partir de então, a criança não deveria continuar evacuando nas calças.

Antes de diagnosticar a encoprese, é importante ter examinado outras causas orgânicas e médicas, ou simplesmente os efeitos de uma substância (por exemplo, laxantes) que está sendo administrada à criança.

Há certas doenças que podem ser relacionadas com a falta de controle na defecação, como a doença de Hirschsprung, ou algo mais simples, como a intolerância à lactose.

Criança sentada no penico

Encoprese com ou sem prisão de ventre

Segundo os critérios de classificação que são utilizados, existem vários tipos de encoprese. Do ponto de vista do extravasamento, pode ocorrer uma encoprese com prisão de ventre ou incontinência por extravasamento, ou uma encoprese sem incontinência.

Neste transtorno de eliminação, são bastante relevantes os exames médicos e o histórico clínico da criança. Esses dois tipos de encoprese têm tratamentos diferentes.

Encoprese retentiva (com prisão de ventre)

No caso da encoprese de tipo retentiva, falamos de deposições pouco usuais, com muitos episódios de evacuações fora do vaso. Em algumas ocasiões, as crianças com encoprese retentiva vão ao banheiro todos os dias, mas não realizam uma evacuação completa.

Os exames médicos são importantes porque permitem ver esse fato por meio das radiografias. Vários estudos afirmam que a encoprese retentiva costuma ser causada, em partes, por alterações fisiológicas. De todos os casos de encoprese, aproximadamente 80% são de tipo retentiva.

Encoprese não retentiva (sem prisão de ventre)

As causas associadas a esse tipo de encoprese sem extravasamento são resultado de um treinamento pouco adequado, estresse ambiental ou familiar, ou condutas de oposição.

De fato, no caso de uma encoprese não retentiva, também teria que ser levada em conta a existência de outro tipo de transtorno na criança, como o antissocial ou um transtorno psicológico maior.

O DSM-5 recomenda elaborar uma avaliação psiquiátrica que explore transtornos como o desafiador de oposição, de conduta, afetivos e, inclusive, psicóticos. Por exemplo, a criança pode estar sofrendo uma depressão infantil e a encoprese pode ser uma consequência disso.

Encoprese primária e secundária

Outra característica a ser levada em consideração no diagnóstico da encoprese é se o descontrole da emissão fecal é contínuo ou descontínuo.

Isso significa que existem certas crianças que nunca conseguem controlar sua evacuação, e outras que conseguem durante um período de tempo maior que um ano, mas depois voltam a apresentar incontinência.

Isso também é muito relevante, visto que as causas que podem favorecer uma encoprese primária e secundária são diferentes. Se a criança nunca aprendeu a controlar, o sintoma pode ser considerado um reflexo de uma fixação evolutiva precoce e acabar se tornando mais fisiológico.

No caso da secundária, ou seja, quando aprende e desaprende, isso pode estar relacionado com fatores ambientais, estressores na escola ou em casa, mal-estar, etc.

Por fim, diferentemente da enurese, a encoprese durante o dia costuma ser mais comum do que aquela que ocorre à noite.

Epidemiologia: quem sofre mais?

A epidemiologia se refere aos grupos que o transtorno em questão costuma afetar mais. A presença dessa condição nas crianças costuma variar.

Depois de ter completado os quatro anos de idade, a encoprese costuma ser mais comum em meninos do que em meninas. Entre os sete e oito anos de idade, a frequência é 1,5% maior em meninos em comparação com as meninas.

Impacto na criança e no adulto

Devido à natureza do transtorno e à censura que sempre rodeou tudo relacionado à evacuação, a encoprese costuma causar um forte impacto na criança. Pode acabar abalando muito a sua autoestima e o seu autoconceito, visto que é algo muito difícil de ocultar no dia a dia.

Em idades nas quais ocorre a encoprese, as crianças já frequentam a escola. Evacuar no meio do recreio ou não conseguir se segurar na sala de aula são situações que podem ser muito estressantes para a criança.

Também se postula como algo dificultoso para os pais, e a tensão familiar costuma ser elevada.

Isso acaba sendo problemático porque, devido ao fato de ser uma condição infantil, o curso do tratamento depende do apoio que a criança vai receber e da disposição da família de agir como agentes de mudança ou coterapeutas em casa.

Etiologia e causas

A encoprese, assim como a maioria dos transtornos, é o resultado da interação de muitos fatores. Esses fatores são tanto fisiológicos quanto psicológicos. Não parecem existir evidências de causas genéticas.

Entre os fatores fisiológicos, podemos encontrar anomalias dietéticas, problemas no desenvolvimento da criança ou um controle intestinal inadequado.

Entre as causas psicológicas, a encoprese pode estar relacionada com a capacidade de distração da criança, a falta de atenção, a hiperatividade, o medo do vaso sanitário ou o medo da evacuação acompanhada de dor.

Existem teorias que falam sobre um déficit na aprendizagem, no qual os sinais que indicam à criança que ela precisa ir ao banheiro não foram condicionados como estímulos significativos. Isso significa que quando a criança sente vontade de ir ao banheiro, ela não percebe e, consequentemente, não vai.

Outras teorias falam de uma aprendizagem por evitação na encoprese retentiva. A criança aprende a reter as fezes para evitar a dor ou a ansiedade – ou seja, por reforço negativo – e, assim, tem início um ciclo de prisão de ventre que pode causar uma encoprese secundária.

Em relação à encoprese não retentiva, fala-se que essas crianças aprenderam a evacuar de forma incorreta. Costumam ser crianças que se distraem e, por isso, defecam fora do vaso, acabando por se sujar. Nesse caso, o problema também estaria relacionado ao controle dos esfíncteres.

Criança indo ao banheiro

Tratamento médico e comportamental

No âmbito do tratamento médico, encontramos o uso combinado de laxantes e enemas. Também pode ser realizada uma modificação na dieta, com alto consumo de fibras e ingestão de líquidos.

No tratamento médico há o protocolo de Levine (1982), que dá uma ênfase especial aos aspectos psicoeducacionais (explicar à criança com desenhos o que é um cólon, etc) e utiliza muito os incentivos.

Em relação ao tratamento comportamental, o destaque é ensinar hábitos de rotina para evacuar, reorganizar o ambiente, controlar de forma estimulante e reforçar comportamentos alternativos.

Existe, por fim, um programa instaurado por Howe e Walker (1992), também baseado em princípios do condicionamento operante.

Portanto, as causas da encoprese são variadas, assim como seus diferentes tipos. É um transtorno que, embora alguns possam considerar natural, é muito desagradável para as crianças.

Deixá-las passar por esse mal-estar sendo que é possível tratá-lo é pouco ético, e muitas vezes é preciso focar a atenção para o que a encoprese pode estar querendo dizer. Pode não ser um transtorno, mas sim um sintoma de outra condição.

Por isso, as avaliações, tanto médicas quanto psicológicas, deveriam ser indispensáveis.

  • Bragado, C. (2001). Encopresis. Madrid: Pirámide.