Me diga o que eu faria, não o que você faria

· fevereiro 14, 2017

A solidão é ótima para nos deixar angustiados questionando “O que eu faria?”. É má como um demônio quando finalmente queremos falar e quando as dúvidas se acumulam; quando queremos colocar em palavras o que precisamos, ansiamos ou desejamos, os nossos caprichos mais bobos, e não há ninguém por perto. Ligamos para alguém porque nem o sofá, nem o cobertor ou o sorvete, frios demais, servem como salva-vidas. Tentamos todas essas opções, mas elas não afastam nenhuma das nossas perguntas.

Então olhamos para a lista de contatos do nosso telefone e pensamos para quem ligar, para quem desabafar. À medida que aparecem nomes, também aparecem respostas. Na maioria dos casos podemos adivinhar o que essas pessoas irão dizer, em outros sabemos logo que não vão nos atender, que não terão tempo para compartilhar um café quente ou que irão nos escutar enquanto colocam a roupa no varal.

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Falo com você para que me escute

Eu falo com você para que me dê calor, para que entenda que eu estou passando por um mau momento. Para que você saiba que estou com muita raiva, uma coragem acumulada que me faz chorar às escondidas e me encolher entre as folhas em pleno sol. Não preciso que você me diga que me avisou, já sei que você, “tão esperto” como é, nunca teria chegado a essa situação.

Mas você não tem os meus medos, os meus demônios, as minhas ilusões e os meus requisitos, pessoais e intransferíveis, que te tornam o comandante da minha vida. Essa sou eu, embora às vezes renegue e queira jogar tudo pela janela. Não pense que eu sou “boba”, embora eu tenha uma natureza selvagem, não quer dizer que eu brinque com as coisas importantes, com elas eu sou uma pessoa séria. Eu nunca teria feito isso se não tivesse pensado que era o melhor para o meu propósito, mesmo tendo acabado no absurdo de terem surgido minhas lágrimas.

Não preciso que você me dê uma bronca, já tenho um grilo falante próprio que nestes momentos não consigo calar, nem submetendo-o às piores torturas. Ele grita mais do que a minha capacidade de ignorá-lo. Insistente, cabeça dura, incansável, como se percebesse que é meu. Também não ria, porque não tem graça. Se você acha que está tirando a importância do assunto, está errado: a única coisa que faz é que eu me sinta mais insignificante quando já me sinto pequena.

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Não quero saber o que você faria

Também não quero saber o que você faria no meu lugar, este não é um conclave para encontrar soluçõesAo menos não antes de eu sentir, de eu ter certeza de que você me entendeu, de que você se colocou no meu lugar e nas minhas circunstâncias e está disposto a suportar a dificuldade que eles impõem. Depois, talvez você possa me ajudar a avaliar as opções, mas sem voltar ao seu lugar.

Não pense que eu vou lhe dar toda a razão porque no passado eu errei. Isso não faz com que o seu critério seja mais valioso que o meu, não se esqueça de que eu não abandonei a possibilidade de assumir o que aconteceu, nem o que vai acontecer. São decisões independentes e sim, talvez você irá testemunhar como eu vou voltar a errar, mas… por acaso eu não estou com você?

Me abrace. Parece que eu tenho que lhe dizer tudo. Me perdoe, isso é apenas produto do meu estado de ânimo. Mas você pode me abraçar da mesma forma, neste ponto isso irá me acalmar, bastante. Inclusive eu deixo, já que todo o meu peso é um fardo, que você volte para o seu lugar e me conte o que o preocupa, pelo que você mataria ou se tem fome. Por último, tenho um pouco de sorvete guardado, aceita?