O cansaço pode ser um sinal de tristeza encoberta

O cansaço pode ser um sinal de tristeza encoberta

outubro 29, 2017 em Psicologia 19 Compartilhados
O cansaço pode ser um sinal de tristeza encoberta

Às vezes nos sentimos fora de sintonia, envoltos em um dia a dia de cinzas e brancos, vazio e sem sentido. Quando nos perguntam o que está acontecendo, dizemos que estamos cansados, apenas isso e nada mais. No entanto, o cansaço pode ser um sinal de tristeza, essa amiga cinzenta que se instala, sem permissão, na mente e no coração para espalhar a apatia e o recolhimento.

Vamos admitir, todos nós já passamos em algum momento por essa mesma situação. Quando ao cansaço é acrescentada essa emoção grudenta, apática e intensa que é a tristeza, as pessoas não hesitam em apelar para o “doutor Google” em busca de um possível diagnóstico. Imediatamente aparecem termos como “depressão”, “anemia”, “hipotireoidismo”, etc.

“Bom dia tristeza, inscrita nas listras do teto, você não é exatamente a miséria, pois os lábios mais tristes anunciam você com um sorriso…”
-Paul Éluard-

Quando a tristeza se instala em nós a concebemos imediatamente como algo equivocado, como algo patológico do qual queremos nos livrar imediatamente, como quem tira o pó ou a sujeira da roupa. Não gostamos e queremos nos defender dela sem parar sequer para entender a sua anatomia, para nos aprofundarmos nas suas melancólicas reentrâncias, para adquirir um aprendizado muito mais profundo de nós mesmos.

Na verdade, às vezes nos esquecemos de que a tristeza não é um transtorno, que tristeza e depressão não são a mesma coisa. Desde que essa emoção não permaneça por muito tempo e não interfira de maneira contínua no nosso estilo de vida, traz uma boa oportunidade, por mais paradoxo que pareça, de progredir para crescer como pessoa.

Mulher sentada em cama em meio à natureza

Sempre estamos cansados, mas o cansaço pode ser um sinal de tristeza

Às vezes passamos épocas assim, épocas nas quais nos deitamos cansados e nos levantamos da mesma maneira. Podemos ir ao médico, e no entanto, os exames nos dirão que não há nenhum desajuste hormonal, nem déficit de ferro, nem nenhuma outra patologia de origem orgânica. É muito possível que o profissional da saúde nos indique que talvez seja a mudança de estação, uma pequena distimia típica do outono ou da primavera. Algo muito leve e que pode ser resolvido com um tratamento farmacológico pontual e limitado no tempo.

Há estados emocionais que não requerem de forma alguma o auxílio da farmacopeia para serem resolvidos. No entanto, ao sentir seu impacto psicossomático no nosso corpo é normal se assustar e cometer o erro de tratar o sintoma sem abordar primeiro o foco do problema: a tristeza.

Por que nos sentimos cansados quando estamos tristes?

Os mecanismos cerebrais que regem nossos estados emocionais se diferenciam bastante entre si. Enquanto a alegria ou a efusividade originam uma série de conexões e hiperatividade nas nossas células cerebrais, a tristeza é muito mais austera e prefere economizar em recursos. No entanto, ela o faz por um objetivo muito específico. Vamos ver com mais detalhes.

  • A tristeza gera no nosso organismo uma diminuição de energia muito significativa. Além disso, sentimos a necessidade de evitar as relações sociais, elas nos incomodam, o som pode provocar até mesmo dor, o ambiente ao nosso redor nos incomoda e preferimos nosso canto da solidão.
  • É interessante saber, além disso, que a estrutura que assume o controle no nosso cérebro é a amígdala, mas, cuidado, somente uma parte dela assume o controle, mais especificamente a parte direita.
  • Essa pequena região cerebral é que nos induz essa sensação de recolhimento, de inatividade, de cansaço físico… Toda essa queda de energia tem em si mesma um objetivo: favorecer a introspecção.

Ao mesmo tempo, os estados de tristeza reduzem a nossa capacidade de prestar atenção a todos os estímulos externos que nos rodeiam. Isso acontece por uma razão muito evidente: o cérebro tenta nos dizer que é o momento de parar e pensar, de refletir sobre certos aspectos da nossa vida.

Mulher deitada na grama

Coisas que devemos aprender sobre os estados ocasionais associados à tristeza

A tristeza ocasional, essa que nos abraça durante alguns dias e que nos faz sentir cansaço, desconectados da nossa realidade e ficar com ar infeliz, é algo do que não podemos nos descuidar. Tratar os sintomas, tratar nosso cansaço com vitaminas ou nossa dor de cabeça com analgésicos não serve de nada se não chegamos à autêntica raiz do problema.

“Não gosto de chamar de tristeza esse sentimento doce e desconhecido pelo qual eu estou obcecada.”
-Françoise Sagan

Se não fizermos isso, se não pararmos e cuidarmos do que nos incomoda ou nos preocupa, é possível que essa bola se torne maior e a tristeza mais extensa. Portanto, pode ser útil refletir sobre uma série de dimensões sobre essa emoção que, sem dúvidas, vão esclarecer alguns pequenos detalhes.

Mulher com flores escondendo o rosto

Três “virtudes” sobre a tristeza que devemos compreender

  • A tristeza é uma advertência. Já apontamos antes: a perda de energia, o fato de estar cansado e com falta de recursos mentais para nos desenvolver no dia a dia são apenas sintomas de um problema evidente que devemos resolver.
  • A tristeza como resultado do desapego. Às vezes, nosso próprio cérebro já nos avisa de alguma coisa que a nossa mente consciente não assume: “é o momento de deixar esse relacionamento”, “esse objetivo que você tem em mente não vai se realizar”, “você não está feliz nesse trabalho, você está se queimando: talvez você deva sair”…
  • A tristeza como instinto de conservação. Esse dado é curioso e não podemos nos esquecer dele: às vezes a tristeza nos leva a “hibernar”, a nos desconectar temporariamente da nossa realidade para conservar recursos… É algo comum quando, por exemplo, sofremos uma decepção, por isso sempre será mais saudável refletir durante alguns dias no íntimo recolhimento com o objetivo de proteger a nossa autoestima, a nossa integridade…

Para concluir, assim como podemos ver, há épocas nas nossas vidas em que o cansaço tem poucos motivos físicos e muitos emocionais. Longe de ver a tristeza como um transtorno a ser tratado, devemos enxergá-la como uma voz interna que devemos ouvir, como uma emoção valiosa e útil que se constitui como essencial para o crescimento do ser humano.

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