A importância da memória de trabalho

· outubro 28, 2017

A memória de trabalho é um componente cognitivo ligado à memória que permite o armazenamento temporário de informações com capacidade limitada. Todos nós utilizamos a memória de trabalho em todos os tipos de atividades e tarefas diárias. Quando calculamos a conta do supermercado, quando fazemos anotações e criamos lembretes, quando conversamos, estamos usando a nossa memória de trabalho. Dessa forma, o resultado de todos esses processos dependerá diretamente do seu funcionamento.

A memória de trabalho, também chamada de memória operacional, é um tipo de memória de curto prazo que cuida do armazenamento e da manipulação temporária da informação. É um tipo de memória que mantém certas informações no nosso foco de atenção enquanto executa tarefas cognitivas complexas. Usando uma metáfora, poderíamos dizer que, na nossa sala de cirurgias mentais, a memória de trabalho é tanto a maca que sustenta o paciente quanto o cirurgião que o opera. O resultado dependerá, logicamente, de como conseguimos fazer os dois processos simultaneamente.

Quais são as principais características da memória de trabalho?

As principais características da memória operacional são as seguintes:

  • Tem uma capacidade limitada
  • É ativa: manipula e transforma as informações.
  • Atualiza constantemente os seus conteúdos.
  • Está intimamente relacionada com a memória de longo prazo. No entanto, pode trabalhar com conteúdos armazenados na memória de longo prazo e, ao mesmo tempo, com os conteúdos armazenados na memória de curto prazo.
Mulher com lembretes para a memória

A importância da memória de trabalho

Você já tentou repetir o mesmo número de telefone para marcá-lo 10 segundos depois, e não consegue mais se lembrar? É nesse momento que percebemos a importância da memória de trabalho para o nosso cotidiano e os benefícios que podemos obter ao exercitá-la e “mantê-la em forma”.

Por exemplo, a memória de trabalho é fundamental no processo de tomada de decisões e no bom funcionamento das funções executivas, especialmente quando há uma muita necessidade de atenção e planejamento das ações. Ela é importante na compreensão da linguagem oral e escrita porque nos permite manter cada palavra ativa, reconhecê-la, analisá-la semanticamente, compará-la com outras palavras e combiná-la com informações armazenadas em outro tipo de memória ou com informações que recebemos nesse momento através dos sentidos.

A memória de trabalho é o motor da cognição. Como tal, é essencial nas tarefas cognitivas, como aquelas relacionadas ao cálculo, raciocínio puramente lógico e o controle perceptivo-motor. Também está relacionada com aprendizagens muito distintas, como aprender a ler e aprender matemática. Uma pessoa que tenha alguma lesão cerebral associada a problemas de memória pode não ser capaz de definir uma palavra ou decidir se duas palavras têm uma semelhança fonética.

Memória de curto prazo é o mesmo que memória de trabalho?

A memória de curto prazo permite que uma quantidade limitada de informações seja mantida por um curto período de tempo. É considerada um “armazém passivo”, que tem uma limitação em capacidade e duração. A memória de trabalho, por outro lado, permite a realização de processos cognitivos conscientes que exigem atenção, revisão, manipulação, organização e conexões com a memória de longo prazo.

Apesar desta aparente diferença conceitual, existe atualmente uma discussão sobre se a memória de trabalho é igual a memória de curto prazo. Por um lado, uma grande parte dos pesquisadores considera que esses dois armazéns são ou formam um único sistema de armazenamento temporário, o que permite trabalhar com informações para resolver ou executar tarefas cognitivas complexas.

Por outro lado, alguns autores consideram que os dois sistemas são diferentes e desempenham diferentes funções. Para eles, a memória de curto prazo envolveria apenas o armazenamento, enquanto a memória de trabalho envolveria o processamento, isto é, o armazenamento e a manipulação.

O modelo multicomponente de Baddeley e Hitch

Para tentar explicar o funcionamento do modelo multicomponente da memória de trabalho, Baddeley e Hitch introduziram um modelo inovador que propôs a divisão da memória de trabalho em 4 subsistemas ou componentes especializados:

  • O executivo central: é responsável por supervisionar, controlar e coordenar os outros sistemas. Não está envolvido nas tarefas de armazenamento. É considerado um sistema de supervisão atencional, que permite mudar o foco da atenção (atenção seletiva).
  • Laço ou ciclo fonológico: permite a aquisição de vocabulário. É essencial no desenvolvimento de outras habilidades intelectuais. Está dividido em dois sistemas: o armazém fonológico passivo, que mantém as informações verbais; e o processo subvocal, que “atualiza” e mantém essa informação.
  • Agenda visuoespacial: nos permite perceber os objetos, encontrar um endereço ou jogar xadrez. Também é dividido em dois sistemas: o armazém visual ativo e o escritor interno, que desempenham as mesmas funções que os componentes do ciclo fonológico.
  • Buffer episódico: permite conectar as informações do ciclo fonológico e da agenda visuoespacial, bem como as representações da memória de longo prazo.

As estruturas neuroanatômicas envolvidas na memória de trabalho

A memória de trabalho não está localizada em uma parte exclusiva do cérebro, mas requer a ativação de um circuito neuronal específico. Ela atua através da ativação do córtex pré-frontal, área cerebral envolvida no planejamento de comportamentos complexos, nos processos de tomada de decisão e na adaptação do comportamento social em diversas situações.

 

Como funciona a memória de trabalho?

Quando está ativa, o seu funcionamento reside na interação entre o córtex pré-frontal e diferentes áreas do córtex posterior, lobo temporal e occipital.

  • O lobo temporal permite armazenar e manipular informações verbais de curto prazo (atividade do laço fonológico).
  • O lobo occipital processa a informação visual (atividade da agenda visuoespacial).

A memória de trabalho é um armazém de memória temporária ativo. Graças a ele e a sua capacidade, podemos acompanhar, entender a linguagem, ler, realizar cálculos matemáticos, aprender ou raciocinar. Tudo isso é fascinante, não é mesmo?