María: o caso de uma criança transexual - A Mente é Maravilhosa

María: o caso de uma criança transexual

junho 4, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
María: o caso de uma criança transexual

Dentro das diferentes dimensões do que chamamos de “sexo”, temos a transexualidade. Uma pessoa transexual tem uma identidade biológica, mas não se sente identificada com ela e busca adquirir características do gênero com o qual se identifica. Essa identificação pode ser gradual e influenciar vários aspectos: desde o externo, como a forma de se vestir, o cabelo, etc., até tomar bloqueadores hormonais ou hormônios e, inclusive, realizar cirurgia de mudança de sexo. Em palavras mais simples, podemos dizer que uma criança transexual é uma menina que se sente menino, ou um menino que se sente menina.

Sem querer levantar polêmicas, vamos pensar que a diversidade sexual sempre existiu, a diferença é que agora vivemos em uma sociedade um pouco mais aberta, mais informada, e na qual falar de homossexualidade, transexualidade e intersexualidade não desperta uma rejeição tão grande. A sociedade atual é mais respeitosa com as diferentes manifestações da sexualidade. Por outro lado, o que vemos em muitos casos é que, quando estamos envolvidos de perto na questão, a abertura inicial tende a mudar.

Nesse contexto, hoje vamos falar de María. Um caso que, na época, representou um desafio profissional com o qual pude ver de perto muitas das circunstâncias que circundam o tema da transexualidade infantil.

“A ideia é muito simples: aceitar as pessoas como elas são. Aceitar mesmo que seja diferente”.
-Caitlyn Jenner-

Com que idade acabamos de formar nossa identidade sexual?

A puberdade é a fase que mais se associa com a expressão da sexualidade. Por isso, muitas das ideias e dos conceitos relacionados à sexualidade aparecem, ficam mais claros ou são experimentados pela primeira vez nessa fase. É provável que durante a infância tenha havido alguma demonstração, mas geralmente é mais tarde que damos um significado a esse comportamento. Se aparecerem situações desse tipo na infância, o mais importante é escutar o que a criança tem a dizer.

Muitas vezes, quando vemos um menino brincar de boneca ou colocar um vestido ou uma criança que tem mais afinidade com outras crianças do sexo oposto, que tem atitudes que consideramos “afeminadas” ou “masculinizadas”, assumimos que esse fato é um indicador claro de como sua identidade sexual vai se construir a partir desse momento.

Criança brincando com boneco

Em muitas situações, não temos paciência suficiente para esclarecer completamente se é apenas um comportamento, uma exploração, ou algo mais definitivo. Queremos colocar um rótulo porque isso nos tranquiliza. Na nossa sociedade, embora as coisas tenham mudado, continua sendo melhor visto alguém que nasce do que alguém que se torna.

O caso de María é especial devido ao fato de ser pouco habitual e ao recente aumento da incidência de casos similares. A verdade é que quando María tinha 3 anos de idade, já falava que se sentia um menino. Seus pais e as pessoas ao redor reagiram com insegurança, sem saber o que fazer e com sentimentos conflitantes.

“Seu tempo é limitado. Assim, não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa”.
-Steve Jobs-

O que María estava mostrando?

Em geral, as crianças são muito sinceras quando dividem seus pensamentos em um ambiente no qual sentem confiança. María era muito comunicativa em relação às mudanças que começava a sentir. Ela nos dizia que era um menino; queria se vestir como um menino, cortar o cabelo e muitas vezes a chamávamos por um nome de menino que ela mesma tinha escolhido: Juan.

Quase todas as crianças são curiosas por natureza, perguntam e se questionam sobre os mistérios que encontram em tudo ao redor, sobre o corpo, sobre as diferenças entre meninos e meninas, etc. O que María estava sentindo era mais do que simples curiosidade. Quando começou a desenvolver sua identidade sexual, não se sentiu identificada com ser menina e com todas as expectativas e o protocolo que a sociedade no geral considera com essa identificação. Isso levou a mudanças em sua forma física, de se vestir, de se chamar, de agir e de brincar.

O fato de María ter sido aberta e honesta com o que estava acontecendo ajudou e incentivou todas as pessoas com quem convivia a ajudar. A prestar mais atenção, observar se essas mudanças se mantinham e eram coerentes ao longo do tempo, a se informar e a buscar ajuda para María e para todas as pessoas envolvidas. A ideia básica era atenuar o efeito do “choque social”, minimizando ao máximo as possibilidades de aparecer a ansiedade, o estresse, a depressão, a vontade de não ir à escola, os pesadelos, ou algo mais grave conhecido como disforia de gênero.

“Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, consta na verdade de apenas um momento: o momento no qual o homem sabe para sempre quem é”.
-Jorge Luis Borges-

O trabalho com os adultos diante de uma criança transexual

É importante não entrar em pânico e manter a calma porque isso nos permite ver se estamos diante de um simples comportamento, por exemplo, brincar com jogos mais frequentes no outro sexo, ou algo mais duradouro e interno. O importante é observar com atenção, se colocar à disposição da criança para responder qualquer dúvida e tentar conhecer suas emoções e seus sentimentos. Simplesmente, mostrar-se aberto e tolerante para que a criança sinta que está em um ambiente de confiança, no qual pode se expressar abertamente.

Os adultos que estão presentes na vida da criança transexual, principalmente os pais, mas também os avós, os tios e os professores, podem chegar a guardar sentimentos de culpa. Pensar que fizemos alguma coisa errada, que não fomos respeitosos ou que forçamos e rejeitamos comportamentos porque estão fora do esperado e do que conhecemos. Também é normal sentir medo do que pode acontecer no futuro com a criança transexual. Precisamos saber que não estamos sozinhos e que, nesses casos, a maioria das pessoas tem vontade de agir da melhor maneira possível.

Terapia de casal

Vale destacar que não estamos lidando com uma criança doente que precisa ser tratada. Estamos lidando com uma criança que está se descobrindo, assim como todos nós. E que nesse processo de descoberta pode haver complicações, talvez mais pela injustiça da sociedade na qual vive, e que pode ser positivo receber assistência e ajuda profissional. Devemos agir sempre a partir desta perspectiva.

“A identidade de um homem consiste na coerência entre o que se é e o que se pensa”.
-Charles Sanders Peirce-

Quais mudanças fazer e como as leis nos amparam?

Em relação às crianças transexuais, nosso amor e nossa aceitação incondicionais são fundamentais. Nesse sentido, também é importante tratar as mudanças e as transformações da forma mais natural possível, não exigindo que a criança assuma posições que não deseja, ao mesmo tempo em que devemos buscar informações e adaptar a nossa mente e a nossa linguagem às mudanças. O objetivo é fazer com que o ambiente ao redor da criança transexual assuma uma única posição, a do respeito.

O caso de María aconteceu na Espanha. Em Madrid, uma lei de 2016 fala, entre outras coisas, sobre o direito da criança de viver sua própria identidade. Com a aprovação dos pais (até os 16 anos) elas podem mudar o nome de registro (embora ainda não possam mudar o sexo) e têm direito a ser chamadas pelo nome que escolheram, tanto na escola quanto em qualquer outro lugar que frequentem. Também têm direito de acesso a tratamentos, como bloqueadores hormonais para evitar determinadas mudanças físicas.

A linguagem, a cultura e a sociedade serão mudanças mais lentas e difíceis para uma criança transexual. Em relação à linguagem, faz-se necessário incorporar termos mais neutros ou inclusivos. Devemos pensar que a linguagem é uma expressão da sociedade que, pouco a pouco, vai levar a uma mudança na mentalidade e, então, essas mudanças serão refletidas na maneira como falamos. Nesse sentido, ainda temos muito o que fazer. E, portanto, devemos isso a todos os Juans e a todas as Marías que viveram, vivem e viverão nesse mundo.

“A prova da coragem vem quando estamos em minoria. A prova da tolerância vem quando estamos em maioria”.
-Ralph W. Sockman-

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