Mudita, a alegria altruísta em sânscrito

Mudita é uma espécie de alegria pura e imaculada, não contaminada pelo ego ou inveja. Significa sentir-se feliz pela felicidade dos outros, pela sorte dos nossos amigos, familiares, colegas de trabalho, etc.
Mudita, a alegria altruísta em sânscrito

Última atualização: 09 Outubro, 2021

Mudita é um termo que tem suas raízes no sânscrito e define a alegria que sentimos pela bem-aventurança e felicidade dos outros. Esta bela palavra não existe no mundo ocidental e mantê-la em nossas mentes nos ajudaria a dar presença a essa emoção tão decisiva em nossos relacionamentos e tão ausente em muitos dos nossos ambientes sociais.

O budismo até desenvolveu um tipo de meditação com o objetivo de promover esse estado de espírito. Valorizar o bem-estar dos que nos rodeiam é uma virtude e um princípio fundamental de convivência. Acima de tudo, envolve abandonar emoções perturbadoras como inveja, ganância, ressentimento e aquele desconforto silencioso que surge de ver que os outros estão se saindo melhor do que nós.

A verdade é que é fascinante como a linguagem e as palavras nos convidam a refletir sobre realidades que, às vezes, não podem ser definidas em outros idiomas. No entanto, o fato de certas emoções ou sentimentos não terem sua entrada em um dicionário não significa que não existam. Mudita é um estado psicológico que todos devemos promover e desenvolver.

Mudita é um tipo fundamental de virtude no budismo. Significa alegrar-se com a abundância e felicidade alheia e até mesmo ser capaz de promover o bem-estar alheio.

Reflexão diante do pôr do sol

O que é a alegria altruísta (mudita)?

A alegria altruísta ou mudita está incluída entre as “virtudes sublimes” (Brahmavihārās -in Pali-) do budismo. Elas definem uma série de práticas que vão além da meditação. Buscam promover no ser humano um estilo de vida, uma forma de agir e até um código moral.

Essa perspectiva também chamou a atenção da psicologia. Um exemplo disso foi um estudo realizado na Universidade de Kansas (Estados Unidos). Este trabalho tentou entender a diferença entre alegria empática e alegria altruísta.

A primeira se limita a sentir a emoção positiva de alguém, a ser infectado por esse estado. No entanto, a alegria altruísta é experimentada quando fazemos algo por alguém para melhorar seu bem-estar e, por sua vez, desfrutar da felicidade do outro.

O que o budismo define como cultivar a virtude mudita implica, na psicologia, exercer a proatividade associada a uma empatia emocional que gratifica e se orgulha da felicidade dos outros.

As quatro virtudes sublimes

Mudita, como já apontamos, é parte das quatro virtudes sublimes do budismo. É interessante conhecê-las para ter uma visão mais global deste interessante conceito. São práticas que se cultivam por meio da meditação e da recitação, mas que nos convidam a uma profunda mudança emocional e comportamental.

Não basta entender o que é Mudita; é preciso incorporá-lo, senti-lo, torná-lo nosso e exercitar as outras dimensões que o acompanham. São as seguintes:

  • O amor bondoso (metta -in Pali, Sânscrito-) é praticar um tipo de afeição livre de apegos, mas forte em significado, abertura e tolerância. É aceitar o outro como ele é por afeto, sem a necessidade de controlá-lo.
  • Compaixão (Karuna -pali / Sânscrito-). Este termo não significa sentir pena de alguém. Compaixão no budismo é entender que todos nós merecemos ser livres do sofrimento. É poder estar presente para os outros de forma generosa.
  • A alegria altruísta (mudita -pali / Sânscrito-) define a habilidade de se alegrar com a abundância dos outros. É ser capaz de mediar o bem-estar dos outros, esvaziando-se da inveja e do ego.
  • Equanimidade (uppekha -in Pali, Sânscrito-) é a virtude que une os pontos acima. Implica saber levar uma vida harmoniosa, livre de apegos e na qual integramos todas as virtudes mencionadas acima.
Coração de pedra com graffiti

Mudita em oposto ao Schadenfreude

Em alemão, há uma palavra que define o oposto exato de mudita: schadenfreude. Este termo se refere à satisfação que algumas pessoas experimentam ao ver que a vida está indo mal para os outros. De alguma forma, esse sentimento aparece com frequência nesta sociedade altamente competitiva.

Ocorre em ambientes de trabalho entre colegas, na academia e, às vezes, entre grupos de amigos e familiares. A raiz do schadenfreude é a inveja, em oposição à mudita, um sentimento nutrido pela alegria altruísta e empática. O budismo, por sua vez, nos diz que, de certa forma, todos nascemos nobres, mas às vezes o contexto sociocultural injeta em nós o ego, a inveja, o ressentimento…

Exercitar essa emoção enriquecedora exige esforço e vontade. Não é fácil regozijar-se com o sucesso dos outros. Porque logo sentimos a picada da vontade, do desejo de possuir a sorte que o outro tem. Deixar-nos levar por esses sentimentos só aumenta o desconforto e até o distanciamento. Não é a coisa certa a se fazer.

Sejamos capazes de nos alegrar com a felicidade do outro e até promovê-la. Porque o altruísmo se reverte positivamente para nós mesmos, porque sentir o bem-estar dos que estão à nossa volta como nosso é um ato de nobreza, de gentileza e também de amor.

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