Mulheres feministas do mundo árabe

fevereiro 11, 2019

O feminismo é o conjunto de movimentos que tem como objetivo principal a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Por esse motivo, busca acabar com a supremacia dos homens e eliminar os papéis de gênero. Apesar do feminismo parecer um movimento de maior peso no Ocidente, devemos destacar os diferentes tipos de feminismo que surgiram em outras áreas do planeta. Um exemplo disso é aquele que podemos encontrar nas mulheres feministas do mundo árabe.

No começo do século XX, aconteceram no Egito, na Síria e no Líbano uma série de movimentos que buscavam melhorar a situação de inferioridade das mulheres. Estes movimentos ativos atualmente deixaram nomes de feministas tão destacadas como Malak Hifni Nasif, Huda Shaarawi, Hind Nawfal ou Fay Afaf Kanafani. No entanto, estes nomes não ganharam a relevância que mereciam no Ocidente. Para mudar isso, a seguir vamos recordar a biografia de algumas grandes mulheres feministas do mundo árabe.

As mulheres feministas do mundo árabe deixaram uma marca que deve ser respeitada.

Grandes feministas do mundo árabe

A força do feminismo

Durriya Shafik (1908-1975)

Durriya foi uma acadêmica, jornalista, professora e ativista egípcia. Ela se formou na Universidade do Cairo e na Sorbonne, e se transformou em uma líder na luta política, chegando, inclusive, a sofrer prisão domiciliar. Durriya defendia o laicismo e a democracia, argumentando que o Islã fala da igualdade das mulheres e não exige nem o véu, nem a domesticidade.

Entre os seus méritos se destacam a criação de uma revista que contava com uma seção dedicada a promover os direitos políticos das mulheres. Também fundou uma associação feminista de classe média, com o intuito de estimular a alfabetização e os direitos políticos das mulheres. Do mesmo modo, Durriya chegou a fundar o partido político “A filha do Nilo”, que depois seria dissolvido pelo resto dos partidos.

A sua ação mais aclamada foi uma greve de fome com a qual conseguiu que a constituição garantisse plenos direitos políticos para as mulheres. A nova constituição outorgou às mulheres o direito ao voto, apesar de isso acontecer somente com aquelas que o solicitaram formalmente.

Posteriormente, uma nova greve de fome para protestar contra a ditadura de Nasser e a ocupação de Israel do Sinai fez com que ela perdesse o apoio que tinha, fosse denunciada como traidora e colocada sob prisão domiciliar. A partir desse momento, Durriya sofreu contínuas crises emocionais que, finalmente, a levaram ao suicídio.

Zaynab al-Ghazzali (1917-2005)

A escritora egípcia Zaynab al-Ghazzali defendia a implantação de um estado islâmico regido pela Sharia ou Lei Islâmica. Ela defendia que as mulheres teriam os seus direitos reconhecidos através desta lei. Muito jovem, Zaybab fundou a Associação das Mulheres Muçulmanas, que foi um grupo islamista* que rejeitava o nacionalismo e o caráter semi-laico.

Zaynab manteve contato com outros movimentos islamistas, como os Irmãos Muçulmanos. Quando alguns dos seus membros foram presos, ela foi uma das mulheres que serviram de ligação entre os presos e que tomariam as rédeas da oposição islamista. Isso levou o governo a prendê-la e torturá-la.

Nawal el-Saadawi (1931)

Nawal foi chamada de “Simone Beauvoir do mundo árabe”. Esta médica especialista em saúde mental dedicou sua carreira profissional a defender os direitos políticos e sexuais das mulheres.

Os seus textos lhe custaram a expulsão do cargo que ocupava no Ministério da Saúde. Pelo mesmo motivo, ela passou dois meses presa, durante os quais, utilizando um rolo de papel higiênico e um lápis de maquiagem, escreveu “Memórias da prisão para mulheres”.

Durante a sua vida agitada, Nawal tentou fundar no Egito um partido formado somente por mulheres e de ideologia feminista. Uma ideia que não pôde ser concretizada porque a proibiram. Nawal também foi co-fundadora da Associação Árabe dos Direitos Humanos, e fundadora da Associação de Solidariedade com a Mulher Árabe.

Finalmente, as ameaças dos grupos islamistas a levaram a viver fora do seu país, apesar de ter voltado em 2011, com o começo da Primavera Árabe.

Fatima Mernissi (1940-2015)

Fatima Mernissi foi uma das mulheres feministas de maior destaque do Marrocos. Formada em Ciências Políticas e Doutora em Sociologia, ela se apresentava como uma autoridade mundial na área dos estudos do Alcorão.

Depois de estudar diferentes versões do Alcorão, Fatima defendia que o profeta Maomé foi um homem feminista e progressista para a sua época. Além disso, indicou que não foi ele, mas outros homens, aqueles que começaram a considerar o sexo oposto como seres de segunda categoria.

 

Fatima Mernissi

Suas teorias podem ser encontradas no livro ‘O Harém Político: o Profeta e as Mulheres’. O livro foi proibido no Marrocos por expor que os textos sagrados haviam sido mal interpretados por homens autoritários, que apoiavam sua misoginia com argumentos religiosos manipuladores. O conjunto de sua obra a levou a ganhar diversos prêmios, entre eles, o prêmio Príncipe de Astúrias (2003).

As feministas do mundo árabe tiveram e têm uma grande presença. Em épocas diferentes, elas lutaram pelos direitos das mulheres, apesar de pagarem um alto preço por isso. Seja defendendo uma religião mais igualitária, o laicismo ou a democracia, as mulheres feministas do mundo árabe deixaram uma marca que deve ser respeitada.

* O Islamismo é um conjunto de movimentos que defende a união da política com as normas religiosas do Islã.