Como lidar com um fim de relacionamento inexplicável (ghosting)

Como lidar com um fim de relacionamento inexplicável (ghosting)

julho 20, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Como lidar com um fim de relacionamento inexplicável

Muitos de nós deixamos alguém habitar nossos corações com uma condição: que não quebre nada. Tomamos medidas e avisamos, mas ainda assim eles nos pegam desprevenidos. Ocorre quando, por exemplo, enfrentamos um fim de relacionamento inexplicável, quando de um dia para o outro usam pó mágico e desaparecem como entidades rumo ao além, sem um “precisamos conversar” ou “desculpe, acabou”.

Dizem que todas as pessoas quebradas são feitas de histórias mal resolvidas. Que de alguma forma, a maioria das questões pendentes que oscilam em nossas mentes evocam incômodos restantes desse passado que ainda arde. Agora, às vezes o assunto é mais complicado. Porque mais do que ser feito de capítulos mal resolvidos, o que há em nós são histórias sem um fim, sombras de pessoas que nos deixaram da noite para o dia sem dar uma razão.

“Campo abandonado, fogo proclamado”.
-Anônimo-

Sabemos que o assunto não é novo. Nos Estados Unidos, acostumados a dar um rótulo para cada característica, comportamento ou dinâmica, a situação é chamada de “ghosting“. Esse ato de desaparecer da vida de alguém – com quem, até recentemente, mantinha-se um vínculo afetivo – é recorrente até ao ponto de, em média, acontecer com todos nós pelo menos uma ou duas vezes na vida. Ou pior, pode ser que nós mesmos sejamos aqueles que realizam esse comportamento.

Assim, e embora muitas vezes diga-se que deixar alguém sem dar uma explicação é uma arte masculina, devemos considerar alguns aspectos. Abandonar sem dar uma razão não é uma arte, é um desrespeito e uma característica de imaturidade. Além disso, este ato não tem exclusividade masculina. Homens e mulheres o realizam, ainda mais nesta era de novas tecnologias, em que é possível terminar um relacionamento com um único clique e/ou um simples bloqueio.

Mulher correndo na natureza

Um fim de relacionamento inexplicável e a busca de um porquê

Não há nenhuma lei escrita que nos diga antes de deixar alguém, você tem que lhe dizer o porquê. Ninguém nos obriga a ter essa conversa final, a listar uma por uma as razões de nossa decisão, da mudança. Também não assinamos um contrato que nos obrigue a explicar por que o coração não bate mais da mesma maneira.

É assim, ninguém governa as regras do que deve ser feito ou não em um relacionamento afetivo. No entanto, há o senso de ética, do respeito moral e emocional, há maturidade e coragem. Portanto, e como esse tipo de princípio não vem de fábrica, mas sim da educação, são muitas as pessoas que precisam enfrentar um fim de relacionamento inexplicável e o que ele implica.

Embora não haja muita literatura clínica sobre todos os processos psicológicos que a pessoa abandonada tende a experimentar, podemos dizer que eles quase sempre seguem a mesma dinâmica. São os seguintes:

  • A pessoa é incapaz de assumir a relação como concluída. Ao não existir uma explicação clara, entra em uma dinâmica malsucedida para retomar o contato. Tudo isso leva a uma maior ansiedade, desespero e impossibilidade de fechar esse estágio.
  • Não é igual deixar um relacionamento sabendo a causa que o originou e ser abandonado de um dia para o outro sem nenhum motivo. As dúvidas, a tentativa de racionalizar o irracional, levam a pessoa a se sentir culpada, a pensar que ela é o motivo desse abandono.
  • O período de luto pode durar meses e até mesmo não terminar. Essa ferida aberta, essa dúvida permanente, cria um vazio onde começam a se instalar o ressentimento, a frustração e a desconfiança. Isso significa que é muito complicado iniciar novos relacionamentos ou que estes sejam de qualidade.

Jovem pensativo

Como lidar com um fim de relacionamento inexplicável?

Não existem abandonos sem motivos. Os términos sem explicação ocorrem com mais frequência do que pensamos e é necessário saber como lidar com eles, responder a eles e, o mais importante, sobreviver a eles. Vamos ver algumas orientações que podem nos ajudar nesses casos.

Aceitar as evidências

Chamadas que não são atendidas, mensagens que não são retornadas, perfis sociais bloqueados. Dias que se tornam semanas em que não há comunicação, nem contato e ainda menos presença. Contatos, amigos e familiares daquela pessoa se esquivam e nos dão desculpas…

Poderíamos citar mais pistas, mas a evidência que sustenta a ideia de um abandono e de um término é clara. Evitemos alongar o inevitável e proceder à aceitação do que aconteceu: temos que pronunciar a despedida pelo outro antes do seu silêncio.

Validar

Vão lhe dizer para “virar a página”, “aceitar”, “esquecer a pessoa”. Bom, tudo isso virá um pouco mais tarde. O primeiro e mais necessário passo é validar a nós mesmos e o que sentimos. É hora de reconhecer a ferida, de chorar, de exteriorizar essa dor e de nos reencontrarmos com esse ser fragmentado.

Assumir a responsabilidade

Por mais que tentemos, nem sempre será possível marcar um encontro com essa pessoa para que nos dê um motivo. E isso é algo que devemos assumir: estaremos obrigados a dar forma para um luto sem uma conversa final. Vamos ter que dar uma solução para esse capítulo e, para isso, devemos combinar coragem e responsabilidade.

  • Responsabilidade, em primeiro lugar, com nós mesmos. Porque se eles nos deixaram, a última coisa que temos que fazer é nos abandonar. Devemos tomar as rédeas e entender que somos 100% responsáveis ​​pela nossa própria recuperação. Não há como voltar atrás, devemos parar de tentar entrar em contato, implorar por um novo encontro ou fazer planos para coincidir com quem nos deixou.

Mulher com pássaros

Tempo e trabalho: gerenciamento da dor e da raiva

Se há algo que permanece depois de um término sem explicação é a dor e a raiva. Devemos entender que essas duas dimensões não desaparecem sozinhas com o passar do tempo. São resistentes, se encaixam e podem condicionar completamente as nossas vidas.

Vamos aprender, portanto, a lidar com elas. Para isso, é aconselhável começar novas atividades, usar o apoio de amigos e familiares, iniciar projetos que nos entusiasmem e nos permitam canalizar essas emoções tão complexas que minam identidades e vetam novas felicidades.

Concentrar-se no momento presente para curar

Quem está enfrentando um término sem explicação vive ancorado ao passado e ao tempo condicional. O que teria acontecido se, em vez disso, ele tivesse feito outra coisa? E se ele tivesse dito aquilo? Por que eu não percebi…?

Esse tipo de raciocínio é uma fonte inesgotável de sofrimento.

  • Para superar essa dor e avançar em nosso luto, é necessário deixar um espaço para o presente. Enfrentar o momento atual com franqueza, resiliência e dignidade nos permitirá romper o vínculo de dor que nos ancora ao passado.

Finalmente, temos mais uma tarefa. Fazer do nosso sofrimento atual uma aprendizagem construtiva. Fica claro que poucas dores são tão profundas quanto a ferida do abandono, no entanto, nosso potencial humano pode nos permitir sair dela. Nós podemos sobreviver a esse rompimento sem explicação, poderemos continuar porque teremos ferramentas para isso.

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