A lenda de Carlos Magno, uma história que decifra o amor

· janeiro 21, 2018

A lenda de Carlos Magno é uma das histórias mais perspicazes e interessantes de Italo Calvino. Esse maravilhoso escritor nascido em Cuba, filho de italianos, deixou um impressionante testemunho de sua aguda sensibilidade e sua clara inteligência nesse miniconto.

Calvino sempre vagou entre um realismo radical e uma imaginação sem limites. A lenda de Carlos Magno é um bom exemplo disso. Partindo de uma história fantástica e quase inverossímil, consegue imprimir uma visão profunda e analítica em torno do amor apaixonado.

Boa parte das obras de Calvino tem um toque de fábula. A lenda de Carlos Magno pode ser categorizada dentro desse grupo. No entanto, nesse caso o propósito vai muito mais além de uma moral. O conto faz uma impressionante revelação sobre o amor de um casal. Nesse tema, a postura de Italo Calvino está muito próxima da posição da psicanálise contemporânea.

“Amamos a pessoa que protege ou uma imagem narcisista de nós mesmos.”
-Jacques Alain Miller-

A lenda de Carlos Magno e o amor como paixão

A lenda de Carlos Magno começa da seguinte maneira: “O imperador Carlos Magno se apaixonou, já mais velho, por uma jovem alemã. Os nobres da corte estavam muito preocupados porque o soberano, possuído por um ardente amor e tendo esquecido da dignidade real, se descuidava dos assuntos do Império”.

É interessante que Italo Calvino tenha escolhido como personagem principal um homem mais velho e poderoso. Aparentemente, é a antítese daquela postura adolescente na qual o amor ultrapassa qualquer coisa. Sem se importar com o fato de ser imperador, ao se apaixonar, ele fecha os olhos a todo o resto.

A lenda de Carlos Magno

Por isso os nobres ficam preocupados. O poder e o amor não são duas realidades compatíveis entre si, embora às vezes andem lado a lado. Nesse caso, o amor se impõe sobre o poder, assunto que coloca em risco todo o império. Esse é apenas o começo dos surpreendentes fatos que ocorrem a seguir.

O amor, um engano, um feitiço

Depois de ter se apaixonado tão intensamente, ocorre o impensável. A amada jovem morre repentinamente. Diz a lenda de Carlos Magno que o amor não morreu com ela. O imperador, cego de dor, fez levar o cadáver embalsamado para seu quarto. E não queria se separar nem por um momento daquele corpo inerte.

O conto continua, afirmando o seguinte: “O arcebispo Turpín, assustado com essa macabra paixão, suspeitou de um feitiço e quis examinar o cadáver. Escondido sob a língua da mulher, encontrou um anel com uma pedra preciosa”.

Descobriu-se então aquele amor escondia, na verdade, um feitiço. Por fim, Carlos Magno não estava tão apaixonado assim pela jovem alemã. O que tinha acontecido era obra da magia, não de um sentimento real.

Italo Calvino começa a revelar aqui a verdadeira natureza do amor. Há algo que o ser amado carrega, mas que não é ele mesmo. O amante se apaixona por aquilo que a pessoa carrega, não pela pessoa em si. Em termos de psiquismo, diríamos que o amor é a ativação de um elemento mágico. Não no sentido poético, mas literal. Ao amor, cede-se bastante em relação às regras da lógica e se começa a apalpar os impossíveis, com a esperança de torná-los realidade.

Anel azul

O amor: um anel com uma pedra preciosa

O final da lenda de Carlos Magno não poderia ser mais surpreendente e avassalador. O que aconteceu depois que o Arcebispo encontrou o anel foi o seguinte: “Assim que Turpín pegou o anel nas mãos, Carlos Magno se apressou para fazer o funeral do cadáver e direcionou seu amor para a pessoa do Arcebispo. Para sair da embaraçosa situação, Turpín atirou o anel no lago de Constança.  Carlos Magno se apaixonou pelo lago de Constança e não quis nunca mais se afastar de suas margens”.

Nessa parte final é revelada definitivamente qual é a natureza desse amor inflamado que não dava lugar à razão. No final das contas, Carlos Magno não se importava com qual era o objeto do seu amor. Por isso ele se apaixonou pelo arcebispo e, depois, pelo lago, o qual amou para sempre. O segredo de tudo estava no anel mágico.

O anel é uma figura na qual há bordas, mas no centro não há nada. É um círculo que delimita o vazio. Mas tem uma pedra preciosa, algo que brilha, que atrai, que deslumbra. Finalmente, assim é o amor ou é assim que algumas pessoas o caracterizam. Uma tentativa de colocar limite no vazio, no nada. Apesar disso, tem existência real nas pessoas e chega até a determinar suas vidas. O amor apaixonado nasce, cresce e morre na imaginação.