O narcisismo no relacionamento: o que podemos fazer?

junho 4, 2019
O narcisismo no relacionamento é mediado por uma pessoa que, em um primeiro momento, nos deslumbrou com sua atenção e sua personalidade cativante. Entretanto, mais tarde surge a verdadeira face e as artimanhas que articulam a fraude, a manipulação e a sabotagem emocional.

Quando surge o narcisismo no relacionamento, a angústia e o medo aparecem. Porque muito além do que podemos pensar, os homens e as mulheres narcisistas também se apaixonam. No entanto, seu mecanismo para amar gera “uma corda” que vai fazendo um nó ao nosso redor. A cada dia aperta mais e a cada instante perdemos mais direitos e vontades, podendo ter roubada nossa própria voz.

Há quem afirme ser um verdadeiro “ímã para os narcisistas”. Por que isso acontece? Existe alguma explicação para não conseguirmos enxergar esse tipo de perfil e, consequentemente, não conseguirmos nos proteger dele? Há teorias que sustentam que, em média, são as pessoas mais sensíveis e empáticas que se sentem encantadas por esse tipo de personalidade.

Há talvez uma espécie de retroalimentação, na qual um nutre as necessidades do outro. No entanto, deve-se dizer que não há dados conclusivos sobre esse assunto porque, na verdade, todos nós, independentemente da nossa forma de ser, idade ou status, podemos nos sentir atraídos por esse perfil. A razão disso reside no fato de que os narcisistas costumam ser muito magnéticos no início.

Assim, é comum que apresentem traços como uma grande bondade, vivacidade, um bom senso de humor, inteligência, segurança em si mesmo e uma extroversão cintilante que nunca passa despercebida. No entanto, por baixo desse verniz deslumbrante, sem dúvida, está a verdadeira pele, caracterizada basicamente pela impossibilidade de criar um vínculo emocionalmente positivo com alguém.

 “Um egoísta é aquele que se empenha em falar de si mesmo quando você está morrendo de vontade de falar sobre você”.
-Jean Cocteau-

Como recuperar a autoestima perdida

O narcisismo no relacionamento: dicas de como agir

O modo como o narcisismo no relacionamento surge corresponde a diferentes realidades. Assim, é comum que possam ocorrer dois fatos muito específicos: o primeiro, que o narcisismo parta de ambos os membros do casal.

O segundo, que seja um dos dois quem está exercendo de forma clara e evidente um comportamento tão prejudicial quanto destrutivo para a própria relação. São, sem dúvida, duas situações que devemos analisar.

O narcisismo no relacionamento: quando os dois agem com egoísmo

É importante diferenciar o comportamento narcisista do transtorno de personalidade narcisista. Neste último caso, estaríamos falando de uma condição clínica prevista no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V).

Portanto, pode ser o caso de que, em um relacionamento, estejam envolvidas duas pessoas com esse tipo de personalidade ou mesmo com esse transtorno. É incomum, mas pode acontecer. Ao mesmo tempo, outra realidade que por vezes acontece no ciclo de vida de um relacionamento é a seguinte:

  • Deixamos de lado as necessidades do casal para priorizar as nossas.
  • Não é só esse desleixo emocional que surge. Além disso, aparecem determinados comportamentos, como a necessidade de controle e os bons e maus momentos nos quais às vezes queremos o(a) parceiro(a) por perto e outras vezes queremos distância.

Qual é a explicação para esse tipo de relação? O que acontece quando o narcisismo no relacionamento parte de ambos os membros? O que acontece é que esse vínculo se situa em um abismo no qual, cedo ou tarde, chegará a um final. Há casais que deixaram de se amar e, entretanto, não são capazes de dar o próximo passo para ter um fim saudável.

Aparece a apatia e, ao mesmo tempo, continua presente o fardo da dependência, o não querer deixar ir o que um dia já “foi nosso”.

Homem preso por manipulação emocional

Meu parceiro (ou minha parceira) é narcisista: o que posso fazer?

O narcisismo no relacionamento se manifesta mais comumente em um dos membros do casal. Assim, é só depois de algum tempo que a outra pessoa se torna consciente da verdadeira personalidade do ser amado. É nesse momento que morre a admiração que antes existia para abrir os olhos à anatomia do narcisista.

Dicas para refletir e tomar decisões

Livesley, Jang, Jackson e Vernon (1993) afirmam em um estudo que em 64% dos casos a personalidade narcisista tem uma origem genética. Portanto, as mudanças não ocorrem tão facilmente.

Ao mesmo tempo, esse perfil costuma estar situado em um espectro: haverá quem evidencie um comportamento mais abusivo e quem apresente apenas algumas poucas características.

Estas são algumas dicas sobre as quais devemos refletir.

  • Nunca duvide de si mesmo. Quando o narcisismo no relacionamento se torna presente, só restam duas opções: reagir ou acostumar-se a viver no abandono emocional. Se optarmos pela última opção, acabaremos duvidando de nós mesmos, da nossa autoestima e até da nossa própria identidade.
  • Rupturas e reconciliações: realmente vale a pena?  Ter um(a) parceiro(a) narcisista significa viver em uma montanha-russa de distanciamentos e reconciliações. É possível que em algum momento você tenha tido forças para sair dessa relação. Entretanto, o narcisista é hábil para se mostrar afetuoso e “nos prender” de novo. Considere o que isso significa para a sua dignidade.
  • Precisam de você para valorizar a autoestima, mas onde fica a sua? Os narcisistas carecem de um eu central. Desse modo, para estabilizar e fortalecer sua autoimagem, precisam de alguém que faça isso por eles. Então, nutrem-se da outra pessoa para se reafirmarem. Reflita e pense se isso realmente vale a pena. Visualize por um instante como você enxerga a si mesmo dentro de 5 ou 10 anos.
Mulher triste no seu relacionamento

Conclusões

Sem dúvida, poderíamos afirmar que a melhor opção é caminhar para o término. No entanto, essa decisão é pessoal e significará admitir que ninguém pode mudar ou se posicionar sobre determinadas inclinações de sua personalidade, eliminando seus efeitos.

Assim, é preciso analisar cada caso específico: o perigo de generalizar nesse ponto é muito grande. Nem todas as situações são iguais, nem todas as pessoas narcisistas ou com um transtorno de personalidade narcisista são semelhantes.

No entanto, e apesar de existirem abordagens psicológicas, como a terapia de conversa para tentar gerar mudanças nesse tipo de paciente, é um processo complexo. A isso, é preciso somar a resistência dessas pessoas em procurar terapia.

Portanto, o narcisismo no relacionamento é algo que vai exigir muito de nossa parte, em primeiro lugar para nos defender e tomar decisões. Vamos fazer isso priorizando o nosso próprio bem-estar e a nossa integridade.

  • Sedikides, C., Rudich, E. A., Gregg, A. P., Kumashiro, M., & Rusbult, C. (2004, September). Are normal narcissists psychologically healthy?: Self-esteem matters. Journal of Personality and Social Psychology. https://doi.org/10.1037/0022-3514.87.3.400
  • Judge, T. A., LePine, J. A., & Rich, B. L. (2006). Loving yourself abundantly: Relationship of the narcissistic personality to self- and other perceptions of workplace deviance, leadership, and task and contextual performance. Journal of Applied Psychology91(4), 762–776. https://doi.org/10.1037/0021-9010.91.4.762
  • Masterson, JF (2004). Guía de un terapeuta para los trastornos de la personalidad: el enfoque de Masterson: un manual y un libro de ejercicios. Phoenix, Az .: Zeig, Tucker, & Theisen, Inc.