Lembranças das quais não quero esquecer

· fevereiro 12, 2015

O rádio tocava. Pressionada pelo trabalho atrasado, não pude escapar e esquecer o tédio dos dias. Não estou me queixando; o trabalho é bom quando gostamos dele, e eu gosto muito do meu. Mas tenho que ser sincera, também gosto muito de ter um tempo só para mim, para relaxar, esquecer por um momento que devo cumprir minhas tarefas. E esse pensamento me fez refletir sobre o esquecer…

Sou daquelas que sempre dizem que não podemos remediar os erros do passado, não podemos viver presos às desilusões que ficaram para trás. O passado é, para mim, passado, então não tem conserto. Mas alguns aspectos de nossas vidas, não podemos, nem queremos esquecer. Acima de tudo, aqueles momentos que envolvem nossos sentimentos, o quanto sofremos, ou o quanto fomos felizes, têm um valor inestimável dentro de nossos corações.

Mesmo que algumas lembranças sejam dolorosas, não estamos dispostos a esquecê-las. Eu, pelos menos, vejo dessa maneira. Através dessas lembranças também podemos retomar momentos em que fomos muito felizes.

O rádio tocava, e suas músicas românticas falavam… algumas horas depois, tive a certeza de que estes amores frustrados, que um dia foram felizes e terminaram por diferentes motivos, ainda vivem, pois alguém ainda os sente. Eles voltam em lembranças, porque os amores não são esquecidos, são somente superados. De alguma forma, encontramos alguém novo, nos apaixonados outra vez, insistimos no amor. Afinal, para ser feliz, é preciso ser insistente.

Em algum lugar do nosso coração, num espaço escondido de nossa mente, parece aflorar uma lembrança que pode nos ferir, mas que também pode nos fazer sorrir. Como todos, também sofri por um amor perdido. Me vi, como todos, com um amor que sabia que não iria durar. Mesmo com todas as suas frustrações, foram amores de momentos felizes… de emoções encontradas, de amanheceres em que parecíamos ser capazes de tocar o céu...

De tardes frias de inverno, vendo pela janela o céu azul nos fazendo sentir a emoção que é amar e, quem sabe, ser amado. Quem sabe, num dia qualquer, com os acordes de uma velha canção, essa lembrança volte para demonstrar que você pode até falar que esqueceu, que é bom em superar a dor, mas a lembrança continua ali, escondida em sua mente, ou apenas naquela caixa escura onde guardamos nosso passado.

Não vejo problema em derramar lágrimas por alguém que já amei. Mesmo que tenha me ferido. Alguns podem dizer que é besteira, mas o amor não é, por si só, uma emoção suprema que nos permite fazer besteiras? Não me interessa o que os outros pensam. Gostaria de sentir esse alguém do meu passado, que é só uma lembrança. Não vou sofrer, nem mergulhar na desilusão.

Mesmo que, no rádio, alguém pareça chorar, para mim não existem lágrimas de dor. Sempre gosto de relembrar momentos felizes, o primeiro olhar, a primeira carícia, um sorriso… porque, mais que sofrer com o que não aconteceu, prefiro sorrir com a lembrança dessa fabulosa sensação, que nos embriaga quando estamos perdidamente apaixonados… e isso, não quero esquecer jamais.