Há sempre alguma loucura no amor

· dezembro 6, 2015

Dizem que, certa vez, todos os sentimentos e qualidades dos homens se reuniram em algum lugar do mundo…

Quando o tédio bocejou pela terceira vez, a loucura lhes fez uma proposta. Vamos brincar de esconde-esconde? A intriga levantou a sobrancelha intrigada e a curiosidade, sem poder conter-se, perguntou: “Esconde-esconde? E como é isso?”

“É um jogo em que eu cubro o meu rosto e começo a contar de um até um milhão, enquanto vocês se escondem. Quando eu tiver terminado a contagem, o primeiro que eu achar tomará o meu lugar para continuar o jogo”, explicou a loucura.

O entusiasmo dançou incentivado pela euforia. A alegria pulou tanto que acabou convencendo a dúvida, e inclusive a apatia, que nunca se interessava por nada. Mas, nem todos quiseram participar; a verdade preferiu não se esconder. “Por que eu faria isso? No final, sempre iremos encontrá-lo”.

O orgulho achou que o jogo era muito bobo, mas na realidade o que o incomodava era que a ideia da brincadeira não foi sua. E como sempre, a covardia preferiu não se arriscar…

Sempre há uma loucura no amor

“Um, dois, três…” a loucura começou a contar. A primeira a se esconder foi a preguiça, que caiu após a primeira pedra do caminho. A fé subiu ao céu e a inveja se escondeu na sombra do triunfo, que com seu próprio esforço subiu até o topo da árvore mais alta.

A generosidade quase não conseguiu se esconder. Cada lugar que encontrava, achava que era maravilhoso para um dos seus amigos: o lago cristalino era ideal para a beleza, aquela árvore, perfeita para a timidez, o voo da borboleta é melhor para a sensualidade e a rajada de vento é excelente para a liberdade. Por isso, acabou se escondendo em um pequeno raio de sol.

No entanto, o egoísmo encontrou um lugar muito bom desde o início: arejado e confortável, mas apenas para ele. A mentira se escondeu no fundo dos mares, (mentira, na verdade, ela se escondeu atrás do arco-íris); a paixão e o desejo dentro de um vulcão. E o esquecimento? Acabou se esquecendo de onde se escondeu… Mas isso não é importante.

Enquanto a loucura contava, o amor ainda não havia encontrado um local para se esconder, pois todos os lugares estavam ocupados, até que encontrou um roseiral e decidiu se esconder entre suas flores.

Sempre há uma loucura no amor

“… e um milhão”! – contou a loucura e começou a procurar. A primeira a ser encontrada foi a preguiça, apenas a três passos de uma pedra. Depois escutou a discutindo com Deus sobre Teologia, e percebeu a paixão e o desejo vibrando dentro do vulcão.

Sem querer, encontrou a inveja, e assim pode deduzir onde encontrar o triunfo. Não precisou nem procurar o egoísmo, que saiu correndo, pois havia se escondido em um ninho de vespas.

De tanto caminhar, sentiu sede e debruçou-se sobre o lago, encontrando assim a beleza. Com a dúvida foi mais fácil, pois a encontrou sobre uma cerca sem decidir de que lado se esconder.

Então, foi encontrando todos: o talento entre a grama fresca, a angústia em uma caverna escura, a mentira atrás do arco-íris, (mentira, ela estava no fundo do oceano), e encontrou até o esquecimento, que havia se esquecido que estava brincando de esconde-esconde.

Sempre há uma loucura no amor

No entanto, o amor havia sumido. A loucura o procurou atrás de cada árvore, em cada riacho do mundo, em cima das montanhas… E quando já estava desistindo, descobriu o roseiral.

Começou a mover os ramos e ouviu um grito de dor. Os espinhos haviam ferido os olhos do amor e a loucura não sabia o que fazer para se desculpar: chorou, implorou, pediu desculpas e prometeu ser seu guia.

Então, desde a primeira vez que se brincou de esconde-esconde na terra, o amor é cego e a loucura sempre o acompanha.

Dizem que o coração é um hospício e que sempre há espaço para mais uma loucura. Por amor, somos capazes de fazer qualquer coisa, de nos arriscarmos frente ao abismo e até de perder a nossa liberdade.

O amor é uma loucura por um erro de cálculo, porque não podemos escolher a quem amar e porque ganha qualquer jogo, embora muitas vezes acabemos nos machucando.

Como disse Calderón de la Barca, “quando o amor não é loucura, não é amor”.