A verdadeira lenda sobre a mentira e a verdade

· novembro 26, 2018

A relação das pessoas com a mentira e a verdade é ambivalente. Como regra geral, todos dizemos (ou acreditamos) preferir a verdade. Mas quando a verdade que ouvimos ou compartilhamos é dolorosa ou complicada, pode gerar um grande conflito psicológico.

Optar pela mentira é, por via de regra, um sintoma de desconfiança na capacidade própria ou alheia para lidar com os problemas. Em outros momentos, escolher a falsidade significa se comportar como uma pessoa sem escrúpulos que deseja obter um ganho com determinada situação.

Em qualquer caso, aprender a lidar com a verdade continua sendo uma questão em aberto na nossa sociedade, a qual equilibra uma balança que deveria ter como vencedoras a verdade e a honestidade.

A lenda sobre a mentira e a verdade

Há lendas que são criadas como belas histórias que ilustram a realidade psicológica de nossas vidas. Esta que vamos contar a seguir é uma delas.

“Diz a lenda que, um dia, a verdade e a mentira se cruzaram.

-Bom dia – disse a mentira.

-Bom dia – respondeu a verdade.

-Que dia lindo – disse a mentira.

Então, a verdade olhou ao redor para ver se era um dia bonito. E era.

-Um dia lindo mesmo – disse, então, a verdade.

-Ainda mais lindo está o lago – disse a mentira.

Então, a verdade olhou para o lago e viu que a mentira estava dizendo a verdade e concordou. A mentira correu em direção à água e disse:

-A água está ainda mais gostosa. Vamos nadar.

A verdade colocou os dedos na água e realmente estava gostosa. Assim, confiou na mentira. Ambas tiraram as roupas e nadaram tranquilas. Um segundo depois, a mentira saiu da água, vestiu as roupas da verdade e foi embora.

A verdade, incapaz de se vestir com as roupas da mentira, começou a andar nua e todos ficaram horrorizados ao vê-la. É por isso que ainda hoje em dia as pessoas preferem aceitar a mentira disfarçada de verdade, e não a verdade nua e crua”. 

Silhueta humana com pássaros voando

A ambivalência entre a mentira e a verdade

Vinculamos os bons valores com a sinceridade, pois relações construídas sobre pilares de mentiras acabam se parecendo com um castelo de cartas fraco e bambo, capaz de destruir tudo ao redor quando desmorona. No entanto, apesar de sermos conhecedores desse vínculo entre a verdade e sua complexa aceitação, buscamos constantemente contornar a situação, contando “meias-verdades” ou fingindo realidades diferentes da verdadeira.

A afirmação de que fazemos isso “constantemente” não é em vão, pois há estudos da University of Massachusetts que mostram que na nossa sociedade conta-se uma mentira ou algo desonesto, em média, a cada 3 minutos. Outros estudos apresentam números mais esclarecedores, mostrando que, durante uma semana, mentimos em 35% das conversas que estabelecemos.

Esses números, de certa forma, são desoladores. Com frequência nos autoproclamamos pessoas honestas que nunca mentem, mas na verdade há uma grande mentira por trás desse emblema.

A mentira e a verdade

Não só mentimos, mas mentimos muito. Em temas importantes e coisas pequenas. É mais fácil fazer isso do que dar explicações e lidar com a crueza da verdade nua. Não temos uma posição clara a respeito da mentira e da verdade porque não refletimos sobre isso de maneira adequada. Como consequência, nos intoxicamos de pequenas e grandes mentiras que se entrelaçam em um tecido do qual é difícil escapar.

Por que fazemos isso? Porque o benefício psicossocial da mentira costuma ser mais imediato do que o da verdade. Também porque a verdade não está isenta de riscos. Assim, muitas vezes, com o objetivo de proteger nossa integridade ou a integridade alheia e/ou de tirar proveito, tendemos a cair na tentação: recorremos à mentira.

No entanto, não devemos nos esquecer de que por mais piedosa que seja uma mentira, não deixa de constituir um obstáculo para a confiança. Não podemos nos esquecer de que uma mentira é suficiente para que a suspeita desperte a dúvida de centenas de verdades, fazendo-nos questionar inclusive as experiências que acreditávamos ser mais verdadeiras.