Hildegard von Bingen: biografia da maior estudiosa da época medieval

abril 6, 2019
Hildegard von Bingen criou as bases da ginecologia e da saúde feminina. Em um de seus livros, oferecia, por exemplo, orientações alimentares para que as mulheres pudessem tratar a amenorreia.

Hildegard von Bingen foi uma abadessa do século XII com uma trajetória excepcional. Filósofa, teóloga, compositora, naturalista, cientista, poeta… Dizem que foi a precursora da ópera e que criou as bases da sexologia. Se há uma figura que frequentemente negligenciamos na história da ciência, é sem dúvidas essa mulher que brilhou com luz própria na Idade Média.

Ela era conhecida como a Sibila do Reno. Desde criança, já demonstrava uma paixão pouco comum pelo conhecimento e todos os tipos de saberes. Sua mente, sua curiosidade, quase comparável à de Leonardo da Vinci, sempre estiveram voltadas a compreender a natureza. Além disso, vale destacar que Hildegard von Bingen sempre recebeu o apoio das elites políticas e religiosas para desempenhar seu trabalho como estudiosa. Algo pouco comum não apenas por ser mulher, mas também pela época em que viveu.

Apesar de ter sido enviada muito cedo à Igreja por seus pais, ela encontrou nesse contexto os recursos ideais para cultivar sua inteligência, para promover pensamentos, visões e mensagens místicas que recebeu ao longo de sua vida. Ela escreveu obras de medicina, ciências naturais, fisiologia…

O legado que nos deixou foi incalculável. É um claro exemplo de como as mulheres, apesar dos claros impedimentos que sempre encontraram na sociedade, conseguiram também promover o avanço da nossa ciência moderna.

 “Na mesma visão, entendi os escritos dos profetas, dos Evangelhos e dos outros santos e de alguns filósofos. Fiz sem ter recebido instrução de ninguém. Expus certas coisas baseadas neles, embora mal tivesse conhecimentos literários, por ter sido educada como mulher pouco instruída…”.
-H. von Bingen-

Vitral de Hildegard von Bingen

Hildegard von Bingen, a biografia de uma grande estudiosa da Idade Média

Hildegard nasceu em 1098, às margens do rio Nahe, em Bermersheim, na Alemanha. Sua família era nobre e já tinham nove filhos quando ela veio ao mundo. Desse modo, e como era costume naquela época, o décimo descendente deveria ser entregue à Igreja. E foi assim que teve início seu particular destino.

Desde a primeira infância apresentava uma saúde delicada. Durante seus primeiros anos, ela foi atendida por uma abadessa, Jutta von Spanheim, que lhe transmitiu o amor pela música e lhe ensinou a ler em latim, mas não a escrever, algo que Hildegar von Bingen acabou aprendendo sozinha.

Ao mesmo tempo, existem documentos escritos, como os redigidos pelo monge Teoderico de Echternach, que falam das visões e experiências místicas que a menina tinha já com oito ou nove anos. Ela nunca chegava a perder os sentidos, nem a entrar em êxtase, o que experimentava eram alucinações visuais e auditivas muito intensas, as quais se repetiriam ao longo de sua vida de muitas outras maneiras.

Atualmente, diz-se que talvez o que Hildegard von Bingen tinha era enxaqueca.

Uma visão que mudou tudo

Quando Hildegard von Bingen chegou à idade adulta, suas doenças desapareceram. Foi um despertar, porque no momento em que por fim deixou de ser prisioneira de seu próprio corpo, ela teve a oportunidade de focar sua mente naquilo que despertava a sua paixão: o conhecimento.

Ela teve sorte pois, como freira beneditina de um monastério alemão, era comum que chegassem inúmeros livros sobre cosmologia grega para serem traduzidos. Ao seu alcance, teve volumes de ciência, história natural… Mergulhar nesses universos de saber lhe permitiu duas coisas. A primeira, instruir-se; e a segunda, desenvolver uma visão científica.

Ao mesmo tempo, apesar de suas doenças terem desaparecido, não aconteceu a mesma coisa com suas visões. Elas se intensificaram. No entanto, somente a abadessa Jutta e seu mentor, o monge Volmar de Disobodenberg, conheciam aquelas experiências. Foi quando completou 38 anos que Hildegard von Bingen teve sua maior revelação. Em uma dessas visões, via a si mesma envolta em luzes. Uma voz interna lhe disse qual deveria ser seu desígnio: escrever, transmitir conhecimento ao mundo.

Monastério antigo

A abadessa de Disobodenberg, uma estudiosa com o apoio do Papa

Pouco depois daquela visão, a abadessa Jutta faleceu e Hildegard von Bingen assumiu seu cargo. Ao mesmo tempo, o Papa foi finalmente informado das experiências místicas que Hildegard havia tido. Ele deve ter ficado tão impactado que lhe concedeu o direito de escrever, a oportunidade de registrar tudo o que lhe havia sido revelado nas 16 visões que teve ao longo de sua vida.

Hildegard escreveu seu primeiro livro em 1141. Foi Liber Scivias, no qual falava de um tipo de cosmologia baseada na tradição grega. A Terra era uma esfera composta por quatro elementos: vento, fogo, ar e água. Por sua vez, esse corpo celeste estava rodeado de diferentes camadas de ar e água. Tudo muito surpreendente, e ao mesmo tempo revelador.

Além disso, vale destacar que ao receber a permissão papal para redigir esses tratados, ela pôde se livrar de ser acusada de heresia. A abadessa Hildegard von Bingen era, para muitos, a voz de Deus. Em uma sociedade ainda guiada pela superstição, ela teve uma oportunidade excepcional que outros não tiveram e que, sem dúvida, soube aproveitar.

O nascimento da Sibila do Reno

Contar com o apoio da Igreja Católica contribuiu para que os trabalhos realizados por Hildegard von Bingen fossem apreciados em toda a Europa. Dessa forma, sua fama se espalhou em pouco tempo até o ponto de se tornar conhecida como a “Sibila do Reno”. No entanto, sua ânsia por conhecimento e sua necessidade de transmiti-lo não parava por aí.

Ela era uma mulher de personalidade com ideias muito claras sobre o que desejava. Aspirava deixar o monastério de Disobodenberg e criar o seu próprio. Dessa forma, essa determinação se transformou em realidade ao erguer o convento beneditino de Mount St. Rupert, localizado próximo a Bingen, na Alemanha.

A partir de 1150, Hildegard von Bingen se aprofundou no estudo da medicina natural e se tornou curandeira. Ao completar cinquenta anos, ela começou a viajar pela Europa com um objetivo tão nobre quanto elevado: defender a paz e, ao mesmo tempo, suas ideias sobre ciência e medicina.

A primeira sexóloga da história

Seu trabalho mais notável foi Physica (Liber Simplicis Medicinae). Nessa enciclopédia, ela detalha uma ampla gama de informações sobre doenças e aplicações médicas das plantas. Descreve, ao mesmo tempo, a importância de ferver a água para tratar doenças e limpar o corpo e as feridas.

Também foi uma das primeiras referências históricas nas quais se fala abertamente sobre a sexualidade. O orgasmo é descrito como algo belo, sublime e ardente do qual tanto homens quanto mulheres devem desfrutar. Em seus livros de medicina, como Causa et curae, oferece informações sobre a menstruação e condições como a amenorreia, especificando que uma má alimentação poderia afetar as mulheres.

Estudos de Hildegard von Bingen

Profeta e santa

Hildegard von Bingen faleceu aos 81 anos de idade após uma vida intensa e realizada. Foi uma mulher reivindicativa, que defendeu inclusive pessoas que haviam sido excomungadas pela Igreja. No entanto, sempre contou com a aprovação e admiração de papas, reis, nobres, assim como de pessoas mais humildes.

De fato, em 2010, o Papa Bento XVI se referiu a ela como profeta e santa Hildegard von Bingen, de tal modo que posteriormente recebeu o título de doutora da Igreja. Como podemos ver, foi uma figura de extrema importância que merece ser lembrada.

  • Barona, J. L. (2006). Hildegard von Bingen (1098-1179), mística, ciencia y medicina en la Edad Media, Mètode 50, 2006
  • King-Lezneier, Anne H (2001) Hildegard of Bingen: An Integrated Vision, Liturgical Press
  • Maddocks, Fiona (2001) Hildegard of Bingen: The Woman of Her Age, Doubleday