O curioso experimento da caverna dos ladrões

· outubro 31, 2017

O experimento da caverna dos ladrões é um dos mais clássicos no campo da psicologia social. Ele foi realizado em 1945 por iniciativa de Muzafer Sherif e Carolyn Sherif, professores da Universidade de Oklahoma (USA). Seu propósito era identificar alguns pontos que nos permitissem entender melhor os preconceitos sociais.

O experimento da caverna dos ladrões se concentrou no conceito de “grupo”. A tentativa era visualizar como se forma a percepção de pertencimento a determinado grupo, como se configuram as relações dentro dele e como um grupo se relaciona com os outros.

“Os preconceitos são convicções anteriores à observação.”
-José Ingenieros-

Outro objetivo era identificar de que maneira surge ou se intensifica o conflito entre os grupos. Quando há dois grupos nos quais seus integrantes desenvolveram uma grande sensação de pertencimento ao grupo, parece que ao mesmo tempo é comum o aumento da rejeição aos grupos de não-pertencimento e às características que identificam tais grupos. Paralelamente, isso pode ser revertido. Vamos ver como esse interessante estudo foi realizado.

O experimento da caverna dos ladrões

Para realizar o estudo, os pesquisadores escolheram 22 meninos de 11 anos de idade. Todos eles eram meninos “normais”. Isso quer dizer que não tinham antecedentes de mau comportamento, vinham de famílias estáveis e tinham bom desempenho escolar. Todos eram meninos de classe média e nenhum deles sabia que estava fazendo parte de um experimento.

Acampar no meio da floresta

Depois de ser feita a seleção, os meninos foram divididos de maneira aleatória em dois grupos. Depois foram participar de um campeonato de verão, em uma região de Oklahoma conhecida como parque estatal da caverna dos ladrões. Os dois grupos acamparam em lugares distantes. Nenhum dos meninos sabia que o outro grupo existia.

O experimento da caverna dos ladrões foi dividido em três fases: na primeira, os pesquisadores tentaram estimular o sentimento de pertencimento ao grupo. A segunda era a fase do atrito, na qual deliberadamente foram criadas situações para criar conflitos de um grupo com o outro. A fase final era a de integração, na qual os pesquisadores tentariam fazer com que os conflitos se resolvessem e as aparentes diferenças diminuíssem.

O pertencimento e o conflito

Durante a primeira semana foram desenvolvidas atividades para consolidar as relações internas em cada grupo. Os meninos fizeram caminhadas juntos, foram nadar na piscina em grupo e realizaram várias atividades recreativas. A cada grupo foi pedido que escolhessem um nome e um símbolo. Um dos grupos se autodenominou “Águias” e o outro “Cascavéis”.

Nessa primeira fase, observou-se que os membros de cada grupo foram se identificando com seu próprio grupo e desenvolvendo um forte sentimento de pertencimento. Em poucos dias surgiram hierarquias e diferentes papéis internos em cada grupo. Os vínculos entre os membros se estreitaram progressivamente em de cada acampamento.

Na segunda semana, ambos os grupos ficaram sabendo da existência um do outro. Desde o começo, cada grupo se mostrou na defensiva em relação ao outro. As barreiras eram evidentes. Foram os próprios meninos que pediram para os pesquisadores realizarem atividades de competição entre os dois grupos. Eles fizeram isso e, inclusive, ofereceram um prêmio ao grupo vencedor, que acabou sendo o “Cascavéis”.

A partir de então a hostilidade aumentou notavelmente. Os atritos se tornaram frequentes, chegando ao ponto dos meninos se negarem a comer juntos no mesmo lugar. A rejeição mútua aumentou tanto que os pesquisadores decidiram encerrar essa fase antes do que tinham inicialmente planejado, receando que a situação de confronto saísse do controle.

Os responsáveis pelo experimento da caverna dos ladrões comprovaram que o sentimento de pertencimento e o preconceito com o diferente andam lado a lado. Eles também perceberam como era fácil reforçar o sentimento de pertencimento a um grupo e criar ódio entre os dois grupos.

O poder dos objetivos comuns

Na fase final, os pesquisadores elaboraram atividades que exigissem a cooperação de ambos os grupos. Uma delas envolveu criar um problema fictício. Eles disseram aos meninos que a reserva de água tinha acabado por culpa de alguns vândalos (inimigo externo comum). Os meninos deveriam resolver o problema do abastecimento. Para isso, ambos os grupos trabalharam em conjunto.

Crianças trabalhando em equipe

Mais tarde, os pesquisadores disseram que exibiriam um filme do qual quase todos os meninos gostavam, mas que eles teriam que pagar pela exibição. Nenhum dos grupos conseguia atingir a soma exigida e novamente tiveram que cooperar para conquistar o objetivo comum.

Depois de resolver vários problemas conjuntamente, a antipatia mútua foi desaparecendo. Tanto que durante a volta ambos os grupos pediram para ir no mesmo ônibus. Quando pararam para descansar, o grupo “Cascavéis” usou o dinheiro que ganharam na competição para comprar refrigerante para todos os 22 meninos.

Os pesquisadores da caverna dos ladrões concluíram que o estabelecimento de problemas em comum e, por sua vez, objetivos comuns era uma via para a resolução de conflitos entre grupos. Os pesquisadores nomearam o estudo como “teoria do conflito realístico”. Nele, indicam que a resolução conjunta de um problema comum faz com que os preconceitos diminuam pouco a pouco, até desaparecer.