A heminegligência ou como metade do nosso corpo deixa de “existir”

· outubro 28, 2017

Você já ouviu falar da heminegligência? Trata-se de um tipo de alteração que ocorre de maneira frequente nas pessoas que sofreram lesões cerebrais. Se tentarmos olhar para a raiz da palavra, podemos intuir seu significado. No entanto, há muitos tipos diferentes de heminegligência.

O morfema “hemi-” nos fala sobre metade de alguma coisa. Nesse caso, nos referimos ao nosso campo visual. A “-negligência” nos fala do descuido ou da falta de atenção com alguma coisa. Um descuido que nos leva a cometer erros que implicariam um risco para si mesmo e para o meio ao redor.

Se aproximarmos esse conceito do mundo das lesões cerebrais, entenderemos que a heminegligência significaria uma falta de atenção com uma das metades do nosso corpo. Mais especificamente, significaria a desatenção absoluta a qualquer estímulo (auditivo, tátil, visual…) que aconteça nessa metade do nosso corpo.

A heminegligência e o seu poder de fazer desaparecer o que está no nosso lado esquerdo

De alguma maneira, é como se as pessoas não enxergassem o que acontece nessa metade dos seus corpos. É curioso verificar essa alteração, pois essa é a sensação que fica quando estamos falando ou observando um paciente que tem heminegligência.

Qual caminho escolher?

Na verdade, essas pessoas percebem perfeitamente o estímulo que ocorre nesse campo visual. O problema está na atenção. Elas não cuidam dessa parte do corpo. É como se esse lado deixasse de existir. Mas quando são incentivadas a focar a atenção nesse lado, acabam percebendo perfeitamente. Seja o estímulo que for, essas pessoas têm consciência dele.

Como já sabemos, no nosso cérebro temos dois hemisférios diferentes. Quando há uma lesão cerebral em um dos hemisférios, a parte do nosso corpo oposta ao hemisfério que foi danificado é especialmente atingida. Ou seja, o lado do nosso corpo oposto à lesão é atingido.

Quando o hemisfério direito é danificado, nosso lado esquerdo é atingido

Portanto, se a lesão ocorreu no hemisfério direito, a parte mais atingida provavelmente será a esquerda. Em contrapartida, se a lesão aconteceu no nosso hemisfério esquerdo, a parte direita do nosso corpo será atingida. Esse comprometimento corporal pode envolver desde uma hemiparesia (paralisia parcial) até uma hemiplegia (paralisia total de um dos lados), entre outras.

Manipulação do cérebro

Normalmente, a heminegligência aparece nas lesões que ocorreram no hemisfério direito. Essa é a situação mais comum. Portanto, o lado esquerdo é atingido. Um lado ao qual as pessoas que sofrem de heminegligência deixam de prestar atenção porque é como se ele tivesse deixado de existir. Essas pessoas não se orientam para o lado esquerdo nem são capazes de responder ao que ocorre nesse lado.

A atenção dos pacientes com heminegligência se foca apenas no lado que é controlado pelo seu hemisfério cerebral saudável. Na sua maioria, o lado direito. É muito comum perceber que eles não nos escutam quando falamos do lado esquerdo. Em contrapartida, isso muda radicalmente quando falamos a mesma coisa, mas desta vez do lado direito.

As estratégias de compensação são as mais eficazes para tratar a heminegligência

“Ai, não tinha visto você! Me desculpe”. costuma ser a reação mais comum quando isso acontece. Portanto, um dos trabalhos que se realiza com base na neuropsicologia é trabalhar com essa atenção que está totalmente “danificada”. Como? Ajudando a redirecionar a pessoa ao hemisfério oposto ao da lesão.

Avental de médico

Também precisamos reforçar a consciência de que elas têm esse déficit. Muitas vezes a heminegligência vem acompanhada por anosognosia, um fenômeno que faz com que o paciente não tenha consciência das suas dificuldades.

Por isso, precisamos ajudar os pacientes a tomar consciência da sua dificuldade. Dessa maneira, poderão compensar esse déficit e se transformar nos seus próprios guias quando não encontrarem o que estiverem procurando. Provavelmente o que não encontram deve estar no lado esquerdo, o lado que “deixou de existir”.