Como funciona o cérebro de um mentiroso?

· maio 12, 2018

Quando alguém mente de forma compulsiva, a pessoa deixa de ter uma resposta emocional para suas próprias falsidades. Desse modo, diante de uma total ausência de sentimentos perante a prática de mentir, o ato se torna mais fácil e um recurso usado habitualmente. Por isso, os neuropsicólogos chegaram à conclusão de que o cérebro de um mentiroso funciona de forma diferente: são mentes treinadas para esse comportamento.

Se há algo que caracteriza todo cérebro humano, é a plasticidade cerebral. Isso já é determinado. Por isso, não é estranho pensar que a mentira pode ser algo treinado e aprendido como qualquer outra habilidade, e que para alcançar e manter um bom nível de excelência, basta praticar a habilidade diariamente. Há quem sinta paixão pela matemática, pelo desenho ou pela literatura, disciplinas que também têm a capacidade de modelar o cérebro de formas particulares, baseadas no nosso estilo de vida e nas nossas práticas diárias.

“Uma mentira pode até salvar o presente, mas condena o futuro.”
-Buda-

O campo da psicologia e da sociologia sempre teve muito interesse pelo mundo das mentiras e do engano. Há décadas, no entanto, e em vista dos grandes avanços que foram feitos nas técnicas de diagnóstico, é a neurociência que hoje está oferecendo as informações mais valiosas. São, porém, inquietantes. Por quê? Se dissermos nesse exato momento que a personalidade desonesta é o resultado de um treinamento e habituação contínua, é possível que várias pessoas fiquem muito surpresas e desconfiadas.

Quem começa contando pequenas mentiras e torna esse comportamento um hábito, induz o cérebro a um estado progressivo de dessensibilização. Dessensibilização é tornar algo “normal” pelo costume, por muitas repetições. Pouco a pouco, as grandes mentiras doem menos, e se tornam um novo estilo de vida…

Detector de mentiras

O cérebro de um mentiroso e a amígdala

A maioria de nós fica surpreso com certos comportamentos que acontecem na sociedade e que, para outros muitos, são normais no dia a dia. Hoje, por exemplo, vemos muitos políticos defendendo ferrenhamente suas mentiras, defendendo sua honestidade e normalizando atos que são obviamente altamente reprováveis, se não fora da lei. Isso acontece por causa do meio? É normal para quem ocupa cargos públicos? Ou talvez seja algo biológico?

Tali Sharot, uma professora de neurociências cognitivas da University College de Londres, conta para nós que há sim, efetivamente, um componente biológico. Mas há também um processo de treinamento e dessensibilização para o comportamento. Nesse contexto, a estrutura cerebral que se relaciona de forma direta com esses comportamentos desonestos é, sem dúvida, a amígdala. O cérebro do mentiroso passaria na realidade por um sofisticado processo de treinamento cujo resultado é conseguir eliminar por completo toda emoção ou sentimento ligado à culpa.

A revista científica Nature Neuroscience publicou um artigo muito completo sobre o tema em 2017, no qual há detalhes desse mecanismo. Para entender melhor, podemos dar um exemplo. Imaginemos que um jovem chega a um cargo de poder na empresa na qual trabalha. Para transmitir liderança e confiança para seus empregados, ele recorre a pequenas mentiras. Essas dissonâncias entre o que ele fala e a realidade, esses pequenos atos reprováveis, têm como consequência uma reação provocada pela amígdala do cérebro. Essa pequena estrutura do sistema límbico tem relação com a nossa memória e as reações emocionais aos acontecimentos; é ela que vai limitar o grau máximo em que estamos dispostos a mentir e nos sentir bem.

Vejamos o que acontece a seguir. Esse jovem acaba convertendo esse comportamento de mentir em uma de suas ferramentas do dia a dia, fazendo uso constante dela. Seu trabalho nessa empresa acaba baseado permanentemente e deliberadamente no ato de enganar. Quando esse mecanismo é habitual, a amígdala para de reagir, cria uma tolerância e já não emite nenhum tipo de reação emocional. A sensação de culpa desaparece, não há remorso nem qualquer tipo de preocupação.

O cérebro de um mentiroso, então, acaba se adaptando à desonestidade.

A mentira faz o cérebro trabalhar de um modo diferente

Quem mente precisa de duas coisas: memória e frieza emocional. Isso é o que nos mostra um dos livros mais completos já escritos sobre o cérebro de um mentiroso: “A Mais Pura Verdade Sobre a Desonestidade” do professor de psicologia Dan Ariely. No mesmo livro ele também nos convida a descobrir outros processos neurológicos que são igualmente interessantes e surpreendentes.

Um experimento realizado pelo próprio professor Ariely revelou que a estrutura cerebral dos mentirosos patológicos dispõe de 14% menos substâncias cinzenta. Apresentavam, no entanto, entre 22 e 26% a mais de matéria branca no córtex pré-frontal. O que isso significa? Basicamente que o cérebro de um mentiroso estabelece muitas conexões a mais entre suas memórias e ideias. Essa maior conectividade permite a eles que haja consistência em suas mentiras, e um acesso mais rápido a essas associações.

Homem colocando máscara

Todos esses dados nos dão uma pista sobre como a desonestidade afeta nosso corpo, como esses processos cognitivos vão adquirindo pouco a pouco maior prevalência à medida que agimos de determinado modo, e nosso cérebro deixa também de adicionar um componente emocional a esses comportamentos.

Desse modo, o professor Airely ainda destaca algo verdadeiramente aterrador nessas práticas. O fato da amígdala deixar de reagir perante certos fatos revela também que estamos perdendo algumas das características que nos tornam humanos. Quem já não consegue ver as consequência de seus atos sobre os outros perde sua nobreza, a bondade natural que supostamente definiria a todos nós.

O cérebro de um mentiroso é formado a partir de uma base de motivações bastantes obscuras. Poderíamos dizer que por trás dessa pessoa que decide fazer da mentira sua forma de vida há uma série de objetivos muito concretos: desejo de poder, de status, de dominação, interesses pessoais… É a ideologia de quem decide em um dado momento priorizar a si mesmo, e só a si mesmo, antes de tudo e antes de todo o resto. E nada pode ser mais inquietante.

Pensemos nisso.