Mentir às vezes ajuda?

· setembro 7, 2016

Se nos perguntarem, com certeza a maioria de nós dirá que odeia e não tolera mentir. Geralmente abordamos o tema pelo aspecto moral e, portanto, condenamos qualquer comportamento associado à falsidade. O curioso é que todos nós mentimos de vez em quando: “mentiras piedosas”, dizemos para justificar o que tanto repudiamos.

Esta pergunta pode nos desconcertar: O que aconteceria se ninguém mentisse? Por exemplo, se você encontra alguém que lhe diz: “Nossa, como você é feio”! Ou um chefe que o recebe dizendo: “Você é um idiota e estou procurando uma oportunidade para demiti-lo”. Ou então você convida alguém para jantar em sua casa e, no final, em vez de agradecer ele lhe diz: “Você não sabe cozinhar, que comida sem sabor!”

“Sem as mentiras, a humanidade morreria de desespero e tédio”.
-Anatole France-

Esses são alguns casos de sinceridade extrema que podem ser chamados de grosserias. Assim como dizemos que não gostamos de mentiras, precisamos reconhecer que também não gostamos de certas verdades. Em alguns casos, mentir não é enganar no sentido moral do termo, mas evitar conflitos desnecessários.

A mentira é válida?

Como em quase todo o comportamento humano, a coisa mais importante não é o próprio comportamento, mas a intenção por trás de cada ato. Há aqueles que se orgulham de serem absolutamente sinceros e saem por aí dizendo verdades para todo mundo sem a menor consideração. Será que a sua intenção é dizer a verdade, ou ferir as pessoas usando um pretexto moral?

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Da mesma forma, existem pessoas que mentem com uma intenção louvável. Algum tempo atrás um repórter disse que sua mãe estava doente e o médico o chamou para dar o diagnóstico: câncer de pâncreas. Ele pediu ao médico para não contar para sua mãe, porque ela era uma pessoa extremamente impressionável e isso poderia afetá-la demais.

Mas o médico, levando em conta a ética profissional, disse para a mulher qual era o diagnóstico. Ela ficou muito nervosa e uma semana depois morreu de uma crise hipertensiva. Essa notícia lhe causou tanto medo e sofrimento que ela não resistiu. A verdade causou um mal maior do que ignorar a sua doença. Muitas vezes a mentira pode ajudar, até encontrarmos uma oportunidade para dizer a verdade.

Dessa forma, uma mentira só pode ser aceita quando se leva em conta o que a motivou e as suas consequências. Se a intenção é evitar um mal maior, podemos deixar de lado a questão moral e focar nas consequências de uma verdade. Nem sempre a mentira é condenável.

Mentir para ganhar algo em troca

Se o propósito da mentira é satisfazer um desejo egoísta ou lucrar de alguma forma, a situação é muito diferente. Neste caso, a mentira se transforma em uma ferramenta de manipulação. As verdades são omitidas ou distorcidas com a finalidade de deixar o outro vulnerável: a vulnerabilidade surge quando desconhecemos informações relevantes que nos atingem diretamente.

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Esse tipo de mentira só ajuda quem as conta. Ao invés de evitar um sofrimento ou conflito desnecessário, acabam causando mais dor. O mesmo acontece quando mentimos por medo de enfrentar a verdade ou assumir alguma responsabilidade. Isto não é uma boa fórmula para manter uma situação sob controle, e sim um veneno que está poluindo tudo ao seu redor.

Existem outros tipos de mentiras que são utilizadas em alguns tipos de terapia. São aquelas frases que as pessoas repetem para si mesmas para funcionarem como uma autossugestão. Por exemplo: “eu estou bem e ficarei cada vez melhor”, embora a realidade seja outra. Neste caso, trata-se de um mecanismo semelhante ao de algumas propagandas pelo qual “uma mentira repetida mil vezes pode se transformar em uma verdade”.

Às vezes nos enganamos para sobreviver em um momento difícil ou porque não estamos preparados para enfrentar a verdade. O problema é que esse processo nem sempre é consciente; acreditamos nessas mentiras e ficamos presos a elas.

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Sem dúvida alguma, em alguns casos a mentira ajuda muito, mas na maioria das situações a verdade ajuda muito mais. De qualquer forma, não se esqueça de que a mentira tem um preço. Se você disser para alguém que cozinha mal que gosta da sua comida, continuará comendo o que não quer. Se disser uma mentira mais comprometedora, o preço pode ser maior e ela pode acabar com o seu relacionamento. Será que vale a pena?