O que eu gostaria que as pessoas entendessem sobre perder um filho

· julho 3, 2016

O que eu gostaria que as pessoas entendessem sobre perder um filho é que ninguém está preparado para isso. A partir daí, e em primeiro lugar, desejo recomendar algo muito essencial e maravilhoso: devemos desfrutar cada instante com as pessoas que amamos. Nada nessa vida é seguro, nada está garantido, nem mesmo que os filhos viverão mais que os pais.

Se há um aspecto que todas as pessoas que sofreram a perda de um filho ressaltam é o sentimento de solidão e incompreensão que elas sentem nos primeiros momentos. Muitos se sentem isolados porque pensam que ninguém pode entender sua dor.

Perder um filho é, principalmente, ter a sensação de que algo fugiu do nosso projeto de vida, da nossa imaginação. No entanto, sempre acabará chegando um dia no qual vamos descobrir que a vida continua valendo a pena, porque implica continuar mantendo as lembranças.

Em primeiro lugar, cabe dizer que não existem estratégias que podem servir a todos nós igualmente na hora de enfrentar o luto pela perda de um filho.

No entanto, o que devemos ter consciência é de que não devemos enfrentar tudo isso em solidão. O núcleo familiar deve se manter unido e se ajudar, se curar e aprender a viver com esse vazio orientando de novo o dia a dia. Vale a pena, então, ter em conta estas simples reflexões que hoje queremos compartilhar com você.

Lutarei diariamente contra a paralisia do meu espírito, do meu corpo

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Perder um filho faz com que, da noite para o dia, tudo pare. É algo contra a natureza, que nossa mente não é capaz de entender. E ficamos quietos, sem ar, como se tivéssemos ficado sem alma

O pensamento mais recorrente que os pais sentem é o clássico… “nada faz sentido”. E a paralisia vital, emocional e motivacional pode acabar nos prendendo em um sofrimento crônico.

Isso é algo que deveríamos evitar. Nossa mente é incapaz de processar o acontecido, as negações, o bloqueio e a imobilidade. Entretanto, o próprio processo de luto deve nos ajudar a lidar com todas essas emoções.

Temos que evitar ficar isolados, porque a própria solidão nos empurra em direção à paralisia. É vital, então, contar com a ajuda da família, dos amigos e de qualquer profissional de saúde para nos ajudar a lidar com tudo isso.

Devo aprender a conviver com a minha tristeza

Dizer que é possível superar a morte de um filho não é verdade. Superar significa vencer, e ninguém pode nem deve passar por cima da ausência, de um vazio que está arraigado em nossa própria essência como pessoa.

  • A morte de um filho é assumida, chorada e aceitada. Aprendemos a viver com esse vazio, mas temos consciência de que essa tristeza sempre estará presente em nosso coração.
  • Acreditemos ou não, acaba chegando um dia em que a dor já não é tão destruidora, e podemos respirar sem sentir dor, andar sem que nossa alma fique pesada e respirar sem que nosso coração doa.
  • Porque viver de novo é honrar a memória daqueles que já não estão aqui. É compreender que levamos essas pessoas sempre conosco, que relembrá-los é honrá-los, e que o amor nos transcende mesmo que a tristeza continue morando em nós.

Não devo descuidar do meu parceiro

Perder um filho supõe ver como o projeto vital e familiar  de um casal ficou, de repente, órfão. O vazio é imenso e os vínculos já não são os mesmos, mas nem por isso devemos deixar de lutar por esse projeto.

  • É necessário evitar a culpa e a reprovação. Nestas situações, inclusive o próprio silêncio pode fazer mal e ser destrutivo.
  • Precisamos respeitar o modo como cada pessoa assume o lutoHá quem disponha de maiores estratégias e seja capaz de se abrir; outros, pelo contrário, precisam de tempo para “poder reagir”, e isso é algo que devemos saber compreender.
  • A intimidade, o compromisso e a paixão são três pilares que devem continuar estando presentes no relacionamento. Se continuarmos os alimentando, o relacionamento seguirá adiante. Se somente mostrarmos vazios ou fugirmos de determinadas coisas, o mais provável é que acabe surgindo um distanciamento.

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Perder um filho e não descuidar dos outros

As crianças percebem a morte de um modo muito diferente do nosso. E não podemos negligenciar seu próprio processos, especialmente se eles se encontrarem numa idade entre os 6 e os 10 anos.

A morte é algo que ninguém entende, algo do que os adultos têm raiva e as crianças não entendem. A morte nem sempre permite despedidas, por isso devemos dar lugar às lembranças, com o carinho cotidiano em memória a essa pessoa.

É recomendável que as crianças expressem suas palavras, que respondamos suas dúvidas e favoreçamos seu desabafo emocional, sem esconder nosso próprio pesar. A dor deve ir tomando forma para poder ser liberada e canalizada.

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É preciso voltar a ter projetos no dia-a-dia, nos permitir sorrir de novo com as crianças, honrando a memória daquela que já não está aqui. Nós aprenderemos a viver sem esse filho, mas ele jamais perderá esse cantinho privilegiado em nosso coração. A vida será diferente depois dessa perda, não há dúvidas disso, mas é preciso se permitir ser feliz. 

Créditos da imagem: Lucy Campbell, Claudia Tremblay.